domingo, 2 de março de 2014

"Saudade, palavra triste..." Lembrando "Vovô Paião"

Escrito em março de 2014

Uma aluna postou hoje que perdeu o avô. Lembrei-me de quando meu avô partiu, há vinte anos. Meu avô Paulino ficou viúvo aos 36 anos de idade e passou a vida na esperança de reencontrar minha avó no Céu.Nunca mais se casou.
Eu era a neta mais velha e Felipe, seu primeiro bisneto, a quem ele gostava de levar e buscar na escola , entregando-o nas mãos da professora Regina. Ele não deixava Felipe no portão da escola, mas ia até à porta da sala de aula e fazia suas recomendações.
Esperou filho Felipe completar 10 anos, chamou-o para uma conversa e disse:
-Felipe, se eu morrer, vc não fica triste não, tá? Já estou velho, já vivi muito e preciso encontrar sua bisavó Iracema. 
Esta conversa, embaixo da jabuticabeira da casa dos meus pais, me foi relatada por Felipe, logo após a morte do "vovô Paião" (Paulino, Paulinão para os familiares, "Paião" para Felipe). Havia acontecido poucas semanas antes do dia em que vovô partiu, no comecinho da primavera de 1994.
Ele esperou Felipe comemorar o aniversário de 10 anos em agosto, fez uma viagem com minha mãe para sua terra, no interior, visitou todos os familiares e no dia de embarcar de volta sofreu um infarto. Mas teve paciência para nos esperar lúcido no hospital na cidade de Itaperuna. Eu e Felipe entramos na UTI e fomos as últimas pessoas com quem ele falou, antes de perder a fala. Estava apenas nos esperando.
Vovô foi o amor em pessoa. Ele tinha uma metodologia pedagógica peculiar: sempre que ia aconselhar, repreender ou encorajar a um de nós, o fazia citando versículos de São Paulo.
E gostava muito de cantarolar.
Uma das primeiras músicas que me lembro de aprender foi esta, de tanto que ele cantava.
Lembro-me também da música "Beijinho doce", que ele cantava para mim. Havia uma nova boneca chamada "Beijinho Doce" e minha amiguinha a tinha, eu fiquei louca pela boneca. Ele foi perguntar ao avô da menina onde ele havia comprado a boneca. E se orgulhava de relatar o diálogo.
- Onde vc comprou a boneca Beijinho Doce? A Aparecida está doida pra ter uma.
- Ah, é uma boneca muito cara, vc não vai ter dinheiro para comprar para a Aparecida;
-Olha aqui, seu velho dos infernos, vai "para as arrelampa", que eu não estou perguntando quanto foi nem te pedindo pra pagar. Fala logo onde comprou porque se sua neta tem, a minha vai ter também.
Ele adorava contar esta história e muitas outras.
Lembro-me do momento em que ganhei a boneca.
E hj , ao ler que minha aluna está triste por seu vozinho, lembrei do meu, desta música e estou postando em homenagem aos dois: ao meu avô Paulino, que quando ficava zangado mandava a pessoa ir para as "arrelampa", seja lá o que for, que cantarolava e nos ensinava com a sabedoria das cartas de Paulo - e ao avô da Thaís. Quem sabe se os dois não estão olhando por nós?
"Saudade, palavra triste quando se perde um grande amor, na estrada longa da vida eu vou chorando a minha dor..." 
Eu e Felipe vivemos juntos duas tristíssimas perdas: a do Vovô Paião e a do Luiz Cláudio.

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