Escrito em 6 de março de 2014.
Ainda ontem conversava com
uma amiga e dizia: a fé é um dom, não sei se a tenho, mas ajo “como se”.
Sempre rezo pedindo o dom da
Fé.
Quando sou questionada sobre
se acredito mesmo na Vida Eterna, especialmente por meu filho, eu respondo:
quero acreditar e rezo para isto, mas, o que me importa, é que aquilo que chamo
de Fé me sustenta nesta vida. Se houver de fato, outra, melhor, mas se não
houver, minha fé me ajudou a viver esta.
Falo isto com a “liberdade”
que me permito aos 50 anos, sem medo de escandalizar os moralistas, puritanos e
“crentes” que se julgam tão crentes, mas tão crentes, que nem se permitem uma autoverificação
da própria fé. Não me refiro, ao usar a palavra “crente”, a nenhuma religião,
mas à pessoa que crê.
Já conversei sobre isto com
o padre, ele foi muito compreensivo. Coloco-me diante de Deus com minha
humildade. Não tenho a prepotência de fingir um Dom que ainda não tenho por
completo. Mas me esforço diariamente para obtê-lo. Exercito-me para isto. Mesmo
que signifique participar de 6 missas dominicais em neerlandês na Bélgica.
Alguns dirão: qual a importância de participar da missa em um idioma que você
não domina? Ah, não vou responder não... Foi importante para mim e pronto.
Em tempo: A Liturgia Católica
é universal, então eu pesquisava quais os textos da Missa naquele dia, marcava
na minha Bíblia e ficava lá na Igreja em Leuven. Quando o leitor fazia a
Primeira Leitura em neerlandês, eu fazia a minha, silenciosamente, em português.
Na hora das orações e respostas litúrgicas, a mesma coisa. Todo mundo rezava o
Pai Nosso e o Credo em neerlandês e eu rezava em Português. O curioso é que,
como a língua local escrita é o neerlandês/ flemish, mas a oral é o inglês,
algumas vezes o padre fazia uma parte da homilia em inglês, Na maioria das
vezes, fazia na língua local e eu não entendia nada, mas ficava meditando sobre
as leituras.
Há anos venho pensando
nisto.
Passei por todas as fases.
Cresci na Igreja Católica,
de família praticante, e penso que minha “fé”, ou melhor, minha prática
religiosa, desenvolveu-se por inércia. Era o resultado das forças em movimento
na minha família. Não foi uma escolha minha. Nasci católica, fui batizada, ia
às missas, cursei a catequese, fiz Primeira Comunhão,Crisma (ainda criança, o
que não me permitiu de fato que este Sacramento fosse a confirmação consciente
da Fé “recebida” no Batismo), aprendia com meu avô as palavras de São Paulo
Apóstolo (ele as adotava para repreender, aconselhar, orientar os netos).
Até tornei-me catequista e
seguia direitinho o roteiro. Não fui uma boa catequista,pois era apenas uma
professora de catequese. Não podia oferecer aquilo que não tinha.
Não me lembro de ter uma
relação especial com a fé naquela época. Simplesmente estava pressuposta.
Casei-me na Igreja, com Luiz
Cláudio, que comigo participava da mesma forma. Éramos do grupo jovem, da
equipe de Liturgia, escolhíamos os cantos nas missas, fazíamos leituras, como
todo o grupo.
A Igreja, especialmente em
meu contexto de periferia, era o polo social da juventude. Era no Grupo Jovem e
nas Missas que a “galera” se reunia. E dali surgiam as festinhas, os passeios,
as idas ao clube.
Enfim, misturavam-se em
nosso universo o mundo religioso e o social, sem muito discernimento. (Falo de
mim, apenas.)
Dali surgiram vários
casamentos.
Após o casamento, e especialmente
após a chegada de Felipe, dois anos depois, eu e Luiz Cláudio fomos abandonando
nossas atribuições na Igreja e deixamos até mesmo de participar das Missas.
Na mesma época, entrava em
minha vida a influência da militância política, do curso universitário e a “obrigação”
de rejeitar a Igreja, por seu histórico social e político.
Também sem muito
discernimento, também por inércia, ou seja, seguindo as forças que determinavam
minha posição, sem fazer uma escolha consciente, afastei-me da Igreja e passei
pela fase do “ateísmo universitário”, aquela obrigação de ser uma pessoa da
Ciência e não da Fé.
