Olhando o blog e pensando na curiosa dinâmica deste instrumento que continua a "existir sozinho", a ser visitado por leitores que nem sei.
Após o feriado de Carnaval, não tive tempo para atualizá-lo.
Não tive tempo para escrever.
Mas nunca escrevi tanto.
Escrever "a trabalho" ou escrever como autoexpressão?
Escrever "a trabalho" e como autoexpressão.
Basta?
Não!
Ideias "cutucam" frequentemente, são os floquinhos de alma em seu desejo de escapar para o mundo lá fora.
Falta tempo.
A rotina da volta ao trabalho.
As mil atribuições de trabalho.
Planos, mais uma vez, arquivados.
A lista de planos de virada de ano revisitada.
A bicicleta ergométrica novamente deslizando para a função de estante-cabide-armário, recebendo cada vez mais raras visitas, na proporção em que o semestre avança em intensidade e o calendário grita por agilidade.
Prazos. Artigos. Tarefas. Orientandos. Leituras obrigatórias.
Registros.
Cadastros.
Logins.
Senhas.
Boletos.
Mais longins.
Mais senhas.
Mais cadastros.
Mais senhas esquecidas.
Recadastros.
Último dia para enviar o texto para o congresso.
Último dia para enviar o parecer para a revista.
Último dia para requerer aquele financiamento para a pesquisa.
Daqui a pouco é o prazo para solicitar bolsista.
Prazos, prazos, prazos.
Deadlines, deadlines, deadlines.
Fim de linha.
Linha inoperante.
Fim de linha.
Linha da morte.
Linha de corte.
E a gente já se acostumou a nomear prazos como deadline, fim de linha, linha da morte.
Linhas da morte.
E a linha da vida na ´palma da minha mão?
Prazo para entregar trabalho. Linha da morte.
Mas trabalho não é vida?
Não é esta a nossa luta?
E a vida?
Paradoxo: Trabalho como objeto de trabalho.
Teoria do trabalho, no trabalho, como efetivação da humanidade que pulsa em um mundo desumano.
Teoria, no trabalho, contra o trabalho como ladrão de possibilidades de tempo livre.
Exaustão no "trabalho contra a exaustão pelo trabalho".
Trabalho como salteador de possibilidade de autoexpressão outra, que não aquela que- felizmente- encontro no trabalho.
Trabalho. Muito trabalho.
Agenda.
Trabalho e breves pausas para recompor a energia de trabalho.
Mas é contra isto que trabalho!
Um blog semi-abandonado.
Dramático seria uma vida semi-abandonada.
Seria uma vida semi-abandonada?
Será?
Liimites, fronteiras, entre realizar um trabalho onde se efetiva em grande parte a autoexpressão e as demais necessidades de autoexpressão negligenciadas.
Um alento: aulas de canto resgatadas além do fosso das obrigações.
Já é alguma coisa!
quarta-feira, 26 de março de 2014
Deadline
quinta-feira, 6 de março de 2014
Fé, exercício de Fé, Ciência e outras “mirabolâncias” da minha inquieta e desassossegada alma.
Escrito em 6 de março de 2014.
Ainda ontem conversava com
uma amiga e dizia: a fé é um dom, não sei se a tenho, mas ajo “como se”.
Sempre rezo pedindo o dom da
Fé.
Quando sou questionada sobre
se acredito mesmo na Vida Eterna, especialmente por meu filho, eu respondo:
quero acreditar e rezo para isto, mas, o que me importa, é que aquilo que chamo
de Fé me sustenta nesta vida. Se houver de fato, outra, melhor, mas se não
houver, minha fé me ajudou a viver esta.
Falo isto com a “liberdade”
que me permito aos 50 anos, sem medo de escandalizar os moralistas, puritanos e
“crentes” que se julgam tão crentes, mas tão crentes, que nem se permitem uma autoverificação
da própria fé. Não me refiro, ao usar a palavra “crente”, a nenhuma religião,
mas à pessoa que crê.
Já conversei sobre isto com
o padre, ele foi muito compreensivo. Coloco-me diante de Deus com minha
humildade. Não tenho a prepotência de fingir um Dom que ainda não tenho por
completo. Mas me esforço diariamente para obtê-lo. Exercito-me para isto. Mesmo
que signifique participar de 6 missas dominicais em neerlandês na Bélgica.
Alguns dirão: qual a importância de participar da missa em um idioma que você
não domina? Ah, não vou responder não... Foi importante para mim e pronto.
Em tempo: A Liturgia Católica
é universal, então eu pesquisava quais os textos da Missa naquele dia, marcava
na minha Bíblia e ficava lá na Igreja em Leuven. Quando o leitor fazia a
Primeira Leitura em neerlandês, eu fazia a minha, silenciosamente, em português.
Na hora das orações e respostas litúrgicas, a mesma coisa. Todo mundo rezava o
Pai Nosso e o Credo em neerlandês e eu rezava em Português. O curioso é que,
como a língua local escrita é o neerlandês/ flemish, mas a oral é o inglês,
algumas vezes o padre fazia uma parte da homilia em inglês, Na maioria das
vezes, fazia na língua local e eu não entendia nada, mas ficava meditando sobre
as leituras.
Há anos venho pensando
nisto.
Passei por todas as fases.
