Nuvem de marimbondos e porco espinho
Escrito em janeiro e fevereiro de 2014
Escrito em janeiro e fevereiro de 2014
Resolução
de ano novo escrita em um caderno especialmente comprado para este fim: Não
mais fazer o papel de nuvem de marimbondos ou de porco-espinho.
Comprei
o caderno no último dia do ano, com a finalidade de “colocar no papel” os meus
desejos e metas. Listar todos os planos,
não só para o novo ano, mas para toda a vida. Afinal, completei 50 anos de
idade no ano que termina. Projetos e
metas divididas em: vida espiritual, profissional, social, familiar, emocional,
financeira etc. Caderninho de capa verde fluorescente. Encadernação espiralada.
Páginas sem pauta, para facilitar o formato de escrita ou o sentido que eu
desejar usar. Sendo canhota, sinto-me desconfortável com os cadernos espiralados
para o mundo dos destros. Prefiro, por exemplo, que a espiral fique na margem
superior. E meu caderninho novo para o ano-novo me permite tudo isto.
Talvez
eu pudesse ter iniciado esta conversa, com uma citação famosa de Brecht[1]:
Dizem violentas as águas do rio, mas não dizem violentas as margens que as
oprimem.
Fico
pensando em como há pessoas na vida que se colocam no lugar errado. Em pessoas
que se expõem sendo francas em um mundo de dissimulação. Em como, para
“sobrevivência social”, a autenticidade precisa ser um presente raro a ser
ofertado somente a quem merece. Não sei ser dissimulada, mas neste meio século
de vida aprendi que teria me poupado se houvesse desenvolvido a habilidade de
“dissimulação social”. Chego a pensar em algumas pessoas que conheço e são
assim: impávidas sempre, inatingíveis, nunca perdem a linha, nunca se exaltam,
nunca perdem pontos por não saber fechar a boca na hora certa.
Di-plo-má-ti-cas! Que inveja! Algumas de bom caráter, outras nem tanto. As
primeiras, eu chamaria de elegantes, as demais, “puro veneno”. Nas histórias em
quadrinhos, o veneno vem sinalizado com uma caveira e dois ossos em forma de x,
nas revistas, o perigo alerta, se mostra, você pode evitá-lo. Mas a vida real não é história em quadrinhos.
Na vida real, o pior veneno vem embalado em papel de confeitaria, embalagem de
bombom, colorido, alegre e prometendo-se “bem doce”.
Acho
que vivi muito tempo pensando que o mundo é uma revista em quadrinhos, onde o
bem tem cara de bem e o mal tem cara de mal. Tudo bem etiquetado . Sem margem a
equívocos.
A
vida real é outra. Meio século e o balanço: muito bombom envenenado em meu
caminho até hoje. Preciso mudar a estratégia.
Tenho
sido muito reativa, reajo às margens que oprimem e “levo a fama” de
intempestiva, explosiva, “rio revoltoso”, pessoa excessivamente franca, pois as margens que oprimem, agridem ou
provocam a reação, são quietinhas,
“sonsas”, dissimuladas, silenciosas, ardilosas, invisíveis. Preciso aprender a
não reagir, a deixar a opressão nas mãos de seus verdadeiros donos. Aprender a
pairar acima. A me blindar.
Consta
em duas listas (social e emocional) do meu caderninho verde: Não farei mais o
papel de nuvem de marimbondos nem de porco-espinho.
A
casa de marimbondo está lá quietinha, cumprindo seu ritual biológico e quando é
atacada, a nuvem de insetos reage. Quem fica com a fama de agressor? Quem foi
lá, escondido, cutucar os bichinhos que estavam vivendo suas vidinhas, ou
estes, que reagiram da forma como sabem? Claro que os marimbondos, assim, tomam
a fama de terríveis e agressivos insetos, cuja ferroada é aterrorizante. “Olhe
como o marimbondo é um bicho agressivo, olhe o que fez com sua ferrroada!” A agressão é calada, dissimulada; já a reação,
faz barulho, é genuína, instintiva.
Onde
está aquele que foi lá, mexer na casinha dos insetos? Onde está o agressor? Fazendo
a corte, na sala de visitas da vida, dissimulando sua maldade em uma fala
mansa, ponderada, polida, fina e socialmente validada.
