domingo, 2 de março de 2014

Cheiro de alho fritando

No fim, o que conta é o cheiro de alho fritando.
Escrito em janeiro de 2014, na casa do meu filho, enquanto faço o almoço.
Alho fritando na panela... Existe algum cheiro mais “carinhoso”, mais arquetípico? Que nos transporte ao mais íntimo em nós? Existe algum cheiro que evoque mais o carinho, a proteção, o amparo, o conforto?
Lá fora, um mundo.
Aqui dentro, o mundo. O mundo que importa, acima de tudo.
Lá fora, universos, cargos, títulos, glórias, deslealdades, traições, desafios, grandes conquistas, grandes perdas, protocolos, máscaras, etiquetas, hierarquias, desrespeito, agressão, competição, “cascas de banana” estrategicamente colocadas em nosso caminho, vitórias, concursos, livros, curruculum vitae, contas , orçamentos, política, aplausos, indiferença, inveja, admiração, veneno, bajulação, reprovação, aprovação, injustiças, ingratidão, decepção, informação, fugacidade, o mundo de fora.
“Vi o mundo de eis que digo: Tudo é Vaidade e Vento que passa.”[1]
Cá dentro, o eu verdadeiro, despojamento, incondicionalidade, gratuidade, generosidade, amizade, amor, nome sem sobrenome, simplicidade, simploriedade, apelido,  lavanderia, pia de louça, cheiro de alho fritando na panela...
Vi o mundo e eis que digo: no fim das contas, o que conta é o cheiro de alho fritando na panela...




[1] Eclesiastes.

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