Janeiros,
janeiros...
Escrito em janeiro de 2014
Escrito em janeiro de 2014
Dia
18 de janeiro de 2011, sexta-feira- Recebemos a notícia de que meu pai está com
dois cânceres “independentes” . Próstata e bexiga. Um ano de lutas sem um
minuto de trégua,inúmeros exames, várias cirurgias, radioterapia dois meses
todos os dias, consultas todas as sextas-feiras.
Dia
16 de janeiro de 2012, segunda-feira- Meio-dia. Quase um ano de lutas após, a
vitória: recebemos a notícia de que meu pai está “tecnicamente curado”, que é
só uma questão de controle, que o tratamento foi um sucesso. E até hoje
continua sem recidiva, graças a Deus.
Dia
17 de janeiro de 2012, terça-feira, 9:30
da manhã, menos de 24 horas depois da alegria pela recuperação do meu pai, o
carro onde está Luiz Cláudio a caminho do aeroporto – viagem de trabalho (ele estava no banco do carona) choca-se com
um ônibus na Av 28 de setembro. Última vez que vejo Luiz Cláudio consciente,
falo com ele no hospital. Tranquilizo-o. “Você vai sair desta. Sua pressão está
boa (lendo o monitor para ele, que não podia alcançá-lo com os olhos), seus
batimentos cardíacos também, tudo certinho, você está bem. Está aqui só
recuperando do susto e da cirurgia. Fique tranquilo. Se não morreu quando
engoliu aquela bala soft na escola há mais de 40 anos atrás e levou aquele “murro”
do Seu Zé (porteiro) para desentalar, não vai morrer agora pó,or causa de um
“onibuzinho” qualquer, né? (sorrindo para disfarçar) Você só sofreu algumas
fraturas bobas e logo, logo, estará bem. O pior já passou”.
Foi
o que me ocorreu dizer para “animá-lo”. A enfermeira sorri com a história da
bala soft e o murro do Seu Zé. Ele esboça um sorriso, responde com movimentos
de cabeça que não está sentindo dor, “conversa” com os olhos e movimentos de
cabeça.
A
médica, em conversa reservada, mostra-se preocupada. Ferimentos internos
graves. Capacidade respiratória baixa, pulmão comprometido, pneumotórax,
histórico de asma, risco elevado.
Volto
para me despedir, coloco a mão em sua testa e saio dizendo: “Fica com Deus,
estamos lá embaixo, não podemos ficar aqui com você na UTI, mas você não está
sozinho.” Foi a última troca de olhares.
Cinco
dias de agonia. A cada dia o estado se agravava, o prognóstico era mais
pessimista, mas minha cabeça negava. Eu estava “convencida” de que ele se
recuperaria. Até porque a outra possibilidade seria insuportável para mim e
para nosso filho. Eu não tinha estrutura para enfrentar a realidade e
simplesmente a negava.
Dia
22 de janeiro de 2012, 6 e meia da manhã, chego ao hospital completamente
despreparada, apenas para conversar com a médica antes da troca de plantão... A
enfermeira me diz a frase terrível: “(...) infelizmente, ele veio a óbito.” A
primeira e única coisa que consigo falar: “Como vou contar isto para o nosso
filho?” Minha vida partiu-se em pedaços...
Vida amputada ao meio. Como viver sem o tripé “pai-mãe-filho” com que me
apoiava sempre? Como não mais dividir as alegrias , dores e preocupações com
nosso filho? Com quem eu poderia agora desabafar nos piores momentos? Com quem
eu poderia contar? A quem eu ia ligar a caminho de uma viagem para avisar que
nosso filho estaria sozinho do Rio de Janeiro. De quem eu ouviria as palavras
mágicas : “Fica calma, tudo está nas mãos de Deus, tudo vai dar certo, Felipe é
‘meu departamento’, não esquente a sua cabeça, eu resolvo isso”?Com quem eu ria
contar nas noites de preocupação com um filho na rua, se o pai dele não estaria
mais ali para dar uma checada nos lugares onde ele trabalhava, por onde ele
andava? Como enfrentar os medos de uma mãe sozinha numa cidade como o Rio de
Janeiro, com um filho jovem exposto a todos os perigos?E, pior, agra sem seu maior
suporte? O que seria do Felipe? E eu? Como eu poderia assimilar que uma pessoa que
fez parte ininterrupta da minha vida desde os 7 anos de idade, por 42 anos, de
repente, se vai, desaparece, não está mais aqui para responder ao telefone?
Para fazer as “conversas de manutenção” com nosso filho?
Procuro
o elevador, não enxergo nada. O vigilante do hospital me pergunta onde quero
ir, se preciso de ajuda... Digo: “não sei, estou indo a qualquer lugar, o pai
do meu filho acabou de morrer. Como vou contar isto a ele?” Saio desorientada.
E permaneço desorientada por meses, meses e meses, ano, ano e meio. Em dois
anos já juntei alguns caquinhos, mas a dor vai comigo aonde quer que eu vá.
