domingo, 2 de março de 2014

Em caso de violência contra a mulher

Em caso de violência contra a mulher, ligue para a polícia.
Escrito em janeiro de 2014
Poderia ser fácil assim... mas não é. Esta receita poderia resolver todos os problemas de consciência, uma forma de “lavar as mãos”, mas com a consciência leve, agenda politicamente correta cumprida, tudo de acordo com os conselhos difundidos na mídia.
Manhã de janeiro, estou sozinha no apartamento do meu filho, em uma cidadezinha próxima a Bruxelas. Prédio vazio. Quase todos os moradores dos cerca de 15 apartamentos, passam todo o dia e boa parte da noite fora. A maioria estudantes. Alguns trabalham.
Sempre há silêncio.      
Fico aqui nas minhas ocupações de mãe-de-férias-visitando-o-filho, cuidando da casa, lendo, escrevendo, indo ao mercado, lavanderia, saindo para uma caminhada...
Estou preparando o almoço e começo a ouvir barulhos estranhos.
Muito barulho, bate-boca, quebra-quebra. Tanto barulho, que ora parecia vir do andar de cima, ora parecia vir do mesmo andar. Agora estou me dando conta de que não há andar de cima. Há só dois andares e estou no segundo. Mas naquele momento era esta a minha sensação.
E o barulho vai aumentando, intensificando, bate-porta, correria, bate-porta novamente.
Gritos.
Mais gritos.
Verifico a chave na porta. Seria algum tipo de “arrastão” no prédio e vários apartamentos estariam sendo invadidos?
Penso em ligar para meu filho para perguntar se isto é “comum”. Fora de área.
Medo.
Mais medo. Me encolho.
E o barulho aumenta, barulho de objetos quebrados, socos em portas, chutes, coisas assim.
E gritos. Muitos gritos.
Percebo que é no apartamento da frente, porta a porta.
O que sei sobre os moradores? Um casal, ela muito jovem, traços asiáticos. Não mais do que vinte anos.Ele, um pouco mais velho,talvez uns 30 anos,  traços europeus.
Parece alemão, ou mesmo belga. Penso em alemão porque quase todos os moradores do prédio são estudantes que vem de outros países para esta cidade, que gira em torno da atividade universitária.
Ela , aparência frágil, franzina, pequena. Ele, forte, musculoso,grande.
O que mais sei? Não têm o hábito de colocar o lixo reciclável na lixeira apropriada, deixando-o muitas vezes em uma caixa  no corredor, para meu estranhamento. Coisa de jovem? De prédio “de estudantes”?  Muita embalagem de pizza. Comem muita pizza. Como qualquer jovem longe da casa da mãe. Como qualquer jovem “auto-exilado” em busca de uma situação melhor na vida, em tempos de desemprego e da busca frenética pelo “melhor diploma”, obtido na “melhor universidade do mundo na área”, na esperança de finalmente, um dia, encontrar seu “lugar ao sol”, seu lugar no mundo.Seu lugar no mundo do trabalho. E no mundo dos adultos. São milhões de jovens atirados no mundo a cada dia. Saindo direto das fraldas para outro continente.
E assim me parece a menina: signo de fragilidade e desamparo.
Aquelas caixas de pizza.
Pizza pronta é o que há de mais barato no mercado local, e que pode enganar o estômago. Pizza congelada de 1 Euro pra enfrentar o perrengue. Será que têm bolsas? Será que o dinheiro que a família manda é suficiente pra se alimentar?
E mais barulho. Gritaria.
Começo a decodificar o acontecimento: briga de casal.
Briga de casal?
Briga de casal.
Você cresceu ouvindo que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Depois, eles fazem as pazes e vc é que fica mal. Melhor não se intrometer. Se ela está com ele é porque gosta. Simples assim.
Depois, sua geração absorveu um conceito de cidadania que diz : Não se omita, ligue para a polícia. Não lave as mãos frente à violência contra a mulher. Ligue anonimamente  190 e seus problemas acabaram.Sua consciência ficará levinha como algodão-doce e vc se sentirá no mais perfeito estado do exercício de sua cidadania. Uma pessoa legal, do bem, e engajada nas causas sociais mais nobres.
Olhe que bacana: basta dar um telefonema anônimo e eu recebo a medalha simbólica de honra ao mérito-cidadão.
Legal, mas esqueceram de combinar isto com a diversidade de contextos que cercam as situações de violência, sua complexidade, suas implicações e consequências, das limitações do “anonimato” etc.
E a menina começa a gritar, como quem está apanhando, sendo esganada, como quem pede socorro.