No meio em que passei a
conviver, a Igreja era motivo de deboche. No PT, a “ala da Igreja” era
considerada pela "esquerda" como “reformista” e “contrarrevolucionária”.
Eu ficava orbitando na
esquerda, embora nunca tenha me filiado oficialmente a nenhuma tendência, pois
não me identificava com a tese da luta armada.
Dentro ou fora da Igreja, não aceito a tese que justifica a luta armada, onde vidas são tiradas, sob a justificativa de que o Capitalismo tira muito mais. Ok, concordo que o Cap(e)talismo tira muito mais vidas, mas eu não iria brincar de luta armada porque não me via tirando uma vida sequer, sob qualquer motivo. (Ressalva: sofri um assalto onde meu filho, então com 1 ano e meio de vida, passou a noite com uma arma na cabeça, sob meus olhos. Naquele momento, eu mataria para defender a vida dele, se pudesse, não serei hipócrita. Somente naquele momento e para salvar sua vida. Recebi “ofertas” de vingança depois, mas recusei. Já havia passado o momento e eu não tinha nenhum interesse em vingança. Que Deus (já que a Justiça dos homens jamais os encontraria) se encarregasse de cuidar dos assaltantes,eu não sujaria minha consciência com o sangue deles.
Dentro ou fora da Igreja, não aceito a tese que justifica a luta armada, onde vidas são tiradas, sob a justificativa de que o Capitalismo tira muito mais. Ok, concordo que o Cap(e)talismo tira muito mais vidas, mas eu não iria brincar de luta armada porque não me via tirando uma vida sequer, sob qualquer motivo. (Ressalva: sofri um assalto onde meu filho, então com 1 ano e meio de vida, passou a noite com uma arma na cabeça, sob meus olhos. Naquele momento, eu mataria para defender a vida dele, se pudesse, não serei hipócrita. Somente naquele momento e para salvar sua vida. Recebi “ofertas” de vingança depois, mas recusei. Já havia passado o momento e eu não tinha nenhum interesse em vingança. Que Deus (já que a Justiça dos homens jamais os encontraria) se encarregasse de cuidar dos assaltantes,eu não sujaria minha consciência com o sangue deles.
Enfim: passei a conviver em
um ambiente antirreligioso e aderi, mas tinha algumas necessidades em minha
alma que nunca haviam sido preenchidas. Busquei muito.
A vida deu muitas voltas.
Trancos. Muitos. Trancos e quedas de barrancos.
Buscava em muitos lugares,
leituras etc, o preenchimento daquele vazio. Mas não podia admitir a “caretice”
de preenchê-lo na Igreja Católica, afinal eu era uma “quase-intelectual”, das
Ciências Humanas, Sociais, Políticas e não poderia compactuar com a Igreja da
Idade Média. (estou rindo de mim mesma por esta imaturidade).
Eu era jovem, insegura, não
tinha a coragem que tenho hoje, de parecer esquisita e assumir isto, tanto no meio acadêmico
por ser “católica de missa”, ou ser esquisita no meio religioso, por ser
intelectual que defende que religião é assunto de Igreja, que a escola e o
Estado devem ser laicos e que a legislação não pode se pautar na moral de uma
religião.
Bom, sou esquisita nos dois ambientes, mas sou “ok” comigo mesma.
Claro que me questiono diariamente sobre estes limites e procuro rever a cada dia esta questão, dado que falar na teoria é fácil, mas na prática é muito mais difícil. Como me perguntou uma aluna muito corajosamente: isto não seria hipocrisia? Pergunto-me isto a cada dia. Como conciliar a moral que adoto voluntariamente como cristã católica com a posição de professora , uma representante do Estado de Direitos? (atenção: representante do Estado, não do governo. Estado inclui a “vontade geral” da sociedade, o bem comum, a legislação, as políticas públicas, não o governo. Toda instituição escolar é concessão do Estado e a suas leis deve respeitar, desenvolvendo, ainda, a função contra-hegemônica de transformação da sociedade).
Bom, sou esquisita nos dois ambientes, mas sou “ok” comigo mesma.
