Escrito em janeiro de 2014.
Ato I- (permitam-me a “licença literária” em dividir esta “crônica” em “atos”)
Ato I- (permitam-me a “licença literária” em dividir esta “crônica” em “atos”)
O
que uma mãe enxerida faz quando chega à casa de um filho? Xeretar a cozinha,
lógico! Está impresso no DNA da perpetuação da espécie saber como o filho se
alimenta, especialmente longe dos olhos zelosos da mãe.
A
primeira coisa, portanto, que fiz ao chegar ao apartamento do Felipe em 24 de
dezembro, noite de Natal, após umas 24 horas de viagem, voos cancelados
atrasados etc, foi... investigar a cozinha, claro! Que mãe não faria?! Uma pessoa
normal não faria, mas nenhuma mãe é normal. Nenhuma mãe, portanto, deixaria de
“examinar”.
Nessa
primeira incursão, um pouco discreta, mas nem tanto, ainda antes de trocar de
roupa, constatei silenciosamente: nesta casa só há duas facas. E o pior: facas
de mesa, sem qualquer utilidade culinária que possa dar vazão aos meus projetos
de alimentação familiar para os 45 dias de estadia.
(Imagino
o leitor se colocando no lugar do “pobre Felipe” nesta hora- nem atravessando o
Oceano, fica livre da “cruz”).
Mal
pude esperar o supermercado do condomínio abrir no dia 26 de dezembro e lá fui
eu em busca de uma faca “decente”. A única que encontrei era uma monstruosidade
com meio metro de gume e bem pontuda, uma arma letal e assustadora, tipo “Facas
Ginsu” ou de filme de suspense.
Comprei,
né? Fazer o quê? Já estava na hora de preparar o almoço, o carrinho quase cheio
de ingredientes, e eu não iria deixar as compras em casa, caminhar uns dez
minutos até o Centro da Cidade e ficar rodopiando de loja em loja em busca de
uma faca mais adequada e menos assustadora. Levei aquela mesmo e tenho me dado
muito bem com ela, afora um corte profundo no polegar no dia em que tentei
cortar o lacre do frasco de azeite pelo lado oposto do gume, prontamente sanado
com um band-aid e minha boa disposição orgânica para cicatrização. Coisas de
mãe que passa o ano inteiro dando aulas e quando resolve cozinhar nas férias
precisa se readaptar: uns cortezinhos, umas queimaduras, as impressões digitais
“quase perdidas” de tanto lavar louça em água superquente etc. Nada demais para
meus ímpetos culinários.
Ato
II. A vizinha:
Felipe
me havia dito, antes de minha viagem, que tem uma vizinha muito simpática, uma
velhinha fofa, segundo ele, que sempre aparece na janela e dá “tchauzinho”,
sorri.
Imagino
que ela já estivesse curiosíssima para saber quem é esta nova moradora ou
hóspede que se “aboletou” na casa do vizinho dela desde o Natal, mas a
comunicação é só por olhares e acenos, visto que ela mora em outro condomínio e
da janela do Felipe vemos apenas os fundos de sua casa, cuja frente dá para a
outra rua, com um muro no meio, separando esta relação de vizinhança. (ver
fotos em seguida). Ela fala com Felipe quando vem aos fundos da casa, na área
de serviço e ele está na janela do apartamento. Mas percebo que ela olha
bastante pela janela do segundo andar da casa, uma janela bem bonitinha, do
tipo de conto de fadas, com uma cortinha de renda e babadinhos, que fica na
mesma altura da janela do Felipe.
Hoje
de manhã estava eu preparando o almoço e Felipe estudando, como de costume. Ele
estuda em casa de manhã, almoça e vai para o Centro de Estudos da Universidade,
onde fica até meia-noite.
Estava
eu preparando o almoço, caladinha para não atrapalhar os estudos do mestrando
dedicado em fase de entrega de trabalhos, munida de minha fiel companheira de
cozinha, “a faca”, quando Felipe dá uma paradinha nos estudos, abre a janela
para fumar (esse garoto não me ouve e continua fumando) e eu me aproximo, com
meu peculiar jeito efusivo de falar, para contar-lhe minhas descobertas em
pesquisa que fiz pela internet, muito curiosa para saber por que as endívias,
tão caras e raras no Brasil, aqui são tão baratas e abundantes, praticamente
alfaces (isto eu conto depois).
Bom,
dirigi-me ao Felipe, que estava fumando na janela,bem do “meu jeito discreto de
ser”, gesticulando com a faca na mão, toda entusiasmada com minhas descobertas sobre a
engenharia genética rudimentar de um
horticultor belga no pós-guerra que “inventou” a endívia como uma mutação da
chicória... E começo a falar sobre as diferenças, semelhanças e relações de
parentesco entre chicória (ou escarola) e endívias, gesticulando,
gesticulando... e com a faca na mão... E o Felipe, meio de
costas pra mim, meio de lado, não devia estar fazendo uma cara de muito
interessado no assunto, talvez uma cara de tédio ou de “O que foi que eu fiz
pra merecer isto?” E eu falando, falando,
falando... com a faca na mão. Gesticulando, gesticulando, gesticulando... com a
faca na mão.
