quinta-feira, 6 de março de 2014

Cinquenta anos

Cinquenta anos
Escrito em 4 e 5 de março de 2014.

Não vivi a “crise dos quarenta”, estava ocupada demais, preocupada demais.
Lembro-me  da “crise dos trinta”, mobilizou-me um pouco. Fazer trinta anos foi muito mais significativo do que quarenta,  considerando o impacto de pensar no “envelhecimento”. Estava saindo da casa dos vinte:  estaria me tornando uma “balzaquiana matrona” ou uma “nova mulher de trinta”, “gatinha”?
Aos trinta, já trazia uma história comprida. Já tinha um filho de nove anos, dois empregos públicos desde os dezoito, um mestrado interrompido “para ser mãe de porta de escola” por um tempo, e já retomado, o qual estava concluindo.
Já tinha também alguma experiência como professora universitária, iniciada aos vinte e seis. Estava construindo minha casinha, tinha meu carro e telefone. Sim, telefone naquela época era um bem caríssimo e dificílimo de conseguir, pois você entrava na fila de espera da antiga Telerj, depois Telemar, depois Oi. O preço equivalia a um carro e a espera, por vezes, durava anos. Era comum alugarmos linhas telefônicas.
Nasci em tempos pré-históricos, meus jovens: tempos em que telefone era símbolo de “riqueza”, não havia internet, nem Banco 24 horas, cartão eletrônico, nada disso...
Velhíssimos tempos, crianças pós-Steve Jobs e Bill Gates.
Concluindo: estava saindo da casa dos vinte anos com uma bagagem considerável de vida. E de dores, angústias, tudo o que todo mundo tem.
Cabelos compridos desde sempre. Foi no meio da década dos trinta que assumi o corte Chanel, do qual me “libertei” aos 50, mas já estou com saudades, impaciente, com o cabelo naquele corte desconfortável conhecido como “esperando crescer”.
Os trinta chegaram e passaram voando.
Ao final da década do trinta, lecionava em quatro faculdades privadas (em oito campi diferentes) cursava o doutorado  e cuidava de casa e filho. Mulher normal.
Os quarenta chegaram meio despercebidos. Sem muitos questionamentos. Eu havia terminado o doutorado, feito o concurso e ingressado em uma instituição federal. Muitas ocupações, como sempre.
Não me lembro de uma fase da vida sem muitos afazeres e preocupações. Aos nove anos, de vez em quando, ajudava a uma senhora idosa: encerava sua casa, ia ao açougue, farmácia. E ganhava uns trocados por estas tarefas. Aos doze, comecei a lecionar em casa, alfabetizando crianças da vizinhança e fazendo reforço escolar, Aos quatorze, ingressei no mundo do trabalho formal: balcão de padaria, loja de roupas e secretaria de uma paróquia. Aos dezessete, comecei a lecionar em uma escola privada. Aos dezoito, concursada, em uma escola municipal e outra estadual.
Aos quarenta,  filho entrando na maioridade, novas atribuições no trabalho, nada que me fizesse parar para pensar nos “quarenta”.
Mas os cinquenta... ah, os cinquenta...
Chegaram no dia 7 de junho de 2013. Um dia “normal”. Não comemorei. Ainda estava vivendo um luto. Não tive vontade de comemorar nem os 49 nem os 50. Sem clima. Sou antiga, vivo lutos.
Mas os cinquenta vieram acompanhados de profundas transformações. Por motivos vários, por perdas diversas, por dores infinitas, precisei mudar.
Mudei muito na virada dos quarenta para os cinquenta.
Atraí desafetos.
Criei coragem.
Mais coragem.
Enfrentei dores, perdas, ausências, reorganizações da vida.
Sofri. E passei a desagradar a algumas pessoas.
Até ali, eu era uma pessoa que ocasionalmente tinha meus arroubos, mas, em geral, era muito tolerante aos abusos e invasões. Justamente minha tolerância silenciosa me levava a explodir para “surpresa” das pessoas, que desconheciam os precedentes de tolerância silenciosa.
Resolvi perder a linha e colocar a boca no mundo.