Claro que me questiono diariamente sobre estes limites e procuro rever a cada dia esta questão, dado que falar na teoria é fácil, mas na prática é muito mais difícil. Como me perguntou uma aluna muito corajosamente: isto não seria hipocrisia? Pergunto-me isto a cada dia. Como conciliar a moral que adoto voluntariamente como cristã católica com a posição de professora , uma representante do Estado de Direitos? (atenção: representante do Estado, não do governo. Estado inclui a “vontade geral” da sociedade, o bem comum, a legislação, as políticas públicas, não o governo. Toda instituição escolar é concessão do Estado e a suas leis deve respeitar, desenvolvendo, ainda, a função contra-hegemônica de transformação da sociedade).
Enfim, minha condição de cristã
católica e intelectual das Ciências Sociais não é nada fácil nem simples.
Examino minha consciência e procuro estudar todos os dias o assunto, por isto o
Catecismo da Igreja Católica na mesa de Cabeceira e o livro do Terry Eagleton
do outro lado da cama.
E tem um agravante: o padre
da minha atual paróquia (Santa Teresinha do Menino Jesus) é “intransigente” (no
bom sentido”), conhece muito bem tanto a Teologia quanto as Ciências Sociais e
me “provoca” a refletir exaustivamente, não dá um minuto de sossego à minha
consciência. Vive postando “inquietudes” no Facebook , mesmo quando está de
férias.E isto me faz voltar lá no autor que ele menciona, reler o Manifesto Comunista, Raymond Aron. Sem falar no modo “zangado” como nos exorta nas Missas. Ele tem fortes
argumentos, sustentados por textos dos autores das Ciências Sociais, que
seleciona muito bem. Enfim, cumpre muito bem seu papel de pastor.
Voltando um pouco...
Duas décadas longe da Igreja.
Por maneiras diferentes,
tanto eu como Luiz Cláudio nos reaproximamos da Igreja e tentamos influenciar Felipe,
visto que não o havíamos feito na infância.
Lembro-me de Felipe falando:
“Caraca, você e meu pai são muito igrejeiros, só sabem ficar me chamando pra ir
à Missa, parece que não têm outro assunto”. “Caraca, acho que meu pai ainda é “pior”
do que você.”
E Felipe ria de seus “velhos
pais”, com a superioridade de um jovem na casa dos vinte anos. A mesma
superioridade com que eu ria de meus pais duas décadas antes.
Pois é... Luiz Cláudio era
mesmo “pior” do que eu no quesito “querer levar Felipe para a Igreja.
Sua fé era inabalável.
Isto me conforta hoje, pois
sei que nos quatro dias que passou no hospital antes de morrer, consciente, mas
sem poder falar, não se desesperou.
Luiz Cláudio tinha uma fé
que não lhe permitia desesperar-se.
Quando conversávamos sobre
nossas preocupações com filho adolescente / jovem, eu era “a desesperada”,
sempre vendo alguma tragédia pela frente.
Luiz Cláudio tinha a mania
de começar todas as frases, diante de um problema, com a expressão: “Que nada!”
“Que nada! Felipe é adulto,
vai saber se safar”
“Que nada! Não vai acontecer
nada de ruim com ele”
“Que nada! Vai dar tudo
certo, está tudo nas mãos de Deus”
“Se alguma coisa ruim
acontecer, nos entregaremos nas mãos de Deus, pois Ele sabe de todas as coisas.”
“Deixa de se preocupar. Se
acontecer alguma coisa, teremos que nos conformar porque nada acontece contra a
vontade de Deus”.
Enfim, esta era a fé que
Luiz Cláudio encontrou/reencontrou e viveu nas últimas décadas de vida.
Inabalável, sem questionamentos. Se os tinha, não expunha. Mas acredito que não
tinha.
Já o meu caso é
completamente diferente.
Eu me disciplino e ajo com
fé, para ver se obtenho a fé.
Voltei à Igreja “na marra”,
por um processo de depressão gravíssimo.
Não admito que se interprete
isto como “prêmio e castigo”. Não fui “castigada” com a depressão por estar
longe da Igreja, tampouco fui “premiada” por ter voltado.
Deus não tem carteira de
clientes-fidelidade.
Seria uma fé ridícula, aquela que acreditasse em um deus que assim procede. Um deus masoquista, que joga com as pessoas, premiando
e punindo, chantageando. Realmente, errada ou certa, não acredito neste “tipo de deus”
perverso.
