O santo nome de Deus em vão
Escrito em janeiro de 2014
Escrito em janeiro de 2014
“Deus
criou as férias em janeiro e satanás, com inveja, criou todas as taxas a serem
pagas nesse mês para estragar o prazer”
Era
uma postagem nas redes sociais, uma brincadeira a propósito da avalanche de
pagamentos que nos “assaltam” no mês de janeiro, como matrícula, lista de
material escolar, IPTU, IPVA etc.
Fui
advertida por uma pessoa, que acredito bem intencionada, de que eu estava
usando o nome de Deus em vão e que isto constituía um dos pecados mortais.
Bom,
isto não poderia deixar de se transformar em uma crônica...
O
Deus em que acredito é um Deus brincalhão, de bem com a vida, bem-humorado, que
sabe “levar” uma brincadeira sem se ofender.
O
Deus a Quem presto culto não é um senhor barbudo, rabugento, com palmatória na
mão, à espreita para pegar cada pecadinho. Um ranzinza.
O
Deus em quem acredito me dá intimidades, que Pai não daria? Posso brincar com
Ele, tenho liberdade para isto. Posso até “tirar satisfações com Ele”, sendo
sincera de coração. Sem medo dos rótulos de blasfêmia e outras interpretações
dadas para nos distanciar de Deus.
Uma
vez, era Tempo de Quaresma, bem no final, próximo da Semana Santa. Toda a
liturgia voltada para o sofrimento de Jesus no Monte das Oliveiras e no caminho
da Cruz. Cheguei em uma igreja, após um ano e cinco meses de depressão e crises
de pânico praticamente diárias, ou várias vezes ao dia, olhei para a
representação de Cristo e falei. Poxa, Jesus, qual é? Você sofreu umas horinhas
no monte das Oliveiras e Três horinhas no Calvário, todo mundo está lamentando
há 2 mil anos. E eu, que estou sofrendo essa depressão, angústia e pânico há um
ano e meio? Até quando Você vai me deixar assim. Se até Você “pediu arrego” por
um momento, pediu pra afastar o Cálice, imagine eu, que não sou Deus , nem
Filho de Deus nem nada. Poxa, Jesus, qual é, né?
Foi
a oração mais profunda, séria, verdadeira que fiz em minha vida. A partir
daquele momento, melhorei. Não estou aqui tendo a pretensão de relatar nenhum
“milagre”, mas sim que a intimidade com Deus, cura. Não porque Ele fica “lá em
cima” arbitrando: aquela ali vai ficar doente, aquele ali será curado, este
merece uma bênção, já aquele um castiguinho. Nada disso. Penso que muito do que
eu sofria advinha de um vazio na alma (sem desmerecer o tratamento clínico, que
sempre que for o caso, deve ser adotado), que foi preenchido no momento em que
coloquei-me intimamente frente a frente com Deus, a ponto de ser meio atrevida
com Ele.
O
Deus em que acredito é um cara bacana, que me foi mostrado pelo Padre Zeca no
Arpoador, Rio de Janeiro, que me é mostrado pelo Padre Fábio de Melo em suas
pregações e canções. Que me foi mostrado, acima de tudo, pelos ensinamentos do
Evangelho e das Cartas de São Paulo Apóstolo. É um cara maneiro, que não tem
nada de rabugento.Puro Amor e Alegria! Bem-Estar e Confiança! Intimidade e
Carinho!
Entretanto,
este mesmo Deus em que Creio é intransigente quando - de fato - usam seu nome “em vão”: quando usam Seu Nome para exercer preconceitos, para
manipular, extorquir, explorar, ameaçar, chantagear, excluir, julgar,
discriminar, segregar, matar, violar, violentar, assediar, acusar.
Uma
pessoa me contou sua curta convivência com dois padres jovens, onde pôde-se ver
a presença e a ausência do Amor de Deus.
Situação
1- Domingo, mais de 23 horas, final da última Missa da Arquidiocese da Cidade
do Rio de Janeiro, na Paróquia da Ressurreição,Arpoador. Um rapaz se dirige ao
padre que acabara de celebrar a Eucaristia e estava cumprimentando os
participantes na saída:
-Padre,
fazia mais de 20 anos que eu não entrava em uma igreja. Participei da sua missa
e fiquei com vontade de me confessar. Quais são os dias?
O
padre respondeu:
_Toda
hora é hora, meu filho. É pra já! Espera só eu terminar de cumprimentar as
pessoas que te atendo. Quase meia-noite, aquele padre, pacientemente, ouve a
longa confissão do rapaz, suas lágrimas, aconselha-o.
Situação
2- Três anos depois. Domingo, 14 horas,
um padre que acabara de celebrar um batismo, brinca com uma bola e uma criança
na porta de outra paróquia no mesmo bairro. O mesmo rapaz da situação 1, que
passara a participar assiduamente das atividades religiosas, aproxima-se do
padre.
-Padre,
eu gostaria de receber o Sacramento da Reconciliação, quando posso me
confessar?
_Ah,
querido, eu não sei! Olha ali no quadro de avisos. Hoje não é dia de confissão.
Ambos
padres, ambos jovens, ambos no mesmo bairro, ambos hoje já não exercem o
Sacerdócio, optaram por outros caminhos na vida. Entretanto, uma profunda
diferença entre os dois: a presença e a ausência do Amor de Deus.
Considero
que um padre que responde protocolarmente como o segundo, este sim, usa em vão
o nome de Deus em sua “profissão” (não posso chamar de Vocação). E acho que Deus, o Deus em que acredito, não
tem muita paciência para isso.
Mas
uma simples brincadeirinha nas redes sociais, faz o Deus em que eu acredito dar
uma risadinha cúmplice, e uma piscadela, como a piscadela de olhos daquele
padre vocacionado para evangelizar, quando disse ao rapaz, sequioso por
(re)encontrar a Deus, quase meia-noite:
-É
pra já, meu filho!
Dá-me
um coração igual ao Teu, meu Mestre,
Dá-me
um coração igual ao Teu.Um coração Disposto a obedecer, a seguir todo o seu
viver, dá-me um coração igual Ao Teu.
Ensina-me a amar .....”[1]
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