Mas se eu ligar para a polícia, o alemão agressor vai saber que fui eu. O prédio está vazio. Eu estou com música ligada desde cedo, fazendo barulho de lavar louças, cozinhar. Saberão que a ligação partiu de mim. Poderão pensar que estou ligando para denunciar o barulho que está me incomodando? Ambos ficarão contra mim. E se não, se entenderem que estou denunciando a agressão contra a menina? Que consequências poderei sofrer? E depois que eu for embora , no final das férias, o que esse alemão poderá fazer contra meu filho, morando sozinho no apartamento de frente a ele?
Minha cabeça gira, meu medo se mistura com a indignação e com um enorme sentimento materno, humano, cristão, tudo junto.
E se fosse minha filha?
Onde está a mãe dessa menina?
Que preocupações ela tem com a filha estudando longe de seu país?
O que essa mãe sabe sobre o que vive a filha, além das informações rotineiras sobre a universidade, as notas, os trabalhos?
E se meu filho, com quem vivo preocupada, lá bem distante, a ponto de vir passar TODOS os dias de minhas férias com ele para “uma observação longa e aprofundada no campo”, fosse mulher? Vim aqui passar 40 dias em busca de alguma certeza de como ele está, de como vive, como se sente. As ligações telefônicas são insuficientes, os bate-papos pela web tb. Precisei vir pessoalmente, “dar um confere”, “viver” um tempo a vida que ele vive, seu cotidiano, para sentir o que ele sente. (claro que isto é uma tola ilusão materna, sei disso).
E se meu filho fosse uma menina, exposta a mais riscos do que ele, na condição de homem? Que preocupações eu teria, além das que já me atormentam?
Segundos foram suficientes para que tudo isto atravessasse meus pensamentos, que eu me transportasse não para o lugar da menina que estava apanhando, mas de sua imaginária mãe.
Não é prudente ligar para a policia. Estou em um pais estranho, não conheço as leis, não sei como é tratado o crime de violência doméstica contra a mulher.
Mas , como poderei ficar quieta? Indiferente? A menina está gritando. E se daqui a pouco vier o silêncio? E se daqui a pouco a polícia vier retirar um corpo inerte da frente da nossa porta? Como ficará minha consciência?
Como eu poderei ter paz algum dia na vida?
“Como receberás o sol no outro dia, a cada manhã, verá sua imagem, ate´que consoles o Meu coração. Onde está  o seu irmão?” “Olha, Sou Eu. Se ele sofre, sou Eu. Falam de mim, pois seu rosto é o Meu.”
Esta canção, gravada por Padre Fábio de Melo, não me saía da cabeça. “Braços fortes te dei , pra levantá-lo, meu amor eu te dei pra aliviar a dor”.... E na canção, o criador cobra:”Onde andará aquele que concebi, confiei aos cuidados seus e hoje não está aqui?”.
Naquele momento, senti que aquela menina estava “entregue aos cuidados meus”.Eu sou a única “adulta” do prédio, considerando minha condição de mãe de morador em um prédio cujos apartamentos são alugados quase na totalidade por jovens estudantes. Estou presente no momento da agressão. Ouço a menina gritar.
Seria hipocrisia me omitir. Eu havia acabado de assistir na webtv uma palestra do padre Fábio de Melo e a havia compartilhado na minha rede social. A palestra falava na coragem de ser cristão. Da coragem de tomar decisões. Pequenas decisões, inclusive.
“Como receberás o sol no outro dia, a luz te lembrará o semblante dele (dela). A cada manhã, verás sua imagem, até que consoles o Meu coração. Onde está o seu irmão?”
A canção continua martelando minha consciência.
Dividida: medo, desconhecimento da realidade legal do país, e uma consciência humana que grita : esta menina podia ser minha filha! Eu vim aqui pra “checar in locu” como está meu filho. Posso tirar 40 dias para ficar com ele. Por quarenta dias ele não está se alimentando de pizza congelada e chá pronto, mas de “comida de mãe”. E a mãe dela? Onde andará? Terá desejo de vir aqui? Terá condições?
Decido. Escrevo um bilhete, vou bater na porta e entregá-lo. Escrevo em inglês, a língua universal nesta cidade onde até os cursos na universidade são ministrados nesta língua, que não é a local. “Oi!Você precisa de ajuda? Posso fazer alguma coisa por você? Sou a mãe do morador do 204 e estou passando as férias aqui com ele. Conte comigo, se precisar.Desculpe-me, estou apenas tentando ajudar.”
Ao abrir a porta para entregar o bilhete, vejo que o casal abre também ao mesmo tempo. O alemão sai. Logo em seguida, a menina. Machucada. Desgrenhada. Ferida no corpo e na alma, visivelmente.  Entrego o bilhete a ela. Digo “desculpe, eu só abri a porta para tentar te ajudar”. Ela lê o bilhete, olha pra mim, agradece, agradece de novo. E sai correndo atrás do cara. Não sei se tentando manter o relacionamento ou se tentando reaver algum pertence levado por ele, ela simplesmente sai correndo e gritando o nome dele. As vozes vão desaparecendo e o silêncio retorna ao prédio. O mesmo silêncio que tem sido meu companheiro, cúmplice de minhas leituras e escritas, torna-se inquietante.
