domingo, 2 de março de 2014

Uma turista não-convencional

Leuven, Bélgica, 6 de janeiro de 2013.
Uma turista não-convencional      

Um mês e meio de férias na Europa. Já cumpri a agenda de turista convencional, passando uma semana em Paris. Disso eu falo depois.
Um mês pela frente na casa do meu filho, as férias ideais, para escândalo das pessoas normais, que consideram férias um frenesi de sassarico pra lá e pra cá, com uma contabilidade no final:
-Ah, nessas férias, fui a 15 países 39 cidades, conheci a Europa inteira.
Sou uma turista esquisita. Prefiro mergulhar no cotidiano, no modo de viver dos moradores de uma cidadezinha pequena.
Em geral, não gosto de viajar. Já me bastam as viagens de trabalho, que são muitas. Assim, meu prazer maior nas férias é fazer o que não faço o ano inteiro: ficar em casa, ler livros que não consigo ler durante o ano todo, ficar no meu canto. Da mesma forma, nos feriados prolongados. Nada como o sossego do lar. Já vejo gente demais o ano inteiro, já tenho atividades demais, então minha ambição para as férias é sempre a mesma: agenda-zero. Nada de aeroportos, nada de estradas engarrafadas. Lar, doce lar.
Este ano, tive uma razão para viajar, que foi a mudança de meu filho. Não o via desde março e decidi passar as férias na casa dele. “NA CASA DELE”, não sassaricando pela Europa, pulando para acumular “curriculum turístico” e não usufruir bem de nada. Mesmo porque, ele está estudando e não poderia me acompanhar, então perderia o sentido de vir para ficar COM ELE.
Vim para viver 40 dias de vida de mãe. Como disse acima, para escândalo de alguns. (contabilizei ate´a perda de uma amizade por causa desta minha opção esquisita de ficar dentro de casa vendo televisão, mas este é tema de outros escritos.
Na primeira semana, mil sugestões, dicas, e até cobranças.
Resolvi assumir por inteiro minha esquisitice e ficar conhecida da caixa do supermercado, do atendente do açougue, da recepcionista da capelinha.
Gosto disto. Viver como um morador do local. Ir ao supermercado, à feira, à igreja.
Leuven é uma cidade muito agradável em todos os aspectos.
 Em primeiro lugar , o prometido inverno rigoroso ainda não chegou e o clima está agradável, próximo dos 2 dígitos. À noite esfria e chove, mas durante o dia tem feito sol e a temperatura tem ficado em torno de 10 graus.
O céu, limpo, permite ver estrelas “de perto”. Olhar estrelas pela janela. Olhar estrelas a caminho da igreja e na volta para casa. Reconhecer as constelações da infância. Tento fotografá-las, mas minha câmera não possui os recursos e fico na intenção, ou melhor, com quatro fotos inteiramente pretas a serem apagadas.
Embora a língua local seja a segunda língua da Bélgica, não o francês, mas o neerlandês, flemish, holandês ou uma mistura de tudo isto, todos falam inglês. Todos mesmo. E, ao contrário dos parisienses, gostam de facilitar a comunicação com os visitantes. Demonstram uma certa simpatia e interesse em conversar, apesar de meus parcos recursos comunicacionais para conversação em “inglês com sotaque belga”.
A cidade tem uma população flutuante de quase metade do conjunto de habitantes. São os estudantes que vêm de todas as partes do mundo para a KU Leuven, Universidade Católica de Leuven. É como se o núcleo central da cidade fosse uma extensão do campus universitário. Muitos prédios abrigam atividades da enorme universidade.
Tem traços e uma cidade medieval. Arquitetura de castelos no centro, rodeados por vielas de paralelepípedos, estreitas e sinuosas, com arquitetura típica do Medievo: construções em tijolinhos. É uma cidade com amplo horizonte. Da janela do segundo andar, vê-se todo o panorama. Quase 100% dos prédios  limitam,se a dois pavimentos. Destacam-se, por isto, salvo exceções de dois ou 3 prédios de arquitetura contemporânea com mais pavimentos, os castelos, cujas torres se avista a grande distância A cidade vai se espalhando a partir do Centro  pelas estreitas e sinuosas ruas e o visitante vai realizando sua viagem no túnel do tempo. Os castelos realmente eram bem protegidos. As ruas de acesso ao Centro não facilitam o transito de invasores. Planos irregulares e linhas sinuosas.
Além da atividade universitária, a cidade é conhecida como capital mundial da cerveja e abriga a fábrica matriz de uma marca. Por toda a cidade se vê a logomarca da cerveja. Há, no Centro, a rua dos bares, como a Lapa Carioca, com a diferença de que as datas informadas nas fachadas remontam ao século XIV.
Ainda Centro, uma marca das cidades europeias: singelos carrosséis ocupam as fantasias das crianças... E de muitos adultos, certamente. Onipresentes nas praças de Leuven, Bruxelas, Paris, estão lá os seculares, singelos e românticos carrosséis. E com as barrraquinhas de doces, maçã caramelada (também conhecida como “maçã do amor”)
Este cenário romântico, singelo, medieval convive com uma rua de comércio sofisticado. Uma rua inteira de lojas de grandes marcas europeias, artigos de luxo, as marcas das “fashion weeks” do mundo inteiro.
Então, você vira a esquina e se depara  novamente com o vendedor de maçã do amor e uma taberna do século XIV.
Lado a lado, séc XIV e séc XXI, é o que oferece Leuven ao visitante.
Na feira de hortifruti, destacam-se aos meus olhos, um produto local: os cogumelos frescos de uso culinário. Gigantescos, a menina dos olhos de todo chef em gastronomia. E as endívias? Ah, as endívias. Tão caras nos supermercados brasileiros, destinada a receitas mais sofisticadas, aqui custam poucos centavos. Quarenta dias com gastronomia caseira à base de salada de endívias e molho “ao funghi” para acompanhar “tudo”.  Quarenta dias de sossego. Quarenta dias de férias. Quarenta singelos dias de vida-de-mãe. Quarenta dias vivendo como se fosse não uma turista, porque isto não me atrai em nada, mas como se fosse uma moradora daqui.
Vou voltar das férias “recuperada” e não com aquela sensação de que preciso de “outras férias” para me recuperar do frenesi exaustivo da viagem de férias.


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