Tive alívio da depressão com
o retorno à Igreja, por uma razão muito simples: tinha um vazio em minha alma.
Claro que estou falando em “alívio”,
pois depressão é uma doença clínica que requer tratamento medicamentoso e de
psicoterapia. Mas o buraco da alma, que é um elemento desencadeador, só cada
pessoa pode saber identificar e tentar sanar. No meu caso, é muito claro: minha
profissão é desumana e desumanizante em muitos aspectos, embora seja a mais
linda (aos meus olhos- se assim não pensasse, estaria em outra). Mas ser
professora não significa apenas fazer aquilo que amo: entrar na sala de aula,
dar aulas, estudar, ensinar, aprender, ajudar a formar pessoas, adotar os
alunos como vice-filhos, pesquisar, escrever, ler .
Há um lado extremamente
perverso e adoecedor, que é o convívio no meio acadêmico. A guerra de egos, as
rivalidades, as decepções, a incoerência entre o que as pessoas falam/escrevem
e o que praticam, a deslealdade como regra geral.
Isto adoece a quem não se ilude
com a vanglória de títulos, plateias e “homenagens” efêmeras.
Adoece a quem não se ilude
com os aplausos e sorrisos. A quem não “acredita” nisto como alimento para sua
alma.
É claro que o reconhecimento
profissional é muito bem vindo, pois é o resultado de décadas de esforço e
dedicação, além do amor investido na profissão.
Mas não me iludo.
Não me alimento disto.
Sei o quão efêmeros são os
sorrisos, elogios e aplausos e quão rapidamente podem transformar-se em
punhaladas.
Já estou nesta profissão há
34 anos e tomo meu soro antiofídico diariamente.
E era este soro antiofídico
que me faltava.
Costumo dizer (especialmente
a um motorista de táxi que me conduz quando vou de taxi ao trabalho), que meu
soro antiofídico é a Liturgia Diária da Igreja Católica, especialmente o Salmo
do dia.Procuro ver pelo menos a parte da Liturgia da Palavra pela televisão
antes de sair de casa. Vou me arrumando, tomando café e ouvindo.
Vivi cerca de 20 anos sem
este soro antiofídico. Sei o valor dele hoje nas lutas diárias.
Sofri muito quando não o
tinha, ou melhor, quando não o buscava.
Mas vamos ao motivo deste
texto... Começo a escrever e divago, divago... quase não retorno ao ponto de
partida. Aqui, posso. Nos artigos acadêmicos, não. Nos livros acadêmicos, não.
Na correção das teses e monografias, não. Mas aqui posso.
Ontem conversava com uma
amiga sobre esta minha relação esquisita com a Fé.
Eu não sei se a tenho, mas a
procuro e ajo “como se”, ajo “como quem tem fé”, na esperança de que, de tanto
tentar, um dia poder dizer de fato: eu tenho fé. Uma fé tão sólida como têm
alguns amigos e como tinha Luiz Cláudio.
Há cerca de duas horas, comecei
a ler um livro acadêmico, mas logo meus olhos se voltaram para um “livrão” de
capa amarela que mora na minha mesa de cabeceira: o Catecismo da Igreja Católica.
Um livrão de 937 páginas, que sistematiza a Doutrina da Igreja.
Não por coincidência, o
marcador estava exatamente no capítulo sobre a Fé. Eu havia parado a leitura no
final do capítulo anterior e deixei o marcador na página onde deveria retomar a
leitura. Mas nem me lembrava de que era sobre a Fé.
Transcrevo aqui alguns
trechos do Catecismo da Igreja Católica:
“Pela fé, o homem submete completamente sua
inteligência e sua vontade a Deus. Com todo o seu ser, o homem dá seu
assentimento a Deus revelador. A Sagrada Escritura denomina ‘obediência da fé’
esta resposta do homem ao Deus que revela.” (p 48)
“Obedecer (‘ob-audire’) na fé significa submeter-se
livremente a palavra ouvida(...) (p 48)
“A fé é primeiramente uma adesão
pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus
revelou.” (p 49-50)
“A fé é uma Graça” (p 50)
“A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural
infundida por Ele. “para que se preste esta fé, exigem-se a traça prévia e
adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração
e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir
e crer na verdade.” (p 51)
“Crer só é possível pela graça e pelos
auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um
ato autenticamente humano. Não contraria nem a liberdade nem a inteligência do
homem confiar em Deus e aderir às verdades por ele reveladas.” (p 51)
“(...) prestar, pela fé, plena adesão do
intelecto e da vontade.” (p 51)
“Na fé, a inteligência e a vontade
humanas cooperam com a graça divina.” (p 51)
“Crer é um ato da inteligência que
assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça.”