Cresci na Igreja Católica,
de família praticante, e penso que minha “fé”, ou melhor, minha prática
religiosa, desenvolveu-se por inércia. Era o resultado das forças em movimento
na minha família. Não foi uma escolha minha. Nasci católica, fui batizada, ia
às missas, cursei a catequese, fiz Primeira Comunhão,Crisma (ainda criança, o
que não me permitiu de fato que este Sacramento fosse a confirmação consciente
da Fé “recebida” no Batismo), aprendia com meu avô as palavras de São Paulo
Apóstolo (ele as adotava para repreender, aconselhar, orientar os netos).
Até tornei-me catequista e
seguia direitinho o roteiro. Não fui uma boa catequista,pois era apenas uma
professora de catequese. Não podia oferecer aquilo que não tinha.
Não me lembro de ter uma
relação especial com a fé naquela época. Simplesmente estava pressuposta.
Casei-me na Igreja, com Luiz
Cláudio, que comigo participava da mesma forma. Éramos do grupo jovem, da
equipe de Liturgia, escolhíamos os cantos nas missas, fazíamos leituras, como
todo o grupo.
A Igreja, especialmente em
meu contexto de periferia, era o polo social da juventude. Era no Grupo Jovem e
nas Missas que a “galera” se reunia. E dali surgiam as festinhas, os passeios,
as idas ao clube.
Enfim, misturavam-se em
nosso universo o mundo religioso e o social, sem muito discernimento. (Falo de
mim, apenas.)
Dali surgiram vários
casamentos.
Após o casamento, e especialmente
após a chegada de Felipe, dois anos depois, eu e Luiz Cláudio fomos abandonando
nossas atribuições na Igreja e deixamos até mesmo de participar das Missas.
Na mesma época, entrava em
minha vida a influência da militância política, do curso universitário e a “obrigação”
de rejeitar a Igreja, por seu histórico social e político.
Também sem muito
discernimento, também por inércia, ou seja, seguindo as forças que determinavam
minha posição, sem fazer uma escolha consciente, afastei-me da Igreja e passei
pela fase do “ateísmo universitário”, aquela obrigação de ser uma pessoa da
Ciência e não da Fé.
No meio em que passei a
conviver, a Igreja era motivo de deboche. No PT, a “ala da Igreja” era
considerada pela "esquerda" como “reformista” e “contrarrevolucionária”.
Eu ficava orbitando na
esquerda, embora nunca tenha me filiado oficialmente a nenhuma tendência, pois
não me identificava com a tese da luta armada.
Dentro ou fora da Igreja, não aceito a tese que justifica a luta armada, onde vidas são tiradas, sob a justificativa de que o Capitalismo tira muito mais. Ok, concordo que o Cap(e)talismo tira muito mais vidas, mas eu não iria brincar de luta armada porque não me via tirando uma vida sequer, sob qualquer motivo. (Ressalva: sofri um assalto onde meu filho, então com 1 ano e meio de vida, passou a noite com uma arma na cabeça, sob meus olhos. Naquele momento, eu mataria para defender a vida dele, se pudesse, não serei hipócrita. Somente naquele momento e para salvar sua vida. Recebi “ofertas” de vingança depois, mas recusei. Já havia passado o momento e eu não tinha nenhum interesse em vingança. Que Deus (já que a Justiça dos homens jamais os encontraria) se encarregasse de cuidar dos assaltantes,eu não sujaria minha consciência com o sangue deles.
Dentro ou fora da Igreja, não aceito a tese que justifica a luta armada, onde vidas são tiradas, sob a justificativa de que o Capitalismo tira muito mais. Ok, concordo que o Cap(e)talismo tira muito mais vidas, mas eu não iria brincar de luta armada porque não me via tirando uma vida sequer, sob qualquer motivo. (Ressalva: sofri um assalto onde meu filho, então com 1 ano e meio de vida, passou a noite com uma arma na cabeça, sob meus olhos. Naquele momento, eu mataria para defender a vida dele, se pudesse, não serei hipócrita. Somente naquele momento e para salvar sua vida. Recebi “ofertas” de vingança depois, mas recusei. Já havia passado o momento e eu não tinha nenhum interesse em vingança. Que Deus (já que a Justiça dos homens jamais os encontraria) se encarregasse de cuidar dos assaltantes,eu não sujaria minha consciência com o sangue deles.
Enfim: passei a conviver em
um ambiente antirreligioso e aderi, mas tinha algumas necessidades em minha
alma que nunca haviam sido preenchidas. Busquei muito.
A vida deu muitas voltas.
Trancos. Muitos. Trancos e quedas de barrancos.
Buscava em muitos lugares,
leituras etc, o preenchimento daquele vazio. Mas não podia admitir a “caretice”
de preenchê-lo na Igreja Católica, afinal eu era uma “quase-intelectual”, das
Ciências Humanas, Sociais, Políticas e não poderia compactuar com a Igreja da
Idade Média. (estou rindo de mim mesma por esta imaturidade).
Eu era jovem, insegura, não
tinha a coragem que tenho hoje, de parecer esquisita e assumir isto, tanto no meio acadêmico
por ser “católica de missa”, ou ser esquisita no meio religioso, por ser
intelectual que defende que religião é assunto de Igreja, que a escola e o
Estado devem ser laicos e que a legislação não pode se pautar na moral de uma
religião.
Bom, sou esquisita nos dois ambientes, mas sou “ok” comigo mesma.
