domingo, 2 de março de 2014

A crônica da velhinha assustada (ou: ainda existe amor entre vizinhos no hemisfério norte)

Escrito em janeiro de 2014.

Ato I- (permitam-me a “licença literária” em dividir esta “crônica” em “atos”)
O que uma mãe enxerida faz quando chega à casa de um filho? Xeretar a cozinha, lógico! Está impresso no DNA da perpetuação da espécie saber como o filho se alimenta, especialmente longe dos olhos zelosos da mãe.
A primeira coisa, portanto, que fiz ao chegar ao apartamento do Felipe em 24 de dezembro, noite de Natal, após umas 24 horas de viagem, voos cancelados atrasados etc, foi... investigar a cozinha, claro! Que mãe não faria?! Uma pessoa normal não faria, mas nenhuma mãe é normal. Nenhuma mãe, portanto, deixaria de “examinar”.
Nessa primeira incursão, um pouco discreta, mas nem tanto, ainda antes de trocar de roupa, constatei silenciosamente: nesta casa só há duas facas. E o pior: facas de mesa, sem qualquer utilidade culinária que possa dar vazão aos meus projetos de alimentação familiar para os 45 dias de estadia.
(Imagino o leitor se colocando no lugar do “pobre Felipe” nesta hora- nem atravessando o Oceano, fica livre da “cruz”).
Mal pude esperar o supermercado do condomínio abrir no dia 26 de dezembro e lá fui eu em busca de uma faca “decente”. A única que encontrei era uma monstruosidade com meio metro de gume e bem pontuda, uma arma letal e assustadora, tipo “Facas Ginsu” ou de filme de suspense.
Comprei, né? Fazer o quê? Já estava na hora de preparar o almoço, o carrinho quase cheio de ingredientes, e eu não iria deixar as compras em casa, caminhar uns dez minutos até o Centro da Cidade e ficar rodopiando de loja em loja em busca de uma faca mais adequada e menos assustadora. Levei aquela mesmo e tenho me dado muito bem com ela, afora um corte profundo no polegar no dia em que tentei cortar o lacre do frasco de azeite pelo lado oposto do gume, prontamente sanado com um band-aid e minha boa disposição orgânica para cicatrização. Coisas de mãe que passa o ano inteiro dando aulas e quando resolve cozinhar nas férias precisa se readaptar: uns cortezinhos, umas queimaduras, as impressões digitais “quase perdidas” de tanto lavar louça em água superquente etc. Nada demais para meus ímpetos culinários.
Ato II. A vizinha:
Felipe me havia dito, antes de minha viagem, que tem uma vizinha muito simpática, uma velhinha fofa, segundo ele, que sempre aparece na janela e dá “tchauzinho”, sorri.
Imagino que ela já estivesse curiosíssima para saber quem é esta nova moradora ou hóspede que se “aboletou” na casa do vizinho dela desde o Natal, mas a comunicação é só por olhares e acenos, visto que ela mora em outro condomínio e da janela do Felipe vemos apenas os fundos de sua casa, cuja frente dá para a outra rua, com um muro no meio, separando esta relação de vizinhança. (ver fotos em seguida). Ela fala com Felipe quando vem aos fundos da casa, na área de serviço e ele está na janela do apartamento. Mas percebo que ela olha bastante pela janela do segundo andar da casa, uma janela bem bonitinha, do tipo de conto de fadas, com uma cortinha de renda e babadinhos, que fica na mesma altura da janela do Felipe.
Hoje de manhã estava eu preparando o almoço e Felipe estudando, como de costume. Ele estuda em casa de manhã, almoça e vai para o Centro de Estudos da Universidade, onde fica até meia-noite.
Estava eu preparando o almoço, caladinha para não atrapalhar os estudos do mestrando dedicado em fase de entrega de trabalhos, munida de minha fiel companheira de cozinha, “a faca”, quando Felipe dá uma paradinha nos estudos, abre a janela para fumar (esse garoto não me ouve e continua fumando) e eu me aproximo, com meu peculiar jeito efusivo de falar, para contar-lhe minhas descobertas em pesquisa que fiz pela internet, muito curiosa para saber por que as endívias, tão caras e raras no Brasil, aqui são tão baratas e abundantes, praticamente alfaces (isto eu conto depois).
Bom, dirigi-me ao Felipe, que estava fumando na janela,bem do “meu jeito discreto de ser”, gesticulando  com a faca na mão, toda entusiasmada com minhas descobertas sobre a engenharia genética rudimentar  de um horticultor belga no pós-guerra que “inventou” a endívia como uma mutação da chicória... E começo a falar sobre as diferenças, semelhanças e relações de parentesco entre chicória (ou escarola) e endívias, gesticulando, gesticulando... e com a faca na mão... E o Felipe,  meio de  costas pra mim, meio de lado, não devia estar fazendo uma cara de muito interessado no assunto, talvez uma cara de tédio ou de “O que foi que eu fiz pra merecer isto?” E eu falando, falando, falando... com a faca na mão. Gesticulando, gesticulando, gesticulando... com a faca na mão.
Quando me dou conta, a velhinha estava olhando assustadíssima por trás de sua cortina branca rendada, toda fofa, aquela cena. Imagino o que lhe passou pela cabeça: “Tadinho do menino, tão bonzinho e estudioso!  Aquela loura louca se instala na casa dele e agora está querendo matá-lo com uma faca.”
Mostrei ao Felipe, entramos e caímos na risada.                    
Mas eu fiquei meio preocupada. Felipe tem o hábito de não dar satisfação a ninguém, mas eu tenho a péssima mania de me preocupar com a opinião alheia (além de ter ficado com  medo de que a velhinha chamasse a polícia para socorrer seu vizinho querido que lhe dava “tchauzinho’ pela janela e sorria todos os dias).
Na maior friagem, mais ou menos uns 3 graus, escancarei a janela e me instalei no parapeito, munida dela -a faca - com uma tigela de tomates, cebolas, pimentões, alhos, para deixar BEM CLARO que o uso da faca é meramente culinário e movido pelo mais puro amor materno. E vejo a silhueta da velhinha por trás das rendas da cortina, olhando, olhando, olhando.
Ato IV. Almoço já preparado, abro novamente a janela para dar uma espiada no tempo lá fora e “sentir um friozinho” para me refrescar do fogão. Eis que um velhinho, supostamente o marido da velhinha, está de plantão nos fundos da casa, olhando para nossa janela. Ele puxa conversa comigo; Sim, juro, ele puxa conversa. Pergunta (só depois eu entendi porque inicialmente ele fala na língua difícil daqui, uma variação do holandês, então falei uma frase em inglês e começamos a “conversar” com toda a minha fluência e com todo o sotaque do velhinho). Ele pergunta se eu abri a janela para fumar porque está muito frio, que ele está no quintal para fumar (mentira, ele estava era espiando, não havia nenhum cigarro em suas mãos). Eu respondi exatamente aquilo que eles queriam saber: “Não, eu não fumo, meu filho (apontando para a mesa onde estava Felipe) é que fuma.E “sublinhava” bem, repetia “meu filho” (my son, my son, my son). Daí, a velhinha se desentoca e entra na conversa. Começa a me perguntar coisas. Eu, além de não entender direito,  não conseguia ouvir, então tentava fazer leitura labial e ia respondendo aquilo que “eu acho” que ela queria saber: “Sou a mãe do Felipe, estou passando minhas férias com ele.” E frisava bem “ele é meu filho, estou aqui de férias!!!!”
 Ela sorriu aliviada e me perguntou. “De onde vocês são?” Respondi : “Do Brasil.”
Os dois escancararam sorrisos, ficamos íntimos: “Oh, Brasil, ótimo! Nosso vizinho duas casas depois também é do Brasil”. E apontaram na direção da casa do outro vizinho brasileiro.
Nos despedimos sorridentes, pedi licença, fechei a janela e entrei, mais aliviada.