(p 51)
“A graça da fé abre os olhos do coração.”
(p 52, citando Ef 1, 18)
“(...)eu creio para compreender, e
compreendo para melhor crer” (p 52, cit Santo Agostinho)
Fé e
Ciência - Vejam que lindas diretrizes para os cientistas de todas as áreas”
“Porém, ainda que a fé esteja acima da
razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra,
porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito
humano da luz da razão. (...) Portanto, se a pesquisa metódica, em todas as ciências, proceder de maneira
verdadeiramente científica, segundo as leis morais, na realidade nunca será oposta à fé: tanto as
realidades profanas quanto as da fé originam-se do mesmo Deus. Mais ainda: quem
tenta perscrutar com humildade e perseverança os segredos das coisas, ainda que
disso não tome consciência, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta
todas as coisas, fazendo com que elas sejam o que são.”
A Liberdade
da fé
“(...) O homem deve responder a Deus,
crendo de livre vontade. (...) ninguém deve ser forçado contra sua vontade ser
obrigado a abraçar a fé. Pois o ato de fé é por sua natureza um ato voluntário”
(p 53)
Finalizando:
- A leitura destas páginas convenceu-me de que
minha relação com a fé não é esquisita, como eu pensava até momentos atrás.
- É
linda a definição da relação entre a ciência e a fé. A dificuldade é que, ao
pautar-se por valores morais, o cientista- e isto é inevitável- pauta-se pelos
valores morais aos quais dele adere, religiosos ou não.
-
Reitero o desafio que me coloco diariamente para, concretamente, saber me
posicionar nos dilemas éticos na escola.
Este desafio é acrescido dos seguintes dados:
Este desafio é acrescido dos seguintes dados:
a-
Na escola básica, especialmente na Educação infantil e primeiros anos, onde
predominam entre os professores as religiões cristãs (católica e protestante),
observa-se o preconceito e discriminação contra as religiões não-cristãs, o que
fere a Constituição e a Legislação Educacional, além de ferir o bom-senso. Como
dito acima, a fé é um ato de graça e DECISÃO, de LIBERDADE. Ninguém pode ser
coagido, especialmente na escola laica, a aderir a alguma religião ou à fé.
b-
Na universidade, ou já no Ensino Médio, observa-se a divulgação do conflito
(falso, segundo o texto acima, mas é
falso aos olhos da Igreja Católica e, portanto, somente aos que a ela pertencemos,
cabe tomar como princípio), entre fé e razão e uma coação ao ateísmo.
c-
Como expressão do Multiculturalismo e ações afirmativas, entre outras razoes, a
universidade está perdendo seu caráter laico para religiões de matriz africana.
Vivemos um momento em que ‘é moda’ entre os intelectuais a adesão ao
Camdomblé, Umbanda. Quando digo que é “moda”, considero, inclusive, que isto
desrespeita a própria religião, pois torna-se objeto “cultural” simplesmente.
Não
consigo aceitar que em uma Universidade como a UERJ, haja um grupo de pesquisa
sobre Candomblé no Mestrado e Doutorado em Educação, composto por adeptos desta religião, como ação afirmativa. O espaço
da universidade deve ser laico. Não concebo que dentro de um programa de
mestrado e doutorado, uma atividade claramente de cunho religioso seja
considerada como disciplina, compute créditos etc.
O fato de que as religiões de matriz africana sejam discriminadas, como já afirmei acima, e que isto seja um erro da Escola Básica, não justifica a utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião.
Do mesmo modo, não aceitaria que houvesse no mesmo programa um grupo da Renovação Carismática Católica, da Teologia da Libertação, da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Batista, da Assembleia de Deus ou outras.
O fato de que as religiões de matriz africana sejam discriminadas, como já afirmei acima, e que isto seja um erro da Escola Básica, não justifica a utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião.