Claro que me questiono diariamente sobre estes limites e procuro rever a cada dia esta questão, dado que falar na teoria é fácil, mas na prática é muito mais difícil. Como me perguntou uma aluna muito corajosamente: isto não seria hipocrisia? Pergunto-me isto a cada dia. Como conciliar a moral que adoto voluntariamente como cristã católica com a posição de professora , uma representante do Estado de Direitos? (atenção: representante do Estado, não do governo. Estado inclui a “vontade geral” da sociedade, o bem comum, a legislação, as políticas públicas, não o governo. Toda instituição escolar é concessão do Estado e a suas leis deve respeitar, desenvolvendo, ainda, a função contra-hegemônica de transformação da sociedade).
Bom, sou esquisita nos dois ambientes, mas sou “ok” comigo mesma.
Claro que me questiono diariamente sobre estes limites e procuro rever a cada dia esta questão, dado que falar na teoria é fácil, mas na prática é muito mais difícil. Como me perguntou uma aluna muito corajosamente: isto não seria hipocrisia? Pergunto-me isto a cada dia. Como conciliar a moral que adoto voluntariamente como cristã católica com a posição de professora , uma representante do Estado de Direitos? (atenção: representante do Estado, não do governo. Estado inclui a “vontade geral” da sociedade, o bem comum, a legislação, as políticas públicas, não o governo. Toda instituição escolar é concessão do Estado e a suas leis deve respeitar, desenvolvendo, ainda, a função contra-hegemônica de transformação da sociedade).
Enfim, minha condição de cristã
católica e intelectual das Ciências Sociais não é nada fácil nem simples.
Examino minha consciência e procuro estudar todos os dias o assunto, por isto o
Catecismo da Igreja Católica na mesa de Cabeceira e o livro do Terry Eagleton
do outro lado da cama.
E tem um agravante: o padre
da minha atual paróquia (Santa Teresinha do Menino Jesus) é “intransigente” (no
bom sentido”), conhece muito bem tanto a Teologia quanto as Ciências Sociais e
me “provoca” a refletir exaustivamente, não dá um minuto de sossego à minha
consciência. Vive postando “inquietudes” no Facebook , mesmo quando está de
férias.E isto me faz voltar lá no autor que ele menciona, reler o Manifesto Comunista, Raymond Aron. Sem falar no modo “zangado” como nos exorta nas Missas. Ele tem fortes
argumentos, sustentados por textos dos autores das Ciências Sociais, que
seleciona muito bem. Enfim, cumpre muito bem seu papel de pastor.
Voltando um pouco...
Duas décadas longe da Igreja.
Por maneiras diferentes,
tanto eu como Luiz Cláudio nos reaproximamos da Igreja e tentamos influenciar Felipe,
visto que não o havíamos feito na infância.
Lembro-me de Felipe falando:
“Caraca, você e meu pai são muito igrejeiros, só sabem ficar me chamando pra ir
à Missa, parece que não têm outro assunto”. “Caraca, acho que meu pai ainda é “pior”
do que você.”
E Felipe ria de seus “velhos
pais”, com a superioridade de um jovem na casa dos vinte anos. A mesma
superioridade com que eu ria de meus pais duas décadas antes.
Pois é... Luiz Cláudio era
mesmo “pior” do que eu no quesito “querer levar Felipe para a Igreja.
Sua fé era inabalável.
Isto me conforta hoje, pois
sei que nos quatro dias que passou no hospital antes de morrer, consciente, mas
sem poder falar, não se desesperou.
Luiz Cláudio tinha uma fé
que não lhe permitia desesperar-se.
Quando conversávamos sobre
nossas preocupações com filho adolescente / jovem, eu era “a desesperada”,
sempre vendo alguma tragédia pela frente.
Luiz Cláudio tinha a mania
de começar todas as frases, diante de um problema, com a expressão: “Que nada!”
“Que nada! Felipe é adulto,
vai saber se safar”
“Que nada! Não vai acontecer
nada de ruim com ele”
“Que nada! Vai dar tudo
certo, está tudo nas mãos de Deus”
“Se alguma coisa ruim
acontecer, nos entregaremos nas mãos de Deus, pois Ele sabe de todas as coisas.”
“Deixa de se preocupar. Se
acontecer alguma coisa, teremos que nos conformar porque nada acontece contra a
vontade de Deus”.
Enfim, esta era a fé que
Luiz Cláudio encontrou/reencontrou e viveu nas últimas décadas de vida.
Inabalável, sem questionamentos. Se os tinha, não expunha. Mas acredito que não
tinha.
Já o meu caso é
completamente diferente.
Eu me disciplino e ajo com
fé, para ver se obtenho a fé.
Voltei à Igreja “na marra”,
por um processo de depressão gravíssimo.
Não admito que se interprete
isto como “prêmio e castigo”. Não fui “castigada” com a depressão por estar
longe da Igreja, tampouco fui “premiada” por ter voltado.
Deus não tem carteira de
clientes-fidelidade.
Seria uma fé ridícula, aquela que acreditasse em um deus que assim procede. Um deus masoquista, que joga com as pessoas, premiando
e punindo, chantageando. Realmente, errada ou certa, não acredito neste “tipo de deus”
perverso.
Tive alívio da depressão com
o retorno à Igreja, por uma razão muito simples: tinha um vazio em minha alma.
Claro que estou falando em “alívio”,
pois depressão é uma doença clínica que requer tratamento medicamentoso e de
psicoterapia. Mas o buraco da alma, que é um elemento desencadeador, só cada
pessoa pode saber identificar e tentar sanar. No meu caso, é muito claro: minha
profissão é desumana e desumanizante em muitos aspectos, embora seja a mais
linda (aos meus olhos- se assim não pensasse, estaria em outra). Mas ser
professora não significa apenas fazer aquilo que amo: entrar na sala de aula,
dar aulas, estudar, ensinar, aprender, ajudar a formar pessoas, adotar os
alunos como vice-filhos, pesquisar, escrever, ler .