Ter cinquenta anos me permitiu.
Falei.
Falei muito.
Escrevi.
Coloquei minha raiva para fora.
Publiquei no Facebook.
Desagradei.
Escandalizei a “moralistas” e “puritanos” que se chocaram quando coloquei muita raiva para fora. Como eu poderia expor minha raiva daquele jeito? Raiva é para ficar escondida.
Mas eles nunca estiveram no meu lugar. Nunca passaram pelas “esquinas por que passei”.
Perdi algumas amizades  e sofri, sofro visivelmente, o abalo de outras.
Nada a fazer.
Não agredi a ninguém, apenas coloquei para fora a raiva por ter sido agredida.
Os cinquenta anos me permitem ser um pouco – e saudavelmente- adolescente e dizer: Gosta de mim? Precisa gostar na totalidade. Não gosta? Lamento. Tenho defeitos e qualidades, ou melhor, qualidades positivas e negativas. Qualidades que agradam a uns e desagradam a outros. Tenho, sobretudo, um compromisso: ser fiel a mim mesma. Isto significa ser fiel ao que mais prezo: lealdade.
Deslealdade não cabe mais em minha vida.
Posso escolher.
Grandes e pequenas deslealdades, puxadas de tapetes, rivalidades, punhaladas nas costas... hoje posso escolher manter distância.
Escolho manter distância de pessoas tóxicas ou relacionamentos tóxicos.
Dói.
Perdas sempre doem.
Entretanto, aprendi no dia 22 de outubro de 2012, quando sofri um AVC tentando ser mais forte do que sou, tentando controlar a vida, que eu simplesmente não tenho nenhum poder. Isto é libertador. Isto me permite ser quem sou. Uma pessoa que, antes de tudo, preza a lealdade.
Lealdade. Não sou estudiosa de etimologia, embora o assunto me apaixone. Não vou olhar no Google, vou simplesmente especular. Lealdade teria a mesma origem etimológica que leão? Se não tiver, no meu dicionário etimológico existencial tem.
Lealdade me lembra a força e a persistência do leão. A nobreza do leão. A majestade.
Pessoas que sabem valorizar a lealdade são nobres, majestosas.
Estas, eu quero perto de mim.
As desleais ou as que compactuam com as grandes e pequenas deslealdades, não me fazem falta.
Isto não quer dizer que não me doa seu afastamento.
Dói sim, mas eu preciso saber em que terreno estou pisando.
No mundo do trabalho, necessitamos conviver com regras cada vez mais produtoras de deslealdade: a competitividade, as vaidades etc.
Mas na minha vida pessoal, quem estabelece quem receberá  pulseira vip sou eu.
Ou melhor, são as atitudes das pessoas.
Eu apenas tenho os critérios.
E o critério é essencialmente um: lealdade. Com tudo que a acompanha. Desde os pequenos aos grandes gestos e atitudes cotidianas. Desde o respeito às pequenas coisas ao apoio em grandes momentos.
Lealdade é o “anel de brilhante” que dei a mim mesma como presente de aniversário de cinquenta anos. Lealdade de mim para comigo e exigência de lealdade nos relacionamentos que compõem meu universo afetivo.
E de hoje em diante não transigirei mais com isto. Não vou passar a vida brigando com as pessoas, mas vou munir-me de uma “borracha escolar” para ir apagando nomes, sem apego.
E agregando outros, grifando aqueles que sempre estiveram ali e sempre estarão.
Não tenho nenhum medo da solidão.
Por duas razões: porque sei que tenho a sorte de ter alguns amigos e familiares leais e porque, mesmo se não fosse este o caso, preferiria minha própria companhia à das pessoas desleais. Não é confortável você precisar viver encostada na parede porque, se desproteger as costas, poderá sofrer uma punhalada.
Nos últimos dois anos a vida me expôs a uma dura realidade: nós perdemos pessoas e não podemos fazer NADA a respeito disto. Se, por um lado, vivi toda a dor das perdas, por outro, aprendi a me conformar com outro tipo de perdas, com as perdas em geral. Simplesmente não tenho controle sobre elas. De nada adianta me apegar porque, como disse Chico Buarque, “vida veio e me levou”.
Levou-me para um lugar onde me identifico mais com a contemplação resignada do heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, do que com  os “trágicos” Ricardo Reis e Álvaro de Campos, outros heterônimos do mesmo poeta.
Tudo isto parece muito amargo. Mas não sinto assim.
Apenas resignação. E uma sensação de libertação.
Libertação de tantos fardos.
A vida é assim e não me pede autorização para isto.
A vida nunca me pediu autorização para retirar do meu convívio pessoas queridas.
A vida nunca me pediu autorização para sofrer pequenas e grandes traições e deslealdades.
Então, é isto: a vida não me pede autorização.
Não posso, portanto, ocupar-me disto.
Cabe-me tão somente estar.
 Ser.
 Aceitar.
Sobreviver.
Viver.
Lembro-me de que há vinte anos, quando meu avô morreu, após alguns dias internado, a despeito de todas as preces da família, me veio igualmente esta sensação de resignação. “Vida veio e me levou”.
Há perdas que acontecem e contra as quais nada podemos fazer.
Perdas por morte e perda por afastamento.
Vinte anos depois, fazendo o balanço das perdas de 2012 e 2013, sinto- me ainda um pouco mais resignada.
E um pouco mais sábia diante das perdas.
Nem todas são para o mal. No caso da ausência do meu filho, que foi estudar no exterior, o meu “grude” de uma vida inteira, que atravessou mares para crescer sozinho, é um dor “do bem”. Nem por isto dói menos. Mas foi uma perda “do bem”
Nos casos das oito mortes de pessoas que faziam parte de minha vida havia décadas, todas da minha idade, não posso de modo algum dizer que foram para o bem, mas simplesmente aconteceram.
Antes da hora.
Em um caso específico, no caso do Luiz Cláudio, muito antes da hora, muito mais do que eu poderia suportar.
Mas sobrevivi.
Relendo o que escrevi em meu diário há cerca de um ano e meio, eu mesma me assusto. Como suportei? Como pude sentir tanta dor e estar aqui hoje?
Quase morri, tive um AVC.
Mas sobrevivi.
E, se sobrevivi, não é para ter uma vida qualquer, não é para “engolir a seco” e tolerar condutas não dignas de mim.
Sobrevivi para me respeitar e me fazer respeitar.
Para saber que, se eu tomo partido, as pessoas também tomarão.
Que se eu coloquei limite em uma amizade que se colocou sob condição para permanecer (amizade, penso eu, é incondicional – e era um condição absurdamente fútil), imediatamente após, deixei de ser convidada para duas festas de aniversário de amigas comuns. Uma, inclusive, já havia falado que ia comemorar e me convidar, até porque gostaria de reunir todo mundo e mencionou especificamente a pessoa com quem eu havia tido o problema. Apenas comentei: Legal, irei sim!
Nem mencionei o fato.
As semanas passaram, não recebi o convite e vi as fotos no Facebook. Ok. Compreendo. As pessoas têm todo o direito de “achar” que sou intransigente e não serei eu a tentar convencê-las. Foram curiosamente duas festas de aniversário na mesma semana. Nenhuma das duas me procurou para ouvir minha versão. Ok. Sem mágoas. Mesmo.
Aos cinquenta anos, não posso mais usar meu tempo tentando convencer ninguém de que tenho razão, ou quais são as minhas razões. Simplesmente serei eu. Do meu jeito. Prezando a lealdade e a incondicionalidade de uma verdadeira amizade. Amizade sob condição de que eu faça o que a pessoa pensa que é o mais certo para mim, não é amizade.
Sou assim.
Não me intrometo nas decisões alheias.
Passo por omissa.
Há pessoas que gostam que os amigos deem broncas, deem diretrizes às suas vidas, decidam o que devem fazer, cobrem atitudes, dizendo: “você TEM que fazer isto, você TEM que terminar tal curso, você TEM que sair de tal trabalho...”
Ambas têm as melhores intenções. Tanto as que fazem isto, quanto as que esperam isto dos amigos.