Sinto angústia. Necessidade de falar.
Um sentimento de “dever cumprido” e ,ao mesmo tempo, um enorme desconforto, dor, tristeza, indignação, preocupação. Sofrimento.
Faço uma postagem na rede social. Fazem parte de minha rede, intelectuais colegas de profissão, familiares, amigos de bairro e de infância. É um perfil muito movimentado. Sempre que posto alguma foto da viagem, muitos “likes”.
Bom, vamos ver o que meus amigos pensam sobre tudo isto. O que têm a me dizer. As duas primeiras postagens são machistas: eu estou me intrometendo na vida alheia,  eu estou fazendo fofoca internacional , para eu procurar alguma coisa para fazer em vez de me meter na vida alheia, etc... de dois homens. Em tom jocoso. Transformei-me em um minuto de ser humano preocupado com a integridade de uma VIDA, em uma mera fofoqueira preocupada com a vida alheia. Como se minha atitude fosse “coisa de mulher fuxiqueira, se meter em briga de casal”.
Mulheres em silêncio.
Logo em seguida, outro homem, um intelectual bem conceituado e reconhecido nacionalmente, diz  que continua aguardando notícias do “Diário Europeu”.
Me sinto OFENDIDA por ele, não esperava esta atitude de um “colega de profissão”, um educador por ofício. Minha postagem, então, era simplesmente um diário de viagem, ou diário de notícias locais? O assunto era uma banalidade? E observem que esta pessoa nem estava recebendo minhas postagens cotidianas da viagem, visto que as configurei somente para os mais próximos. Mas esta postagem eu coloquei em aberto, para todos, exatamente por não considerar uma “questão pessoal”.
Não havia me sentido ofendida com os comentários jocosos e/ou machistas anteriores, por virem de pessoas íntimas, cuja intenção era me “provocar” mesmo, por brincadeira, do mesmo modo com fizeram um dia antes quando posei com a camisa de outro clube que não o meu. Só escrevi em resposta, pedindo que “Nossa Senhora Desatadora de Machismos” rogasse por nós.
Mas olhar esta reação de parte de alguém com quem tenho relações profissionais, me ofendeu realmente. Mas me expus a isto, quando postei o assunto para todos,considerando que a postagem tem um caráter sociológico, não é meramente um desabafo íntimo. Trata-se de um tema que – deveria- constar na pauta de preocupações dos educadores de modo mais sério do que me pareceu o tratamento dado pelo colega. Talvez a palavra  não seja “ofensa”, mas “decepção”. (Preciso aprender a distinguir melhor as duas, disto depende grande parte das habilidades sociais que desejo desenvolver. Preciso aprender a deixar nas mãos do outro o que é do outro- no caso e em geral, as atitudes impróprias- não me ofender e, portanto, não precisar me defender).
Como tenho por resolução de ano-novo não mais reagir explicitamente a ofensas, não mais fazer papel de porco-espinho [1]fiquei calada.
Mulheres começam a se manifestar: em 24 horas somente 4 ou 5  mulheres, além dos 3 homens com uma interpretação machista ou jocosa, já mencionados,  e outro homem, um ex-aluno de doutorado, com uma reflexão muito apropriada, a meu ver. Ele havia postado dias antes uma mensagem de indignação com o crescimento da violência contra a mulher.
Cadê todo mundo?
A reação inicial das pessoas foi como de repreensão ou “alerta”: vc devia ter ligado para a polícia e ponto. Vc se arriscou . Não devia ter intervindo diretamente. Cuidado.
Fui contra-argumentando e algumas pessoas foram concordando sobre os riscos de ligar para a polícia , dada a especificidade do contexto.
Uma amiga destacou muito bem, em minha opinião,  os sintomas de dependência emocional da “mulher que apanha e ainda vai correndo atrás do agressor” . Fato! Precisamos ir além do lugar-comum de achar que é fácil se livrar do agressor - basta querer- e tentar compreender toda a complexa teia de construção da dependência ou da co-dependência psicológica/afetiva/emocional.
Outra amiga lembra os casos de dependência ligadas à imigração, visto etc.  Vivenciei a dificuldade de obtenção do visto por meu filho, mesmo com a carta de aprovação e aceitação no Mestrado.Uma tortura que durou meses, quase o levou à perda do prazo de matrícula no curso. Efeitos do desemprego na Europa. Portas fechadas para estrangeiros. Conforme o ditado popular, “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esta tem sido a política de negação de vistos dos países da União Europeia.