Há um lado extremamente
perverso e adoecedor, que é o convívio no meio acadêmico. A guerra de egos, as
rivalidades, as decepções, a incoerência entre o que as pessoas falam/escrevem
e o que praticam, a deslealdade como regra geral.
Isto adoece a quem não se ilude
com a vanglória de títulos, plateias e “homenagens” efêmeras.
Adoece a quem não se ilude
com os aplausos e sorrisos. A quem não “acredita” nisto como alimento para sua
alma.
É claro que o reconhecimento
profissional é muito bem vindo, pois é o resultado de décadas de esforço e
dedicação, além do amor investido na profissão.
Mas não me iludo.
Não me alimento disto.
Sei o quão efêmeros são os
sorrisos, elogios e aplausos e quão rapidamente podem transformar-se em
punhaladas.
Já estou nesta profissão há
34 anos e tomo meu soro antiofídico diariamente.
E era este soro antiofídico
que me faltava.
Costumo dizer (especialmente
a um motorista de táxi que me conduz quando vou de taxi ao trabalho), que meu
soro antiofídico é a Liturgia Diária da Igreja Católica, especialmente o Salmo
do dia.Procuro ver pelo menos a parte da Liturgia da Palavra pela televisão
antes de sair de casa. Vou me arrumando, tomando café e ouvindo.
Vivi cerca de 20 anos sem
este soro antiofídico. Sei o valor dele hoje nas lutas diárias.
Sofri muito quando não o
tinha, ou melhor, quando não o buscava.
Mas vamos ao motivo deste
texto... Começo a escrever e divago, divago... quase não retorno ao ponto de
partida. Aqui, posso. Nos artigos acadêmicos, não. Nos livros acadêmicos, não.
Na correção das teses e monografias, não. Mas aqui posso.
Ontem conversava com uma
amiga sobre esta minha relação esquisita com a Fé.
Eu não sei se a tenho, mas a
procuro e ajo “como se”, ajo “como quem tem fé”, na esperança de que, de tanto
tentar, um dia poder dizer de fato: eu tenho fé. Uma fé tão sólida como têm
alguns amigos e como tinha Luiz Cláudio.
Há cerca de duas horas, comecei
a ler um livro acadêmico, mas logo meus olhos se voltaram para um “livrão” de
capa amarela que mora na minha mesa de cabeceira: o Catecismo da Igreja Católica.
Um livrão de 937 páginas, que sistematiza a Doutrina da Igreja.
Não por coincidência, o
marcador estava exatamente no capítulo sobre a Fé. Eu havia parado a leitura no
final do capítulo anterior e deixei o marcador na página onde deveria retomar a
leitura. Mas nem me lembrava de que era sobre a Fé.
Transcrevo aqui alguns
trechos do Catecismo da Igreja Católica:
“Pela fé, o homem submete completamente sua
inteligência e sua vontade a Deus. Com todo o seu ser, o homem dá seu
assentimento a Deus revelador. A Sagrada Escritura denomina ‘obediência da fé’
esta resposta do homem ao Deus que revela.” (p 48)
“Obedecer (‘ob-audire’) na fé significa submeter-se
livremente a palavra ouvida(...) (p 48)
“A fé é primeiramente uma adesão
pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus
revelou.” (p 49-50)
“A fé é uma Graça” (p 50)
“A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural
infundida por Ele. “para que se preste esta fé, exigem-se a traça prévia e
adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração
e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir
e crer na verdade.” (p 51)
“Crer só é possível pela graça e pelos
auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um
ato autenticamente humano. Não contraria nem a liberdade nem a inteligência do
homem confiar em Deus e aderir às verdades por ele reveladas.” (p 51)
“(...) prestar, pela fé, plena adesão do
intelecto e da vontade.” (p 51)
“Na fé, a inteligência e a vontade
humanas cooperam com a graça divina.” (p 51)
“Crer é um ato da inteligência que
assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça.”
(p 51)
“A graça da fé abre os olhos do coração.”
(p 52, citando Ef 1, 18)
“(...)eu creio para compreender, e
compreendo para melhor crer” (p 52, cit Santo Agostinho)
Fé e
Ciência - Vejam que lindas diretrizes para os cientistas de todas as áreas”
“Porém, ainda que a fé esteja acima da
razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra,
porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito
humano da luz da razão. (...) Portanto, se a pesquisa metódica, em todas as ciências, proceder de maneira
verdadeiramente científica, segundo as leis morais, na realidade nunca será oposta à fé: tanto as
realidades profanas quanto as da fé originam-se do mesmo Deus. Mais ainda: quem
tenta perscrutar com humildade e perseverança os segredos das coisas, ainda que
disso não tome consciência, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta
todas as coisas, fazendo com que elas sejam o que são.”
A Liberdade
da fé
“(...) O homem deve responder a Deus,
crendo de livre vontade. (...) ninguém deve ser forçado contra sua vontade ser
obrigado a abraçar a fé. Pois o ato de fé é por sua natureza um ato voluntário”
(p 53)
Finalizando:
- A leitura destas páginas convenceu-me de que
minha relação com a fé não é esquisita, como eu pensava até momentos atrás.