Nem faço, nem tolero que façam comigo.
Para mim, o verdadeiro amigo é aquele que respeita e apoia as decisões do outro, que dá colo. As pessoas são adultas e têm o direito de decidir sobre o que preferem, sem interferências, a menos que estejam pedindo um conselho, penso eu.
Assim me conduzo com meus amigos.
Não sou uma pessoa “em cima do muro”, apenas tenho um profundo respeito pelo direito de cada um decidir o que é melhor para SI. E eu, para MIM.
Amizade, em minha concepção, não é um tapete de pregos, é uma almofada aconchegante.
Como tapetes de pregos, já bastam os desafetos, os egos competitivos. O “mundo lá fora”.
De amigos, eu espero carinho e conforto.
Simplesmente, não gosto que arbitrem sobre minha vida. E, por esta razão, não arbitro sobre a vida dos amigos, embora me importe (muito) com sua felicidade. Alias, não arbitro exatamente porque me importo. Não tenho a pretensão de saber o que é o melhor para o OUTRO.
Mas, como “Narciso acha feio o que não é espelho”, muitas pessoas pensam que o único jeito certo de ser é o delas. Vamos seguindo a vida com algumas surpresas.
Há pessoas que não conseguem um mínimo de descentramento, só conseguem admitir que os outros façam aquilo que elas consideram o correto.
Outras, tomam partido sem conhecer os fatos.
Outras, tomam partido conhecendo os fatos.
Nada disto é errado.
Simplesmente é.
Simplesmente acontece assim.
A vida me encanta, mesmo assim.
Este não é um manifesto de amargura.
É um manifesto do balanço de meio século de vida, a fim de bem viver a outra metade de século que desejo viver.
Sinto muita falta das pessoas que perdi. Das que perdi para a morte e das que perdi para o fim ou para o estremecimento da amizade.
Mas é simplesmente assim que a vida acontece.
Da mesma forma que jamais poderei ter de volta as pessoas que se foram por morte , também não me apego à ideia de ter de volta aquelas que se foram por não suportar meu “novo” jeito de ser, após meu renascimento.
Fazer o quê? Sentir saudades, tanto de umas quanto de outras. Lamentar as perdas, tanto de umas quanto de outras.
Fazer o quê? Telefonar menos para aquelas que percebo desinteresse em retornar as ligações.
Deixar de escrever para aquelas que nunca respondem, por terem se escandalizado com o fato de a “menina bem-comportada” ou a “professora-doutora” colocar algumas raivas para fora, expor as próprias feridas.
Tem gente que não gosta, que não suporta.
É um direito delas.
E é meu direito ser do modo como sou, como acredito.
Não tenho tempo para desafetos.
Tenho tempo para os afetos.
Tenho tempo para a música.
Tenho tempo para aprender e ensinar, que amo.
Tenho tempo para me divertir com pessoas leves.
Tenho tempo para aprender a ser leve.
E ser leve significa me desapegar de “afetos tóxicos”.
Ser leve significa cultivar boas amizades que não apertam como nós, mas que acariciam e enfeitam, como laços, que enlindecem a vida.
Quero pessoas na minha vida com vocação para o enlindecimento.
Não quero pessoas controladoras, donas de verdades, ácidas.
Não quero juízes.
Quero apenas seguir sendo eu.
Aceitando-me com meus lados de que gosto mais e os de que talvez goste menos, meus limites, mas pelos quais sinto carinho, pois me constituem e me ajudam a viver.
Penso aqui em quantas pessoas enlindecedoras conheço há muito tempo e não tenho me dedicado tanto a passar algumas horas com elas para enlindecer mais minha vida.
Outras, igualmente enlindecedoras, conheço há menos tempo.
Este é um manifesto pela leveza.
Aos cinquenta anos, me devia este presente: permissão para simplesmente ser e estar. Do meu jeito. Sem ferir, sem me deixar ferir.
Enlindecendo a minha vida e a de quem souber ver em mim alguma fonte de enlindecimento de suas vidas.


















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