Leuven,
Bélgica, 6 de janeiro de 2013.
Uma turista não-convencional
Um
mês e meio de férias na Europa. Já cumpri a agenda de turista convencional,
passando uma semana em Paris. Disso eu falo depois.
Um
mês pela frente na casa do meu filho, as férias ideais, para escândalo das
pessoas normais, que consideram férias um frenesi de sassarico pra lá e pra cá,
com uma contabilidade no final:
-Ah,
nessas férias, fui a 15 países 39 cidades, conheci a Europa inteira.
Sou
uma turista esquisita. Prefiro mergulhar no cotidiano, no modo de viver dos
moradores de uma cidadezinha pequena.
Em
geral, não gosto de viajar. Já me bastam as viagens de trabalho, que são
muitas. Assim, meu prazer maior nas férias é fazer o que não faço o ano
inteiro: ficar em casa, ler livros que não consigo ler durante o ano todo,
ficar no meu canto. Da mesma forma, nos feriados prolongados. Nada como o sossego
do lar. Já vejo gente demais o ano inteiro, já tenho atividades demais, então
minha ambição para as férias é sempre a mesma: agenda-zero. Nada de aeroportos,
nada de estradas engarrafadas. Lar, doce lar.
Este
ano, tive uma razão para viajar, que foi a mudança de meu filho. Não o via
desde março e decidi passar as férias na casa dele. “NA CASA DELE”, não
sassaricando pela Europa, pulando para acumular “curriculum turístico” e não
usufruir bem de nada. Mesmo porque, ele está estudando e não poderia me acompanhar,
então perderia o sentido de vir para ficar COM ELE.
Vim
para viver 40 dias de vida de mãe. Como disse acima, para escândalo de alguns.
(contabilizei ate´a perda de uma amizade por causa desta minha opção esquisita
de ficar dentro de casa vendo televisão, mas este é tema de outros escritos.
Na
primeira semana, mil sugestões, dicas, e até cobranças.
Resolvi assumir por inteiro minha esquisitice e ficar conhecida da caixa do supermercado, do atendente do açougue, da recepcionista da capelinha.
Resolvi assumir por inteiro minha esquisitice e ficar conhecida da caixa do supermercado, do atendente do açougue, da recepcionista da capelinha.
Gosto
disto. Viver como um morador do local. Ir ao supermercado, à feira, à igreja.
Leuven
é uma cidade muito agradável em todos os aspectos.
Em primeiro lugar , o prometido inverno
rigoroso ainda não chegou e o clima está agradável, próximo dos 2 dígitos. À
noite esfria e chove, mas durante o dia tem feito sol e a temperatura tem
ficado em torno de 10 graus.
O
céu, limpo, permite ver estrelas “de perto”. Olhar estrelas pela janela. Olhar
estrelas a caminho da igreja e na volta para casa. Reconhecer as constelações
da infância. Tento fotografá-las, mas minha câmera não possui os recursos e
fico na intenção, ou melhor, com quatro fotos inteiramente pretas a serem
apagadas.
Embora
a língua local seja a segunda língua da Bélgica, não o francês, mas o
neerlandês, flemish, holandês ou uma mistura de tudo isto, todos falam inglês.
Todos mesmo. E, ao contrário dos parisienses, gostam de facilitar a comunicação
com os visitantes. Demonstram uma certa simpatia e interesse em conversar,
apesar de meus parcos recursos comunicacionais para conversação em “inglês com
sotaque belga”.
A
cidade tem uma população flutuante de quase metade do conjunto de habitantes.
São os estudantes que vêm de todas as partes do mundo para a KU Leuven, Universidade
Católica de Leuven. É como se o núcleo central da cidade fosse uma extensão do
campus universitário. Muitos prédios abrigam atividades da enorme universidade.
Tem
traços e uma cidade medieval. Arquitetura de castelos no centro, rodeados por
vielas de paralelepípedos, estreitas e sinuosas, com arquitetura típica do
Medievo: construções em tijolinhos. É uma cidade com amplo horizonte. Da janela
do segundo andar, vê-se todo o panorama. Quase 100% dos prédios limitam,se a dois pavimentos. Destacam-se,
por isto, salvo exceções de dois ou 3 prédios de arquitetura contemporânea com
mais pavimentos, os castelos, cujas torres se avista a grande distância A
cidade vai se espalhando a partir do Centro
pelas estreitas e sinuosas ruas e o visitante vai realizando sua viagem
no túnel do tempo. Os castelos realmente eram bem protegidos. As ruas de acesso
ao Centro não facilitam o transito de invasores. Planos irregulares e linhas
sinuosas.
Além
da atividade universitária, a cidade é conhecida como capital mundial da
cerveja e abriga a fábrica matriz de uma marca. Por toda a cidade se vê a
logomarca da cerveja. Há, no Centro, a rua dos bares, como a Lapa Carioca, com
a diferença de que as datas informadas nas fachadas remontam ao século XIV.
Ainda
Centro, uma marca das cidades europeias: singelos carrosséis ocupam as
fantasias das crianças... E de muitos adultos, certamente. Onipresentes nas
praças de Leuven, Bruxelas, Paris, estão lá os seculares, singelos e românticos
carrosséis. E com as barrraquinhas de doces, maçã caramelada (também conhecida
como “maçã do amor”)
Este
cenário romântico, singelo, medieval convive com uma rua de comércio
sofisticado. Uma rua inteira de lojas de grandes marcas europeias, artigos de
luxo, as marcas das “fashion weeks” do mundo inteiro.
Então,
você vira a esquina e se depara novamente com o vendedor de maçã do amor e uma
taberna do século XIV.
Lado
a lado, séc XIV e séc XXI, é o que oferece Leuven ao visitante.
Na
feira de hortifruti, destacam-se aos meus olhos, um produto local: os cogumelos
frescos de uso culinário. Gigantescos, a menina dos olhos de todo chef em
gastronomia. E as endívias? Ah, as endívias. Tão caras nos supermercados
brasileiros, destinada a receitas mais sofisticadas, aqui custam poucos
centavos. Quarenta dias com gastronomia caseira à base de salada de endívias e
molho “ao funghi” para acompanhar “tudo”. Quarenta dias de sossego. Quarenta dias de
férias. Quarenta singelos dias de vida-de-mãe. Quarenta dias vivendo como se
fosse não uma turista, porque isto não me atrai em nada, mas como se fosse uma
moradora daqui.
Vou
voltar das férias “recuperada” e não com aquela sensação de que preciso de
“outras férias” para me recuperar do frenesi exaustivo da viagem de férias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário