segunda-feira, 3 de março de 2014

Uma noite em um outubro remoto

Escrito em outubro de 2012
Flocos de/da alma nos constituem há tanto tempo, que nem mais sabemos dizer se estiveram sempre ali ou se foram chegando pouco a pouco, a cada dor engolida, a cada medo enfrentado, a cada remorso acomodado, a cada decepção redundante.
Onde se acha una vacina que previna decepção redundante? 
A cada acometimento, essa enfermidade parece mais vigorosa, ao contrário do que deveria ser, se aprendêssemos, por ensaio e erro, a preveni-la (ao menos as maiores).
 Mas qual: a cada novo acometimento é a dor primeira. 
A dor e a vergonha da própria ingenuidade, da ingenuidade de se deixar iludir mais uma vez com o falso bem.
Vergonha, como se "ser grande" significasse ser malicioso e prever o desvio, ainda quando o olho pode vislumbrar somente linhas retas.
"O mundo é dos desleais mesmo, você devia saber".
Que natureza sustenta esses flocos?
Que alternância química permite fibrosidade a uns e delicada etereidade a outros?
E como se complementam assim, o bruto e o etéreo, sendo duplo e uno, mas sempre uno?
Sonho ser só fibra, uma alma tecida em fibra resistente. Dessas que não se lhes permeiam chuvas, ventos, frio, nada se lhes atravessa.
Fortes!
Sempre prontas para resolver tudo, para seguir em frente e para anunciar: reaja, seja forte, a vida continua, a vida continua, a vida continua, o show não pode parar. Não perca a próxima festa!
Onde compraram essa fibra, que não veio no meu pacote?
Como a implantaram?
Ou, pior, será que já nasceram assim?
Teria eu alguma falha genética?
Ou você é um ser de aço, mesmo frente às dores mais injustas, um ciborgue emocional, ou é uma "maria-mole", condenada a não se aprumar no tempo médio esperado para esta operação.
O que é aprumar-se, se os flocos estão encharcados e mal se acomodam enroladinhos, disformes, desorganizados?
Qual o prazo aceito para sofrer uma perda?
Que incidente é esse -  numa multidão de contentes - que desorganiza a euforia, a ponto de  o sofrer de uma pessoa descaber no conjunto?
Desorganiza não apenas porque o conjunto receie perder o ritmo de seu eterno carnaval por precisar solidarizar-se se um folião. tirar a máscara por um tempo e mostrar um rosto marcado por lágrimas insones.
É esse conviver com o outro sem a máscara, ali, mostrando que lhe dóem os flocos de alma, o que desestrutura a folia e dilui a tese do hedonismo absoluto.
Ah, me deixa.


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