Outras  mulheres,  ainda, apoiaram minha decisão, reconhecendo o peso que ficaria em minha consciência se me omitisse.
À noite fui caminhar.
Noite linda, céu estrelado, apesar de estarmos em pleno inverno europeu. Nem fazia muito frio.
(Enquanto escrevo, exatamente 24 horas após o acontecimento, ouço, neste momento, barulho no apartamento da frente. Porta se abrindo e fechando bruscamente, após 24 horas de silêncio. Desconheço completamente o que aconteceu neste interstício. Desde que a menina me agradeceu e saiu correndo atrás de seu agressor, silêncio total)
Voltando à reflexão que fazia durante a caminhada.
Cultura de “soluções fáceis” e muita hipocrisia. Continuamos achando que o problema é do outro e que precisamos manter uma distância segura. Não nos comprometemos de fato com o outro. Entretanto, precisamos aparentar compromisso, engajamento. Mas sempre “mantendo distância”. Aprendemos a (sobre)viver assim. A nos anestesiar assim. Aprendemos a ser impassíveis diante do sofrimento do outro, mas mantendo a pose de solidariedade. Se não for assim, o que acontece? Como sofrer com todos os sofredores do mundo? Como seguir em frente, a cada rosto doído que vemos nas ruas? Precisamos seguir em frente. Sempre, sem parar, sem tropeçar. “Go on, Go on, Go on”, exigem os letreiros da nossa agenda, da nossa cultura, muitas vezes dentro das religiões, dos movimentos sociais. Engajemo-nos, mas mantendo a área de segurança intacta. Nossa rotina intacta. Nossa produtividade intacta. Tudo o que o NOSSO, intacto. Damos somente aquilo que sobra, que não fará falta nem apresentará riscos. Sexo seguro, solidariedade segura, propriedades seguras, tudo assegurado (de preferência por uma boa corretora de seguros que nos proteja de qualquer mal) . Damos somente o nos que sobra de tempo, de segurança, de amor, aquilo que não faz falta nem faz diferença. Primeiro nós, os NOSSOS, depois os outros. “Os outros são os outros e só”, como diz a canção gravada por Paula Toller[2]. Ou “ O inferno são os outros”, como disse Sartre[3].
Os depressivos, os deprimidos, os distímicos desta sociedade talvez tenham tentado  não ser assim.Não construíram a camada protetora da invisibilidade do outro. São destituídos da capacidade de naturalizar o sofrimento próprio e o alheio. E sofrem. Sofrem muito. Angústia. O sofrimento gera alterações químicas que por sua vez , geram mais sofrimento. E seus neurônios espalham a serotonina por onde não deveriam e ela não circula por onde deve, daí vem a indústria farmacêutica e os salva com um antidepressivo inibidor da recaptação de serotonina (IRS). Que bom quando encontram alívio em um IRS, pois muitos, desconhecendo a origem e natureza do próprio mal, ou por preconceito contra medicação,  não suportando a dor de viver assim, num mundo de sofrimento e sua impotência diante disto, põem um fim à própria vida.
Excesso de empatia= deprimido.
Ausência de empatia= psicopata.
Que saída? Que saídas?
Espiritualidade, arte, medicação, uma tela em branco pra escrever, catarses outras, psicoterapia?  Um pouco de cada? Um muito de cada?
Continuo caminhando e refletindo. Me conheço. Sei que se não tivesse escrito o bilhete, se não tivesse me colocado à disposição da menina, e, na hipótese de ela vir a ser assassinada, eu jamais me recuperaria. Passaria o resto da minha vida com a canção martelando minha cabeça: “Onde está o seu irmão?”.
Percebo que também optei pelo caminho mais seguro. Para mim. O único possível, que me protegesse do risco de cair em depressão mais uma vez. O de me colocar à disposição.
Não tenho nada a ver com essa menina, não sei quem ela é, como vive, o que faz, de onde vem, como é sua vida. Nem sua mãe, um personagem imaginário para mim.  Seria fácil lamentar o fato, sentir indignação pelo agressor, (ouço de novo, neste momento, a porta bater bruscamente- será que eles só conseguem abrir e fechar a porta assim?), talvez me escandalizar por testemunhar ato tão “selvagem”, me “chocar”, caso ocorresse uma tragédia e o prédio se transformasse em cenário de seriado policial americano  e simplesmente “seguir em frente”.
Não consigo.
Não sou assim.
Caminhei um pouco mais. Cheguei de volta ao apartamento e caí pesada na cama. Dormi com o corpo pesado, tenso, assustado... Mas com a consciência leve. Não tive pesadelos esta noite, como costumo ter.




[1] Trato deste assunto em outra crônica.
[2] Paula Toller
[3] Sartre

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