- É
linda a definição da relação entre a ciência e a fé. A dificuldade é que, ao
pautar-se por valores morais, o cientista- e isto é inevitável- pauta-se pelos
valores morais aos quais dele adere, religiosos ou não.
-
Reitero o desafio que me coloco diariamente para, concretamente, saber me
posicionar nos dilemas éticos na escola.
Este desafio é acrescido dos seguintes dados:
Este desafio é acrescido dos seguintes dados:
a-
Na escola básica, especialmente na Educação infantil e primeiros anos, onde
predominam entre os professores as religiões cristãs (católica e protestante),
observa-se o preconceito e discriminação contra as religiões não-cristãs, o que
fere a Constituição e a Legislação Educacional, além de ferir o bom-senso. Como
dito acima, a fé é um ato de graça e DECISÃO, de LIBERDADE. Ninguém pode ser
coagido, especialmente na escola laica, a aderir a alguma religião ou à fé.
b-
Na universidade, ou já no Ensino Médio, observa-se a divulgação do conflito
(falso, segundo o texto acima, mas é
falso aos olhos da Igreja Católica e, portanto, somente aos que a ela pertencemos,
cabe tomar como princípio), entre fé e razão e uma coação ao ateísmo.
c-
Como expressão do Multiculturalismo e ações afirmativas, entre outras razoes, a
universidade está perdendo seu caráter laico para religiões de matriz africana.
Vivemos um momento em que ‘é moda’ entre os intelectuais a adesão ao
Camdomblé, Umbanda. Quando digo que é “moda”, considero, inclusive, que isto
desrespeita a própria religião, pois torna-se objeto “cultural” simplesmente.
Não
consigo aceitar que em uma Universidade como a UERJ, haja um grupo de pesquisa
sobre Candomblé no Mestrado e Doutorado em Educação, composto por adeptos desta religião, como ação afirmativa. O espaço
da universidade deve ser laico. Não concebo que dentro de um programa de
mestrado e doutorado, uma atividade claramente de cunho religioso seja
considerada como disciplina, compute créditos etc.
O fato de que as religiões de matriz africana sejam discriminadas, como já afirmei acima, e que isto seja um erro da Escola Básica, não justifica a utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião.
Do mesmo modo, não aceitaria que houvesse no mesmo programa um grupo da Renovação Carismática Católica, da Teologia da Libertação, da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Batista, da Assembleia de Deus ou outras.
O fato de que as religiões de matriz africana sejam discriminadas, como já afirmei acima, e que isto seja um erro da Escola Básica, não justifica a utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião.
Do mesmo modo, não aceitaria que houvesse no mesmo programa um grupo da Renovação Carismática Católica, da Teologia da Libertação, da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Batista, da Assembleia de Deus ou outras.
Uma
coisa é um programa de Antropologia ou Sociologia (e até mesmo a Educação ou
outras ciências), por exemplo, ter como objeto de estudos a espiritualidade,
religiosidade, religião, as religiões ou uma determinada religião.
Outra,
bem diferente, é um grupo pertencente a UMA determina da religião criar dentro
de uma universidade pública um grupo de estudos e pesquisas de adeptos e
simpatizantes de SUA religião.
O que vale para o Catolicismo e para o Candomblé tem que valer para a Igreja Universal, por que não?
O que vale para o Catolicismo e para o Candomblé tem que valer para a Igreja Universal, por que não?
Choverão
pedras, eu sei. A turma da “tolerância intolerante” vai cair em cima de mim.
Não tem problema. Não concebo a
utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião. Nem a
minha nem qualquer outra.
Portar
símbolos religiosos em seus corpos, em seu vestuário é uma ato de liberdade e direito que deve ser
preservado na escola. Já transformar uma determinada religião em atividade
curricular de um programa de mestrado e doutorado é um abuso, a meu ver, inclusive contra a
própria religião.
Ciência
na universidade, religião nos templos.
E
cada sujeito, em sua consciência, faz a síntese baseada no respeito e nos
princípios éticos (mais amplos e gerais) e morais(mais específicos de
determinada comunidade de práticas).
Escola laica é lugar de ética, não de moral religiosa como currículo.
Daí o meu conflito. De fato, a universidade hoje não é laica. Seja pela imposição do ateísmo, seja pelo modismo das religiões de matriz africana.
Até onde e quando compactuar?
Meu filho estuda em uma universidade católica , mas não há sequer traço disto em eu currículo, assim como quando estudou no Colégio Nossa Senhora do Rosário.
E poderia haver, pois você escolhe estudar em uma escola confessional porque a tal fé professa, ou, pelo menos , está consciente do que é uma escola confessional.
Que hajam escolas confessionais de todas as religiões, se assim desejarem. Mas a escola pública é laica. Não é cristã, não é muçulmana, não é budista, não é umbandista, não é ateia. A escola é laica. Os sujeitos podem ou não professar sua fé com liberdade, mas a escola não pode assumir NENHUMA religião ou o ateísmo como conteúdo curricular (do currículo explícito ou do oculto)
Escola laica é lugar de ética, não de moral religiosa como currículo.
Daí o meu conflito. De fato, a universidade hoje não é laica. Seja pela imposição do ateísmo, seja pelo modismo das religiões de matriz africana.
Até onde e quando compactuar?
Meu filho estuda em uma universidade católica , mas não há sequer traço disto em eu currículo, assim como quando estudou no Colégio Nossa Senhora do Rosário.
