domingo, 2 de março de 2014

O nome de Deus em vão

O santo nome de Deus em vão
Escrito em janeiro de 2014
“Deus criou as férias em janeiro e satanás, com inveja, criou todas as taxas a serem pagas nesse mês para estragar o prazer”
Era uma postagem nas redes sociais, uma brincadeira a propósito da avalanche de pagamentos que nos “assaltam” no mês de janeiro, como matrícula, lista de material escolar, IPTU, IPVA etc.
Fui advertida por uma pessoa, que acredito bem intencionada, de que eu estava usando o nome de Deus em vão e que isto constituía um dos pecados mortais.
Bom, isto não poderia deixar de se transformar em uma crônica...
O Deus em que acredito é um Deus brincalhão, de bem com a vida, bem-humorado, que sabe “levar” uma brincadeira sem se ofender.
O Deus a Quem presto culto não é um senhor barbudo, rabugento, com palmatória na mão, à espreita para pegar cada pecadinho. Um ranzinza.
O Deus em quem acredito me dá intimidades, que Pai não daria? Posso brincar com Ele, tenho liberdade para isto. Posso até “tirar satisfações com Ele”, sendo sincera de coração. Sem medo dos rótulos de blasfêmia e outras interpretações dadas para nos distanciar de Deus.
Uma vez, era Tempo de Quaresma, bem no final, próximo da Semana Santa. Toda a liturgia voltada para o sofrimento de Jesus no Monte das Oliveiras e no caminho da Cruz. Cheguei em uma igreja, após um ano e cinco meses de depressão e crises de pânico praticamente diárias, ou várias vezes ao dia, olhei para a representação de Cristo e falei. Poxa, Jesus, qual é? Você sofreu umas horinhas no monte das Oliveiras e Três horinhas no Calvário, todo mundo está lamentando há 2 mil anos. E eu, que estou sofrendo essa depressão, angústia e pânico há um ano e meio? Até quando Você vai me deixar assim. Se até Você “pediu arrego” por um momento, pediu pra afastar o Cálice, imagine eu, que não sou Deus , nem Filho de Deus nem nada. Poxa, Jesus, qual é, né?
Foi a oração mais profunda, séria, verdadeira que fiz em minha vida. A partir daquele momento, melhorei. Não estou aqui tendo a pretensão de relatar nenhum “milagre”, mas sim que a intimidade com Deus, cura. Não porque Ele fica “lá em cima” arbitrando: aquela ali vai ficar doente, aquele ali será curado, este merece uma bênção, já aquele um castiguinho. Nada disso. Penso que muito do que eu sofria advinha de um vazio na alma (sem desmerecer o tratamento clínico, que sempre que for o caso, deve ser adotado), que foi preenchido no momento em que coloquei-me intimamente frente a frente com Deus, a ponto de ser meio atrevida com Ele.
O Deus em que acredito é um cara bacana, que me foi mostrado pelo Padre Zeca no Arpoador, Rio de Janeiro, que me é mostrado pelo Padre Fábio de Melo em suas pregações e canções. Que me foi mostrado, acima de tudo, pelos ensinamentos do Evangelho e das Cartas de São Paulo Apóstolo. É um cara maneiro, que não tem nada de rabugento.Puro Amor e Alegria! Bem-Estar e Confiança! Intimidade e Carinho!
Entretanto, este mesmo Deus em que Creio é intransigente quando -  de fato - usam seu nome “em vão”: quando  usam Seu Nome para exercer preconceitos, para manipular, extorquir, explorar, ameaçar, chantagear, excluir, julgar, discriminar, segregar, matar, violar, violentar, assediar, acusar.
Uma pessoa me contou sua curta convivência com dois padres jovens, onde pôde-se ver a presença e a ausência do Amor de Deus.
Situação 1- Domingo, mais de 23 horas, final da última Missa da Arquidiocese da Cidade do Rio de Janeiro, na Paróquia da Ressurreição,Arpoador. Um rapaz se dirige ao padre que acabara de celebrar a Eucaristia e estava cumprimentando os participantes na saída:
-Padre, fazia mais de 20 anos que eu não entrava em uma igreja. Participei da sua missa e fiquei com vontade de me confessar. Quais são os dias?
O padre respondeu:                                      
_Toda hora é hora, meu filho. É pra já! Espera só eu terminar de cumprimentar as pessoas que te atendo. Quase meia-noite, aquele padre, pacientemente, ouve a longa confissão do rapaz, suas lágrimas, aconselha-o.
Situação 2- Três anos depois.  Domingo, 14 horas, um padre que acabara de celebrar um batismo, brinca com uma bola e uma criança na porta de outra paróquia no mesmo bairro. O mesmo rapaz da situação 1, que passara a participar assiduamente das atividades religiosas, aproxima-se do padre.
-Padre, eu gostaria de receber o Sacramento da Reconciliação, quando posso me confessar?
_Ah, querido, eu não sei! Olha ali no quadro de avisos. Hoje não é dia de confissão.
Ambos padres, ambos jovens, ambos no mesmo bairro, ambos hoje já não exercem o Sacerdócio, optaram por outros caminhos na vida. Entretanto, uma profunda diferença entre os dois: a presença e a ausência do Amor de Deus.
Considero que um padre que responde protocolarmente como o segundo, este sim, usa em vão o nome de Deus em sua “profissão” (não posso chamar de Vocação).  E acho que Deus, o Deus em que acredito, não tem muita paciência para isso.
Mas uma simples brincadeirinha nas redes sociais, faz o Deus em que eu acredito dar uma risadinha cúmplice, e uma piscadela, como a piscadela de olhos daquele padre vocacionado para evangelizar, quando disse ao rapaz, sequioso por (re)encontrar a Deus, quase meia-noite:
-É pra já, meu filho!
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre,
Dá-me um coração igual ao Teu.Um coração Disposto a obedecer, a seguir todo o seu viver, dá-me um coração igual Ao Teu.
Ensina-me a amar .....”[1]



[1] Um coração igual ao Teu...

Nenhum comentário:

Postar um comentário