domingo, 2 de março de 2014

Janeiros, janeiros...

Janeiros, janeiros...
Escrito em janeiro de 2014
Dia 18 de janeiro de 2011, sexta-feira- Recebemos a notícia de que meu pai está com dois cânceres “independentes” . Próstata e bexiga. Um ano de lutas sem um minuto de trégua,inúmeros exames, várias cirurgias, radioterapia dois meses todos os dias, consultas todas as sextas-feiras.
Dia 16 de janeiro de 2012, segunda-feira- Meio-dia. Quase um ano de lutas após, a vitória: recebemos a notícia de que meu pai está “tecnicamente curado”, que é só uma questão de controle, que o tratamento foi um sucesso. E até hoje continua sem recidiva, graças a Deus.
Dia 17 de janeiro de 2012, terça-feira,  9:30 da manhã, menos de 24 horas depois da alegria pela recuperação do meu pai, o carro onde está Luiz Cláudio a caminho do aeroporto – viagem de trabalho  (ele estava no banco do carona) choca-se com um ônibus na Av 28 de setembro. Última vez que vejo Luiz Cláudio consciente, falo com ele no hospital. Tranquilizo-o. “Você vai sair desta. Sua pressão está boa (lendo o monitor para ele, que não podia alcançá-lo com os olhos), seus batimentos cardíacos também, tudo certinho, você está bem. Está aqui só recuperando do susto e da cirurgia. Fique tranquilo. Se não morreu quando engoliu aquela bala soft na escola há mais de 40 anos atrás e levou aquele “murro” do Seu Zé (porteiro) para desentalar, não vai morrer agora pó,or causa de um “onibuzinho” qualquer, né? (sorrindo para disfarçar) Você só sofreu algumas fraturas bobas e logo, logo, estará bem. O pior já passou”.
Foi o que me ocorreu dizer para “animá-lo”. A enfermeira sorri com a história da bala soft e o murro do Seu Zé. Ele esboça um sorriso, responde com movimentos de cabeça que não está sentindo dor, “conversa” com os olhos e movimentos de cabeça.
A médica, em conversa reservada, mostra-se preocupada. Ferimentos internos graves. Capacidade respiratória baixa, pulmão comprometido, pneumotórax, histórico de asma, risco elevado.
Volto para me despedir, coloco a mão em sua testa e saio dizendo: “Fica com Deus, estamos lá embaixo, não podemos ficar aqui com você na UTI, mas você não está sozinho.” Foi a última troca de olhares.
Cinco dias de agonia. A cada dia o estado se agravava, o prognóstico era mais pessimista, mas minha cabeça negava. Eu estava “convencida” de que ele se recuperaria. Até porque a outra possibilidade seria insuportável para mim e para nosso filho. Eu não tinha estrutura para enfrentar a realidade e simplesmente a negava.
Dia 22 de janeiro de 2012, 6 e meia da manhã, chego ao hospital completamente despreparada, apenas para conversar com a médica antes da troca de plantão... A enfermeira me diz a frase terrível: “(...) infelizmente, ele veio a óbito.” A primeira e única coisa que consigo falar: “Como vou contar isto para o nosso filho?” Minha vida partiu-se em pedaços...  Vida amputada ao meio. Como viver sem o tripé “pai-mãe-filho” com que me apoiava sempre? Como não mais dividir as alegrias , dores e preocupações com nosso filho? Com quem eu poderia agora desabafar nos piores momentos? Com quem eu poderia contar? A quem eu ia ligar a caminho de uma viagem para avisar que nosso filho estaria sozinho do Rio de Janeiro. De quem eu ouviria as palavras mágicas : “Fica calma, tudo está nas mãos de Deus, tudo vai dar certo, Felipe é ‘meu departamento’, não esquente a sua cabeça, eu resolvo isso”?Com quem eu ria contar nas noites de preocupação com um filho na rua, se o pai dele não estaria mais ali para dar uma checada nos lugares onde ele trabalhava, por onde ele andava? Como enfrentar os medos de uma mãe sozinha numa cidade como o Rio de Janeiro, com um filho jovem exposto a todos os perigos?E, pior, agra sem seu maior suporte? O que seria do Felipe? E eu?  Como eu poderia assimilar que uma pessoa que fez parte ininterrupta da minha vida desde os 7 anos de idade, por 42 anos, de repente, se vai, desaparece, não está mais aqui para responder ao telefone? Para fazer as “conversas de manutenção” com nosso filho?
Procuro o elevador, não enxergo nada. O vigilante do hospital me pergunta onde quero ir, se preciso de ajuda... Digo: “não sei, estou indo a qualquer lugar, o pai do meu filho acabou de morrer. Como vou contar isto a ele?” Saio desorientada. E permaneço desorientada por meses, meses e meses, ano, ano e meio. Em dois anos já juntei alguns caquinhos, mas a dor vai comigo aonde quer que eu vá. Sobrevivo. Não acredito, não assimilo, não aceito, não me acostumo, não naturalizo, não me conformo. Um tragédia que mudou nossas vidas para sempre. Meses depois, tentanto “ser forte” e retomar o trabalho, exatamente 9 meses depois, ou seja, em 22 de outubro de 2013,sofro um AVC em minha sala de trabalho da Fiocruz durante uma reunião com os orientandos.