Sobrevivo. Não acredito, não assimilo, não aceito, não me acostumo, não naturalizo,
não me conformo. Um tragédia que mudou nossas vidas para sempre. Meses depois,
tentanto “ser forte” e retomar o trabalho, exatamente 9 meses depois, ou seja,
em 22 de outubro de 2013,sofro um AVC em minha sala de trabalho da Fiocruz
durante uma reunião com os orientandos.
Janeiro
de 2013- Depressão e luto profundos (ainda). Recolhimento, mas os fatos da vida
pressionam. Preparação de mudança de casa. Filho se preparando para sair do
Brasil. Providências obrigatórias a serem tomadas, vida desorganizada até o
último grau.Sem forças. Contando com minha família e alguns raros amigos que
ficam por perto na hora da dor. A maioria adora festas, mas foge desesperada ao
menor sinal de dor e luto. Ou quer te obrigar a seguir o calendário “deles” de
um luto “normal” nesta cultura lutofóbica, neurótica, psicótica, histérica e
frenética, que não suporta ver seus paradigmas sacudidos diante de uma pessoa
que sofre uma perda e assume que sofre. Cobranças: Vc precisa reagir, a vida
continua. (Eu sei que a vida continua eu dizia, mas não precisa ser AGORA),
2013, primeiro passos para a restauração das forças e retomada de algumas
atividades. E muitas outras perdas, para coroar.
Janeiro
de 2014- O recomeço!!! Visaõ positiva, Férias provincianas de 45 dias com meu filho
em Leuven, é disto que minha alma precisa para retomar o fôlego dos traumáticos
três janeiros passados. Minha alma precisa de um tempo de lar, cheiro de alho
frito, presença do filho, vida calma, volta à saúde emocional , que não está
nos sassaricos, mas no cotidiano. Nas coisas que “valem”. Planos para o ano:
visitar os familiares que moram longe em todos os feriadões. Juntar-me aos meus
amigos de verdade, viver mais encontros com eles.Trabalhar muito para ajudar no
sonho do Felipe de fazer seu mestrado aqui, onde ele se refugiou da dor da
perda do pai e se sente em paz, como me disse.
Foram
dois anos de perdas, perdas, perdas, perdas. Oito mortes de amigos jovens para
morrer, da minha faixa de idade, 50 anos, que cresceram junto comigo, amigos
antigos, amigos desde a infância ou, no mínimo, de uns 30 anos de amizade. Em
2013, quatro sepultamentos em um período de 3 meses, entre junho e agosto. Todos
da minha idade, Além dos amigos,sofri vários familiares partindo, sempre, a
nossos olhos, muito antes da hora, ainda com muita coisa por viver: Binha,
Ritinha,Tia Cilene, João Batista, tanta gente... Minha mãe tentou me poupar,
vendo meu estado, escondendo algumas destas mortes na família, mas o facebook
contou, como o caso do primo João Batista (começando a retomar as atividades de
trabalho, eu estava em um congresso em São Paulo e soube de sua morte pelo
facebook).
Dois
anos de perdas... Mortes trágicas, imprevistas, imprevisíveis, inesperadas... E
outras perdas, mortes simbólicas (tantas...), mudanças, desapegos, despedidas, decepções
(quantas...), distâncias, cortes, incluindo cortes internos de relações tóxicas
com pessoas tóxicas e de partes tóxicas de mim mesma que precisavam ser
cortadas... Perdas, perdas, perdas.
Foi
a “era dos cortes e das perdas”.E do aprendizado sobre as perdas, sobre não
sermos nem termos NADA, de fato, na vida, a não ser o amor das pessoas
queridas. Dos vínculos que valem a pena, embora, por ironia do destino, tenha
também perdido por morte simbólica, dois destes vínculos que eu considerava
incondicionais. Coisas da vida “de fora” impedindo a vida “de dentro”. Algumas
pessoas dão mais valor a seus próprios caprichos do que a uma verdadeira
amizade de décadas. Foram duas perdas desta natureza. Até porque, me tornei um
tanto fatalista: Perdas ocorrem e não depende de minha vontade. No caso da
“morte em vida”, de nada adianta eu alimentar amizades cuja reciprocidade não
envolve lealdade e incondicionalidade.
Tantas
perdas juntas podem querer me ensinar alguma coisa, a ser um ser humano melhor.
Mas,
chega de perdas e cortes, Deus? Rezo para que sim.
Que
2014 seja de colar cacos, de juntar os que ainda pode ser juntados e de
sepultar o que deve ser sepultado,com toda a dor que isto exija. Que seja um
ano de RESTAURAÇÂO das forças,em todos os sentidos, que nenhum vaso mais seja
quebrado. E que venham novos vasos, floridos, “ensolarados” como girassóis, na
vida de todos nós! (não era para rimar).
Música
de padre Fábio. Motivos para recomeçar. E Jesus ,eu Deus humano – por que vc se
foi?
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