E poderia haver, pois você escolhe estudar em uma escola confessional porque a tal fé professa, ou, pelo menos , está consciente do que é uma escola confessional.
Que hajam escolas confessionais de todas as religiões, se assim desejarem. Mas a escola pública é laica. Não é cristã, não é muçulmana, não é budista, não é umbandista, não é ateia. A escola é laica. Os sujeitos podem ou não professar sua fé com liberdade, mas a escola não pode assumir NENHUMA religião ou o ateísmo como conteúdo curricular (do currículo explícito ou do oculto)
Já
conversei sobre isto com duas pessoas (queridas MESMO) que fazem parte do grupo
em questão (curiosamente, ambos meus ex-alunos). E lhes fiz esta pergunta: e se
fosse a Igreja do Evangelho Quadrangular ou a igreja Universal? Seria um escândalo.
A notícia estaria em todos os jornais e os intelectuais estariam se
manifestando contra nas ruas.
Bom,
o debate é intenso. Vamos a ele!
Cinquenta anos
Cinquenta
anos
Escrito em 4 e 5 de março de 2014.
Escrito em 4 e 5 de março de 2014.
Não
vivi a “crise dos quarenta”, estava ocupada demais, preocupada demais.
Lembro-me
da “crise dos trinta”, mobilizou-me um
pouco. Fazer trinta anos foi muito mais significativo do que quarenta, considerando o impacto de pensar no “envelhecimento”.
Estava saindo da casa dos vinte: estaria
me tornando uma “balzaquiana matrona” ou uma “nova mulher de trinta”, “gatinha”?
Aos
trinta, já trazia uma história comprida. Já tinha um filho de nove anos, dois
empregos públicos desde os dezoito, um mestrado interrompido “para ser mãe de porta
de escola” por um tempo, e já retomado, o qual estava concluindo.
Já
tinha também alguma experiência como professora universitária, iniciada aos
vinte e seis. Estava construindo minha casinha, tinha meu carro e telefone. Sim,
telefone naquela época era um bem caríssimo e dificílimo de conseguir, pois
você entrava na fila de espera da antiga Telerj, depois Telemar, depois Oi. O preço
equivalia a um carro e a espera, por vezes, durava anos. Era comum alugarmos
linhas telefônicas.
Nasci
em tempos pré-históricos, meus jovens: tempos em que telefone era símbolo de “riqueza”,
não havia internet, nem Banco 24 horas, cartão eletrônico, nada disso...
Velhíssimos
tempos, crianças pós-Steve Jobs e Bill Gates.
Concluindo:
estava saindo da casa dos vinte anos com uma bagagem considerável de vida. E de
dores, angústias, tudo o que todo mundo tem.
Cabelos
compridos desde sempre. Foi no meio da década dos trinta que assumi o corte
Chanel, do qual me “libertei” aos 50, mas já estou com saudades, impaciente, com
o cabelo naquele corte desconfortável conhecido como “esperando crescer”.
Os
trinta chegaram e passaram voando.
Ao
final da década do trinta, lecionava em quatro faculdades privadas (em oito
campi diferentes) cursava o doutorado e
cuidava de casa e filho. Mulher normal.
Os
quarenta chegaram meio despercebidos. Sem muitos questionamentos. Eu havia
terminado o doutorado, feito o concurso e ingressado em uma instituição federal.
Muitas ocupações, como sempre.
Não
me lembro de uma fase da vida sem muitos afazeres e preocupações. Aos nove anos,
de vez em quando, ajudava a uma senhora idosa: encerava sua casa, ia ao
açougue, farmácia. E ganhava uns trocados por estas tarefas. Aos doze, comecei
a lecionar em casa, alfabetizando crianças da vizinhança e fazendo reforço
escolar, Aos quatorze, ingressei no mundo do trabalho formal: balcão de
padaria, loja de roupas e secretaria de uma paróquia. Aos dezessete, comecei a
lecionar em uma escola privada. Aos dezoito, concursada, em uma escola municipal
e outra estadual.
Aos
quarenta, filho entrando na maioridade,
novas atribuições no trabalho, nada que me fizesse parar para pensar nos “quarenta”.
Mas
os cinquenta... ah, os cinquenta...
Chegaram
no dia 7 de junho de 2013. Um dia “normal”. Não comemorei. Ainda estava vivendo
um luto. Não tive vontade de comemorar nem os 49 nem os 50. Sem clima. Sou antiga,
vivo lutos.
Mas
os cinquenta vieram acompanhados de profundas transformações. Por motivos
vários, por perdas diversas, por dores infinitas, precisei mudar.
Mudei
muito na virada dos quarenta para os cinquenta.
Atraí
desafetos.
Criei
coragem.
Mais
coragem.
Enfrentei
dores, perdas, ausências, reorganizações da vida.
Sofri.
E passei a desagradar a algumas pessoas.
Até
ali, eu era uma pessoa que ocasionalmente tinha meus arroubos, mas, em geral,
era muito tolerante aos abusos e invasões. Justamente minha tolerância
silenciosa me levava a explodir para “surpresa” das pessoas, que desconheciam
os precedentes de tolerância silenciosa.
Resolvi
perder a linha e colocar a boca no mundo.
Ter
cinquenta anos me permitiu.
Falei.
Falei
muito.
Escrevi.
Coloquei
minha raiva para fora.
Publiquei
no Facebook.
Desagradei.