Janeiro de 2013- Depressão e luto profundos (ainda). Recolhimento, mas os fatos da vida pressionam. Preparação de mudança de casa. Filho se preparando para sair do Brasil. Providências obrigatórias a serem tomadas, vida desorganizada até o último grau.Sem forças. Contando com minha família e alguns raros amigos que ficam por perto na hora da dor. A maioria adora festas, mas foge desesperada ao menor sinal de dor e luto. Ou quer te obrigar a seguir o calendário “deles” de um luto “normal” nesta cultura lutofóbica, neurótica, psicótica, histérica e frenética, que não suporta ver seus paradigmas sacudidos diante de uma pessoa que sofre uma perda e assume que sofre. Cobranças: Vc precisa reagir, a vida continua. (Eu sei que a vida continua eu dizia, mas não precisa ser AGORA), 2013, primeiro passos para a restauração das forças e retomada de algumas atividades. E muitas outras perdas, para coroar.
Janeiro de 2014- O recomeço!!! Visaõ positiva, Férias provincianas de 45 dias com meu filho em Leuven, é disto que minha alma precisa para retomar o fôlego dos traumáticos três janeiros passados. Minha alma precisa de um tempo de lar, cheiro de alho frito, presença do filho, vida calma, volta à saúde emocional , que não está nos sassaricos, mas no cotidiano. Nas coisas que “valem”. Planos para o ano: visitar os familiares que moram longe em todos os feriadões. Juntar-me aos meus amigos de verdade, viver mais encontros com eles.Trabalhar muito para ajudar no sonho do Felipe de fazer seu mestrado aqui, onde ele se refugiou da dor da perda do pai e se sente em paz, como me disse.
Foram dois anos de perdas, perdas, perdas, perdas. Oito mortes de amigos jovens para morrer, da minha faixa de idade, 50 anos, que cresceram junto comigo, amigos antigos, amigos desde a infância ou, no mínimo, de uns 30 anos de amizade. Em 2013, quatro sepultamentos em um período de 3 meses, entre junho e agosto. Todos da minha idade, Além dos amigos,sofri vários familiares partindo, sempre, a nossos olhos, muito antes da hora, ainda com muita coisa por viver: Binha, Ritinha,Tia Cilene, João Batista, tanta gente... Minha mãe tentou me poupar, vendo meu estado, escondendo algumas destas mortes na família, mas o facebook contou, como o caso do primo João Batista (começando a retomar as atividades de trabalho, eu estava em um congresso em São Paulo e soube de sua morte pelo facebook).
Dois anos de perdas... Mortes trágicas, imprevistas, imprevisíveis, inesperadas... E outras perdas, mortes simbólicas (tantas...), mudanças, desapegos, despedidas, decepções (quantas...), distâncias, cortes, incluindo cortes internos de relações tóxicas com pessoas tóxicas e de partes tóxicas de mim mesma que precisavam ser cortadas... Perdas, perdas, perdas.  
Foi a “era dos cortes e das perdas”.E do aprendizado sobre as perdas, sobre não sermos nem termos NADA, de fato, na vida, a não ser o amor das pessoas queridas. Dos vínculos que valem a pena, embora, por ironia do destino, tenha também perdido por morte simbólica, dois destes vínculos que eu considerava incondicionais. Coisas da vida “de fora” impedindo a vida “de dentro”. Algumas pessoas dão mais valor a seus próprios caprichos do que a uma verdadeira amizade de décadas. Foram duas perdas desta natureza. Até porque, me tornei um tanto fatalista: Perdas ocorrem e não depende de minha vontade. No caso da “morte em vida”, de nada adianta eu alimentar amizades cuja reciprocidade não envolve lealdade e incondicionalidade.
Tantas perdas juntas podem querer me ensinar alguma coisa, a ser um ser humano melhor.
Mas, chega de perdas e cortes, Deus? Rezo para que sim.
Que 2014 seja de colar cacos, de juntar os que ainda pode ser juntados e de sepultar o que deve ser sepultado,com toda a dor que isto exija. Que seja um ano de RESTAURAÇÂO das forças,em todos os sentidos, que nenhum vaso mais seja quebrado. E que venham novos vasos, floridos, “ensolarados” como girassóis, na vida de todos nós! (não era para rimar).
Música de padre Fábio. Motivos para recomeçar. E Jesus ,eu Deus humano – por que vc se foi?


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