segunda-feira, 3 de março de 2014

Flocos de Alma - Para quem tem Alma

Flocos de alma

Escrito em janeiro de 2014

“Por que você não junta tudo o que você posta aqui e faz um livro?”
“Entro na rede social procurando o que você escreveu, sempre me identifico”
“Você podia publicar estas postagens, muita gente gostaria de ler”
Começou assim. Minhas postagens diárias nas redes sociais e as reações dos amigos.
Alguns: “Ah, você se expõe demais! Deveria se preservar mais, isto não é bom!”
Outros: “Me identifico com o que você escreve, parece que está falando o que estou sentindo, continue postando.”
Virada de ano, momento de decisões: Vou parar de postar o que penso, o que sinto, meus estados de espírito , de alma, minhas opiniões, indignações, reflexões, questionamentos, e vou enfrentar a tarefa de transformar isto em um livro. Flocos de alma, para outras almas inquietas, sensíveis, indagadoras, reflexivas, na contra-corrente do senso-comum, em fuga do lugar-comum.
Cotidiano. Transcendência. Cheiro de alho fritando na panela. Dores de luto. Perdas.  Renascimentos. Vida. Morte. Deus. Metas para o novo ano. Depressão. Superação. A vida na cidade pequena. A vida na cidade grande: o “tão pequeno” e o “tão grande” igualmente despertam na alma afetos, sentidos, significados, impressões.
Seguimos vivendo o luto, a fragilidade, a depressão, os desamparos, as dores, o “destempero”, na sociedade que grita o imperativo frenético e histérico  “seguir em frente” a todo custo. Qual o preço e o “limite” de uma amizade?  Qual o lugar da sinceridade e autenticidade no mundo da dissimulação? Como vivemos a solidariedade, o amor fraterno no mundo “politicamente correto” que dita as normas de engajamento e compromisso com o outro, bem como suas margens de segurança? Que te exige engajamento, mas com “distância segura”? Que dificuldades encontra um sofredor de transtornos como a depressão, para identificar e expressar o que vive, a fim de viabilizar diagnóstico e tratamento, se uma das características é justamente a condição de uma sensação indefinível e indescritível nos transtornos da alma?
Fui, como disse, deixando de me expor tanto nas redes sociais e catalogando, inventariando neste livro reflexões sobre valores, sentimentos, opiniões, vivências, o mundo em que vivemos, a cultura em que estamos imersos na dialética imersão-emersão contínua.
Tento ver de muito perto, de dentro, para ver longe e de fora. Falo de mim, na busca de falar com o outro. Falo do particular/universal em mim para encontrar o particular/universal no outro.
São inquietações da alma, como diz o título, entendendo alma como aquilo que nos constitui intimamente e estrutura nosso ser “visível” e “invisível”, a pessoa que somos, a que desejamos ser, a que mostramos, a que preservamos, e a que desejamos mostrar e preservar.
Os pretextos são acontecimentos cotidianos e suas cortinas.
Não há aqui compromisso com a factualidade, com o que é fato objetivo, mas com o sentimento, com a ideia. Os personagens, são, portanto, uma alquimia de realidade e desejo, concretude e projeção; os fatos, igualmente, consistem na alquimia entre o real e o imaginário. O que importa é a identificação e afinidade que pode gerar no íntimo da alma do leitor. Gerar cumplicidade e, quem sabe, algum alívio.
Não há na descrição de qualquer acontecimento, atitude ou comportamento, compromisso com o fato em si, nem com a pessoa. Inclusive, quando falo na primeira pessoa. Não estou me referindo necessariamente a mim, factualmente, objetivamente. Falo na primeira pessoa, mas falo de um ente imaginado, construído, que pode ou não, em cada caso, conter em maior ou menor grau, uma aproximação com a minha identidade pessoal “real”. O      “eu” do/no livro, os acontecimentos deste “eu”, não são necessariamente o “eu” da autora do livro e dos acontecimentos reais que lhe sucedem.
Diferente de livro anterior, cujas crônicas eram baseadas estritamente em fatos e personagens reais, este é baseado em sentimentos verdadeiros e na minha percepção sobre amizade, luto, dores, alegrias, modos de ser, sociabilidades, cotidiano, relacionamentos, enfim: temas universais que aqui partem de situações reais ou imaginárias, como meros pretextos para expressar flocos da alma e dialogar com o leitor sobre nossas inquietações em comum, nossas incertezas e desafios na sofisticada (e por vezes dolorosa) arte de viver. É um convite à partilha do que vai pelas almas que estão nesta jornada, tentando viver com humanidade em um mundo desumanizado.
Todos os personagens, portanto, inclusive o personagem “eu”, são construídos no imaginário, são ficções, são o resultado do que são e do que penso que são. Do que fazem e do que penso que fazem. Do que sentem e do que penso que sentem.
Busco na identificação com o leitor, ou na identificação do leitor com o texto, a transversalidade interpessoal. Comunicar sentimentos, afetos, inquietações.
Trago um catálogo de experiências de vida, reais e fictícias, e minhas impressões sobre elas. Sua verdade está na universalidade que existe em cada individuo e na peculiaridade do modo de viver o universal.
(Como vocês observaram, o texto foi escrito para um livro. Decidi transformar o projeto em blog, mas mantive  o texto original)


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