Escandalizei
a “moralistas” e “puritanos” que se chocaram quando coloquei muita raiva para
fora. Como eu poderia expor minha raiva daquele jeito? Raiva é para ficar
escondida.
Mas
eles nunca estiveram no meu lugar. Nunca passaram pelas “esquinas por que
passei”.
Perdi
algumas amizades e sofri, sofro
visivelmente, o abalo de outras.
Nada
a fazer.
Não
agredi a ninguém, apenas coloquei para fora a raiva por ter sido agredida.
Os
cinquenta anos me permitem ser um pouco – e saudavelmente- adolescente e dizer:
Gosta de mim? Precisa gostar na totalidade. Não gosta? Lamento. Tenho defeitos
e qualidades, ou melhor, qualidades positivas e negativas. Qualidades que
agradam a uns e desagradam a outros. Tenho, sobretudo, um compromisso: ser fiel
a mim mesma. Isto significa ser fiel ao que mais prezo: lealdade.
Deslealdade
não cabe mais em minha vida.
Posso
escolher.
Grandes
e pequenas deslealdades, puxadas de tapetes, rivalidades, punhaladas nas
costas... hoje posso escolher manter distância.
Escolho
manter distância de pessoas tóxicas ou relacionamentos tóxicos.
Dói.
Perdas
sempre doem.
Entretanto,
aprendi no dia 22 de outubro de 2012, quando sofri um AVC tentando ser mais
forte do que sou, tentando controlar a vida, que eu simplesmente não tenho
nenhum poder. Isto é libertador. Isto me permite ser quem sou. Uma pessoa que,
antes de tudo, preza a lealdade.
Lealdade.
Não sou estudiosa de etimologia, embora o assunto me apaixone. Não vou olhar no
Google, vou simplesmente especular. Lealdade teria a mesma origem etimológica
que leão? Se não tiver, no meu dicionário etimológico existencial tem.
Lealdade
me lembra a força e a persistência do leão. A nobreza do leão. A majestade.
Pessoas
que sabem valorizar a lealdade são nobres, majestosas.
Estas,
eu quero perto de mim.
As
desleais ou as que compactuam com as grandes e pequenas deslealdades, não me
fazem falta.
Isto
não quer dizer que não me doa seu afastamento.
Dói
sim, mas eu preciso saber em que terreno estou pisando.
No
mundo do trabalho, necessitamos conviver com regras cada vez mais produtoras de
deslealdade: a competitividade, as vaidades etc.
Mas
na minha vida pessoal, quem estabelece quem receberá pulseira vip sou eu.
Ou
melhor, são as atitudes das pessoas.
Eu
apenas tenho os critérios.
E
o critério é essencialmente um: lealdade. Com tudo que a acompanha. Desde os
pequenos aos grandes gestos e atitudes cotidianas. Desde o respeito às pequenas
coisas ao apoio em grandes momentos.
Lealdade
é o “anel de brilhante” que dei a mim mesma como presente de aniversário de
cinquenta anos. Lealdade de mim para comigo e exigência de lealdade nos
relacionamentos que compõem meu universo afetivo.
E
de hoje em diante não transigirei mais com isto. Não vou passar a vida brigando
com as pessoas, mas vou munir-me de uma “borracha escolar” para ir apagando
nomes, sem apego.
E
agregando outros, grifando aqueles que sempre estiveram ali e sempre estarão.
Não
tenho nenhum medo da solidão.
Por
duas razões: porque sei que tenho a sorte de ter alguns amigos e familiares leais
e porque, mesmo se não fosse este o caso, preferiria minha própria companhia à
das pessoas desleais. Não é confortável você precisar viver encostada na parede
porque, se desproteger as costas, poderá sofrer uma punhalada.
Nos
últimos dois anos a vida me expôs a uma dura realidade: nós perdemos pessoas e
não podemos fazer NADA a respeito disto. Se, por um lado, vivi toda a dor das
perdas, por outro, aprendi a me conformar com outro tipo de perdas, com as
perdas em geral. Simplesmente não tenho controle sobre elas. De nada adianta me
apegar porque, como disse Chico Buarque, “vida veio e me levou”.
Levou-me
para um lugar onde me identifico mais com a contemplação resignada do
heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, do que com os “trágicos” Ricardo Reis e Álvaro de Campos,
outros heterônimos do mesmo poeta.
Tudo
isto parece muito amargo. Mas não sinto assim.
Apenas
resignação. E uma sensação de libertação.
Libertação
de tantos fardos.
A
vida é assim e não me pede autorização para isto.
A
vida nunca me pediu autorização para retirar do meu convívio pessoas queridas.
A
vida nunca me pediu autorização para sofrer pequenas e grandes traições e deslealdades.
Então,
é isto: a vida não me pede autorização.
Não
posso, portanto, ocupar-me disto.
Cabe-me
tão somente estar.
Ser.
Aceitar.
Sobreviver.
Viver.
Lembro-me
de que há vinte anos, quando meu avô morreu, após alguns dias internado, a
despeito de todas as preces da família, me veio igualmente esta sensação de
resignação. “Vida veio e me levou”.
Há
perdas que acontecem e contra as quais nada podemos fazer.
Perdas
por morte e perda por afastamento.
Vinte
anos depois, fazendo o balanço das perdas de 2012 e 2013, sinto- me ainda um
pouco mais resignada.
E
um pouco mais sábia diante das perdas.
