domingo, 2 de março de 2014

Depressão é um estado de alma, não do corpo

Dia 8 de janeiro de 2014      
Depressão é um estado de alma, não de corpo.
“Depressão?! Você?! Que nada! Não é possível, você trabalha, estuda, vai ao salão de beleza. Você não tem depressão. Depressão deixa a pessoa na cama meses e meses sem se levantar, sem tomar banho, sem comer.”
“Como assim? Você diz que está saindo de dois anos de depressão, mas convivi com você nestes dois anos e não notei nada? Você trabalhou pra caramba, produziu à beça. Que depressão, o quê! Você não sabe o que é depressão! Você é uma pessoa alegre, bem-humorada, ativa, como pode dizer que estava em depressão, se eu te via sempre?”
Quem vê movimento não vê sentimento.
 Depressão é um estado de alma, não de corpo.
 Em alguns casos, manifesta-se na prostração, mas nem todos. A maioria, não.
 A maioria dos acometidos arrasta correntes e “segue em frente”, segue de lado, segue parado... 
São casos e modalidades diferentes, nem sequer graus, são modalidades.
Quantos milhões de pessoas emergem todas as manhãs, por pura falta de opção, se agarrando nas paredes, depois de terem pensado em todas as desculpas plausíveis para ligar e justificar a ausência? Passam o dia administrando ou tentando administrar a dor profunda, a angústia, a ansiedade generalizada, o medo não se sabe de quê, a sensação de iminência de um mal desconhecido, difuso, e submergem à noite, quando fecham a porta do quarto, no mais brutal terror.
E quem irá calcular quantas toneladas de peso terá que levantar para arrastar sua alma no dia seguinte, mundo afora?
Mas se não for, se ficar na cama, se ignorar os compromissos, como pede sua alma aos gritos, será pior.
E lá vai ela, arrastando correntes. Adiando ao máximo tudo o que pode, enquanto pode. Evitando tudo o que pode evitar. Dando mil desculpas. Perdendo prazos, correndo para não perder prazos.  Procrastinando tudo o que acha que pode ser procrastinado, mas que, um dia, vai cobrar por esta procrastinação.
Quem dera se se pudesse simplesmente abandonar como numa depressão clássica. Ficar largada, jogada, sofrendo. Pelo menos seria um sofrimento a menos, o sofrimento de ter que enfrentar os sofrimentos.
Precisa seguir sofrendo, mas seguir, cumprir, ir, fazer, atuar, agir. 
Não pode, não tem a opção de se deixar ficar, teria um problema a mais: como sobreviver?
Nem todos podem se licenciar do trabalho, de todas as obrigações e ficar entregue.
Passei décadas em busca de um diagnóstico para um recorrente mal-estar. Algumas dezenas de profissionais de saúde repetiam o mesmo chavão: você não tem depressão, você estuda, trabalha , faz mil coisas.
E eu me inquietava cada vez mais. Sazonalmente, desde a infância,  era acometida por uma crise de “não-eu”. Eu deixava de ser eu mesma e passava a ser uma pessoa estranha, na qual não me reconhecia. Falta de ânimo, de entusiasmo, de gosto pela vida. Era tomada por um “acinzentamento” no olhar. Nada mais tinha cor. Apatia. E uma angústia que misturava três sentimentos difusos: medo, culpa e vergonha. Sem saber de quê. Era um medo abstrato, uma sensação de culpa abstrata e de vergonha sem saber de quê. Um terrível mal-estar. Uma enorme angústia e ansiedade. Os pensamentos e sentimentos recorrentes de que aconteceria alguma desgraça.
Uma impossibilidade de manter o ritmo normal da vida.
Quando criança, o médico “diagnosticava” anemia (que tenho mesmo, mas não era a causa) e prescrevia suplementos de ferro e vitamina C para dar uma incrementada nas minhas energias. 
Isto acontecia anualmente, em geral por volta do mês de agosto. 
Por efeito do aumento de energia resultante da medicação ou por remissão espontânea dos sintomas, eu melhorava.
Muitos foram os danos emocionais, sociais, profissionais, financeiros etc. que sofri (e causei) durante 3 décadas e meia, até descobrir, em um livro de “auto-ajuda”, que existem múltiplas formas, graus e modalidades de depressão.
Foi um longo e rico caminho de busca de diagnóstico.
Digo que foi rico por me ter permitido experimentar e conhecer inúmeras alternativas no campo do desenvolvimento pessoal, desde yoga a meditação,  macrobiótica , filosofias orientais antigas etc.
Isto, sem dúvidas, contribuiu para minha constituição pessoal. Mas não resolvia o fantasma que me assaltava anualmente. E que a partir da terceira década de vida, passou a apresentar-se de modo mais frequente e intenso. Noites de terror, imaginando que, no dia seguinte, eu  teria que pegar o carro para levar a família a um passeio (que, realmente estava agendado), e que ia sofrer um acidente,causando a morte de todos. Que, ao levar meu filho de ônibus ao shopping, seríamos atropelados ao atravessar a rua. Passava a noite aterrorizada por tais pensamentos, mas acordava e ia, enfrentava. Com a alma pesando toneladas. Mas ia.  
(INTERMINADO)

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