 E os dois velhinhos, certamente também, muito mais aliviados por saberem que não há nenhuma “louca da faca” no condomínio ao lado.
Acho até que depois vou dar uma voltinha na outra rua para ver a frente da casa dos velhinhos, (quem sabe se eles não estão no portão?) e a casa dos brasileiros. Ah, esqueci que com este frio as pessoas não ficam no portão.
Conclusão: Férias assim não têm preço.  Esta imersão no cotidiano local, travar “relações de vizinhança”, ficar conhecida da velhinha que “toma conta” do Felipe,  da moça da igreja, do moço do açougue, das operadoras caixas do supermercado, da meninada que fica lanchando nas escadas da portaria do condomínio na hora que vou treinar minha corrida e depois larga as caixinhas de suco e pacotes de batatas fritas espalhados, da garotada com aparência “menos favorecida”  de uma escola próxima (imagino que seja da escola próxima) que vem dar um rolezinho no supermercado - sim, aqui também tem rolezinho, como é natural em todos os lugares onde há adolescentes, sem traumas: eles compram lanche no supermercado, lancham no espaço coberto entre o supermercado e a lavanderia, ficam “zoando” um tempo no condomínio, depois vão embora, na boa. Ficar “amiga” da vizinha do episódio da briga de casal ,que agora todos os dias me cumprimenta toda sorridente, saber a hora que sai o pão quentinho na padaria do supermercado... Nada disso tem preço. Como disse minha amiga Daniela Valla, “morar é sempre melhor do que turistar”. Estou gostando muito de “morar” e não apenas “turistar”. Felipe entra de férias amanhã e talvez “turistemos” um pouco por aí, se a tese dele deixar, mas, de qualquer modo, este período de imersão na vida local e este “cotidiano de mãe” entremeado por umas voltinhas por perto muita leitura e minhas pequenas corridas na pista em volta do supermercado (dez voltas intercalando andar e correr é o que meu fôlego garante) está ótimo, a-do-ro.

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