Do mesmo modo, não aceitaria que houvesse no mesmo programa um grupo da Renovação Carismática Católica, da Teologia da Libertação, da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Batista, da Assembleia de Deus ou outras.
Uma
coisa é um programa de Antropologia ou Sociologia (e até mesmo a Educação ou
outras ciências), por exemplo, ter como objeto de estudos a espiritualidade,
religiosidade, religião, as religiões ou uma determinada religião.
Outra,
bem diferente, é um grupo pertencente a UMA determina da religião criar dentro
de uma universidade pública um grupo de estudos e pesquisas de adeptos e
simpatizantes de SUA religião.
O que vale para o Catolicismo e para o Candomblé tem que valer para a Igreja Universal, por que não?
O que vale para o Catolicismo e para o Candomblé tem que valer para a Igreja Universal, por que não?
Choverão
pedras, eu sei. A turma da “tolerância intolerante” vai cair em cima de mim.
Não tem problema. Não concebo a
utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião. Nem a
minha nem qualquer outra.
Portar
símbolos religiosos em seus corpos, em seu vestuário é uma ato de liberdade e direito que deve ser
preservado na escola. Já transformar uma determinada religião em atividade
curricular de um programa de mestrado e doutorado é um abuso, a meu ver, inclusive contra a
própria religião.
Ciência
na universidade, religião nos templos.
E
cada sujeito, em sua consciência, faz a síntese baseada no respeito e nos
princípios éticos (mais amplos e gerais) e morais(mais específicos de
determinada comunidade de práticas).
Escola laica é lugar de ética, não de moral religiosa como currículo.
Daí o meu conflito. De fato, a universidade hoje não é laica. Seja pela imposição do ateísmo, seja pelo modismo das religiões de matriz africana.
Até onde e quando compactuar?
Meu filho estuda em uma universidade católica , mas não há sequer traço disto em eu currículo, assim como quando estudou no Colégio Nossa Senhora do Rosário.
E poderia haver, pois você escolhe estudar em uma escola confessional porque a tal fé professa, ou, pelo menos , está consciente do que é uma escola confessional.
Que hajam escolas confessionais de todas as religiões, se assim desejarem. Mas a escola pública é laica. Não é cristã, não é muçulmana, não é budista, não é umbandista, não é ateia. A escola é laica. Os sujeitos podem ou não professar sua fé com liberdade, mas a escola não pode assumir NENHUMA religião ou o ateísmo como conteúdo curricular (do currículo explícito ou do oculto)
Escola laica é lugar de ética, não de moral religiosa como currículo.
Daí o meu conflito. De fato, a universidade hoje não é laica. Seja pela imposição do ateísmo, seja pelo modismo das religiões de matriz africana.
Até onde e quando compactuar?
Meu filho estuda em uma universidade católica , mas não há sequer traço disto em eu currículo, assim como quando estudou no Colégio Nossa Senhora do Rosário.
E poderia haver, pois você escolhe estudar em uma escola confessional porque a tal fé professa, ou, pelo menos , está consciente do que é uma escola confessional.
Que hajam escolas confessionais de todas as religiões, se assim desejarem. Mas a escola pública é laica. Não é cristã, não é muçulmana, não é budista, não é umbandista, não é ateia. A escola é laica. Os sujeitos podem ou não professar sua fé com liberdade, mas a escola não pode assumir NENHUMA religião ou o ateísmo como conteúdo curricular (do currículo explícito ou do oculto)
Já
conversei sobre isto com duas pessoas (queridas MESMO) que fazem parte do grupo
em questão (curiosamente, ambos meus ex-alunos). E lhes fiz esta pergunta: e se
fosse a Igreja do Evangelho Quadrangular ou a igreja Universal? Seria um escândalo.
A notícia estaria em todos os jornais e os intelectuais estariam se
manifestando contra nas ruas.
Bom,
o debate é intenso. Vamos a ele!
Sem palavras... Apenas agradecida!Poucos são aqueles que, como te disse uma vez, desnudam a alma... Isto só se faz pela fé! Especialmente pela fé em si mesmo!
ResponderExcluirObrigada, querida Verônica. Acho que é "fé na fé"."Fé no desejo de ter fé". Bj
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