De
agredido, o marimbondo passa a ser visto como agressor, socialmente rejeitado e
temido.
Do
mesmo modo, o porco-espinho. Se você olhar sem agredi-lo, ele parece até sedoso.
Se você respeitar seu limites, ele será até doce com você, Mas vá cutucá-lo,
ameaçá-lo, agredi-lo em sua quietude, que ele logo se transforma em arma de
guerra, arma em guerra.
Mais
uma vez, o agredido ocupa o lugar e leva a fama do agressor, que continua
incólume, dissimulado e “queridinho” por todos, uma pessoa equilibrada, regrada.
O agredido adquire má-fama. No mínimo, é uma pessoa desequilibrada,
“descompensada”. Já o agressor, um gentleman ou uma lady.
Tenho
durante 50 anos sido, por muitas vezes, em nome das coisas em que acredito e
valorizo, nuvem de marimbondo e porco-espinho, facilitando a vida de meus
adversários.
Deliberação
de ano-novo e meio século de vida: Acabou! Não mais presentearei meus inimigos/concorrentes/rivais/adversários/invejosos
etc com a oportunidade de me
desestabilizar. Não vou fazer a cama para os inimigos se deitarem, como
tenho feito por meio século.
Meus
gestos de generosidade, de paciência são silenciosos (sim, uma paciência
silenciosa e muito, muito longa que, por ser silenciosa não aparece, a não ser
quando se esgota, aí aparecendo na forma de impaciência), mas minhas reações às
agressões, injustiças, destratos, são barulhentas.
Isto não está certo.
Precisamos
organizar melhor isto.
Nem
sempre o mundo merece nossa franqueza.
Nem
sempre o mundo merece nossa sinceridade. Preciso aprender a guardar minha
sinceridade para quem merece – apenas para quem merece.
Da forma como reajo por vezes, meu QE
(quociente emocional) não corresponde a um milésimo do meu QI (quociente
intelectual). Preciso usar minha inteligência a meu favor.
Vamos
equilibrá-los.
Vamos
calibrá-los.
Calibragem.
Aquela medida certa onde o pneu não está cheio demais, nem vazio demais. Nem um
nem outro calibre facilitam o movimento do carro. Não passar da medida nesta
calibragem. Se o pneu vazio demais em indiferença e cheio demais em sensibilidade tem me levado
à demasiada exposição, um pneu
excessivamente indiferente e insensível tornar-me-á uma cínica. (Bem que eu
gostaria, às vezes... só às vezes).
Difícil
constatação para quem vive o simplório
sonho de viver em um mundo onde o bem é o bem e o mal é o mal, simples assim.
Onde o justo apresenta-se como justo e o injusto assume sua condição, não usa
“efeitos especiais de maquiagem”. Onde as palavras que saem pela boca expressam
os sentimentos que estão no coração. Onde não há segundas intenções em cada
pequeno gesto. Onde e não precise estar sempre com as costas protegidas contra
um possível punhal.
Onde
ser quem sou?
Onde
usar camuflagem social?
Até
onde e até quando?
Algumas
convicções: são nos laços verdadeiros e desinteressados, puros, antigos, já
provados pelo tempo e pelo vento, que posso ser eu mesma.
O
exercício será difícil. Ninguém deixa de ser “si mesma” de uma hora para outra.
Nunca
me desvinculei de meus laços de infância porque sei que lá encontro a liberdade
de ser eu.
Nunca
me senti uma “estranha” no meu ambiente de origem e uma “intimamente integrada”
em meu ambiente profissional. Nunca colei no rosto a “persona”[2]
da intelectual que “não tem mais assunto com quem não vive no meio acadêmico”.
Paradoxo numa profissão que exige a (con)fusão entre o pessoal e o profissional.
Sempre, em meu íntimo, mantive um certo distanciamento social e afetivo do meio
profissional.Defesa inconsciente? Consciente?
Os laços mais fortes vêm de muito longe, no
tempo e, durante alguns anos, no espaço. Com quem me identifico? Com pessoas que
não têm a mesma profissão que eu, que não vivem a mesma rotina que eu, que
tomaram caminhos diversos na vida. Sou muito mais as minhas raízes do que meus
galhos. Patrimônio afetivo acumulado, necessário neste momento de lucidez
quanto à necessidade de desenvolver habilidades sociais.
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