Quando
me dou conta, a velhinha estava olhando assustadíssima por trás de sua cortina
branca rendada, toda fofa, aquela cena. Imagino o que lhe passou pela cabeça: “Tadinho
do menino, tão bonzinho e estudioso! Aquela loura louca se instala na casa dele e
agora está querendo matá-lo com uma faca.”
Mostrei
ao Felipe, entramos e caímos na risada.
Mas
eu fiquei meio preocupada. Felipe tem o hábito de não dar satisfação a ninguém,
mas eu tenho a péssima mania de me preocupar com a opinião alheia (além de ter
ficado com medo de que a velhinha
chamasse a polícia para socorrer seu vizinho querido que lhe dava “tchauzinho’
pela janela e sorria todos os dias).
Na
maior friagem, mais ou menos uns 3 graus, escancarei a janela e me instalei no
parapeito, munida dela -a faca - com uma tigela de tomates, cebolas, pimentões,
alhos, para deixar BEM CLARO que o uso da faca é meramente culinário e movido
pelo mais puro amor materno. E vejo a silhueta da velhinha por trás das rendas
da cortina, olhando, olhando, olhando.
Ato
IV. Almoço já preparado, abro novamente a janela para dar uma espiada no tempo
lá fora e “sentir um friozinho” para me refrescar do fogão. Eis que um
velhinho, supostamente o marido da velhinha, está de plantão nos fundos da
casa, olhando para nossa janela. Ele puxa conversa comigo; Sim, juro, ele puxa
conversa. Pergunta (só depois eu entendi porque inicialmente ele fala na língua
difícil daqui, uma variação do holandês, então falei uma frase em inglês e
começamos a “conversar” com toda a minha fluência e com todo o sotaque do
velhinho). Ele pergunta se eu abri a janela para fumar porque está muito frio,
que ele está no quintal para fumar (mentira, ele estava era espiando, não havia
nenhum cigarro em suas mãos). Eu respondi exatamente aquilo que eles queriam
saber: “Não, eu não fumo, meu filho (apontando para a mesa onde estava Felipe)
é que fuma.E “sublinhava” bem, repetia “meu filho” (my son, my son, my son).
Daí, a velhinha se desentoca e entra na conversa. Começa a me perguntar coisas.
Eu, além de não entender direito, não conseguia
ouvir, então tentava fazer leitura labial e ia respondendo aquilo que “eu acho”
que ela queria saber: “Sou a mãe do Felipe, estou passando minhas férias com
ele.” E frisava bem “ele é meu filho, estou aqui de férias!!!!”
Ela sorriu aliviada e me perguntou. “De onde
vocês são?” Respondi : “Do Brasil.”
Os
dois escancararam sorrisos, ficamos íntimos: “Oh, Brasil, ótimo! Nosso vizinho
duas casas depois também é do Brasil”. E apontaram na direção da casa do outro
vizinho brasileiro.
Nos
despedimos sorridentes, pedi licença, fechei a janela e entrei, mais aliviada.
E os dois velhinhos, certamente também, muito
mais aliviados por saberem que não há nenhuma “louca da faca” no condomínio ao
lado.
Acho
até que depois vou dar uma voltinha na outra rua para ver a frente da casa dos
velhinhos, (quem sabe se eles não estão no portão?) e a casa dos brasileiros.
Ah, esqueci que com este frio as pessoas não ficam no portão.
Conclusão:
Férias assim não têm preço. Esta imersão
no cotidiano local, travar “relações de vizinhança”, ficar conhecida da
velhinha que “toma conta” do Felipe, da
moça da igreja, do moço do açougue, das operadoras caixas do supermercado, da
meninada que fica lanchando nas escadas da portaria do condomínio na hora que
vou treinar minha corrida e depois larga as caixinhas de suco e pacotes de
batatas fritas espalhados, da garotada com aparência “menos favorecida” de uma escola próxima (imagino que seja da
escola próxima) que vem dar um rolezinho no supermercado - sim, aqui também tem
rolezinho, como é natural em todos os lugares onde há adolescentes, sem
traumas: eles compram lanche no supermercado, lancham no espaço coberto entre o
supermercado e a lavanderia, ficam “zoando” um tempo no condomínio, depois vão
embora, na boa. Ficar “amiga” da vizinha do episódio da briga de casal ,que
agora todos os dias me cumprimenta toda sorridente, saber a hora que sai o pão
quentinho na padaria do supermercado... Nada disso tem preço. Como disse minha
amiga Daniela Valla, “morar é sempre melhor do que turistar”. Estou gostando
muito de “morar” e não apenas “turistar”. Felipe entra de férias amanhã e
talvez “turistemos” um pouco por aí, se a tese dele deixar, mas, de qualquer
modo, este período de imersão na vida local e este “cotidiano de mãe”
entremeado por umas voltinhas por perto muita leitura e minhas pequenas
corridas na pista em volta do supermercado (dez voltas intercalando andar e
correr é o que meu fôlego garante) está ótimo, a-do-ro.
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