Nem
todas são para o mal. No caso da ausência do meu filho, que foi estudar no exterior,
o meu “grude” de uma vida inteira, que atravessou mares para crescer sozinho, é
um dor “do bem”. Nem por isto dói menos. Mas foi uma perda “do bem”
Nos
casos das oito mortes de pessoas que faziam parte de minha vida havia décadas, todas
da minha idade, não posso de modo algum dizer que foram para o bem, mas
simplesmente aconteceram.
Antes
da hora.
Em
um caso específico, no caso do Luiz Cláudio, muito antes da hora, muito mais do
que eu poderia suportar.
Mas
sobrevivi.
Relendo
o que escrevi em meu diário há cerca de um ano e meio, eu mesma me assusto.
Como suportei? Como pude sentir tanta dor e estar aqui hoje?
Quase
morri, tive um AVC.
Mas
sobrevivi.
E,
se sobrevivi, não é para ter uma vida qualquer, não é para “engolir a seco” e tolerar
condutas não dignas de mim.
Sobrevivi
para me respeitar e me fazer respeitar.
Para
saber que, se eu tomo partido, as pessoas também tomarão.
Que
se eu coloquei limite em uma amizade que se colocou sob condição para
permanecer (amizade, penso eu, é incondicional – e era um condição absurdamente
fútil), imediatamente após, deixei de ser convidada para duas festas de aniversário
de amigas comuns. Uma, inclusive, já havia falado que ia comemorar e me
convidar, até porque gostaria de reunir todo mundo e mencionou especificamente
a pessoa com quem eu havia tido o problema. Apenas comentei: Legal, irei sim!
Nem
mencionei o fato.
As
semanas passaram, não recebi o convite e vi as fotos no Facebook. Ok.
Compreendo. As pessoas têm todo o direito de “achar” que sou intransigente e
não serei eu a tentar convencê-las. Foram curiosamente duas festas de aniversário
na mesma semana. Nenhuma das duas me procurou para ouvir minha versão. Ok. Sem
mágoas. Mesmo.
Aos
cinquenta anos, não posso mais usar meu tempo tentando convencer ninguém de que
tenho razão, ou quais são as minhas razões. Simplesmente serei eu. Do meu
jeito. Prezando a lealdade e a incondicionalidade de uma verdadeira amizade.
Amizade sob condição de que eu faça o que a pessoa pensa que é o mais certo
para mim, não é amizade.
Sou
assim.
Não
me intrometo nas decisões alheias.
Passo
por omissa.
Há
pessoas que gostam que os amigos deem broncas, deem diretrizes às suas vidas,
decidam o que devem fazer, cobrem atitudes, dizendo: “você TEM que fazer isto,
você TEM que terminar tal curso, você TEM que sair de tal trabalho...”
Ambas
têm as melhores intenções. Tanto as que fazem isto, quanto as que esperam isto
dos amigos.
Nem
faço, nem tolero que façam comigo.
Para
mim, o verdadeiro amigo é aquele que respeita e apoia as decisões do outro, que
dá colo. As pessoas são adultas e têm o direito de decidir sobre o que
preferem, sem interferências, a menos que estejam pedindo um conselho, penso
eu.
Assim
me conduzo com meus amigos.
Não
sou uma pessoa “em cima do muro”, apenas tenho um profundo respeito pelo
direito de cada um decidir o que é melhor para SI. E eu, para MIM.
Amizade,
em minha concepção, não é um tapete de pregos, é uma almofada aconchegante.
Como
tapetes de pregos, já bastam os desafetos, os egos competitivos. O “mundo lá
fora”.
De
amigos, eu espero carinho e conforto.
Simplesmente,
não gosto que arbitrem sobre minha vida. E, por esta razão, não arbitro sobre a
vida dos amigos, embora me importe (muito) com sua felicidade. Alias, não
arbitro exatamente porque me importo. Não tenho a pretensão de saber o que é o
melhor para o OUTRO.
Mas,
como “Narciso acha feio o que não é espelho”, muitas pessoas pensam que o único
jeito certo de ser é o delas. Vamos seguindo a vida com algumas surpresas.
Há
pessoas que não conseguem um mínimo de descentramento, só conseguem admitir que
os outros façam aquilo que elas consideram o correto.
Outras,
tomam partido sem conhecer os fatos.
Outras,
tomam partido conhecendo os fatos.
Nada
disto é errado.
Simplesmente
é.
Simplesmente
acontece assim.
A
vida me encanta, mesmo assim.
Este
não é um manifesto de amargura.
É
um manifesto do balanço de meio século de vida, a fim de bem viver a outra
metade de século que desejo viver.
Sinto
muita falta das pessoas que perdi. Das que perdi para a morte e das que perdi
para o fim ou para o estremecimento da amizade.
Mas
é simplesmente assim que a vida acontece.
Da
mesma forma que jamais poderei ter de volta as pessoas que se foram por morte ,
também não me apego à ideia de ter de volta aquelas que se foram por não
suportar meu “novo” jeito de ser, após meu renascimento.
Fazer
o quê? Sentir saudades, tanto de umas quanto de outras. Lamentar as perdas,
tanto de umas quanto de outras.
Fazer
o quê? Telefonar menos para aquelas que percebo desinteresse em retornar as
ligações.
Deixar
de escrever para aquelas que nunca respondem, por terem se escandalizado com o
fato de a “menina bem-comportada” ou a “professora-doutora” colocar algumas
raivas para fora, expor as próprias feridas.
Tem
gente que não gosta, que não suporta.
É
um direito delas.
E
é meu direito ser do modo como sou, como acredito.
Não
tenho tempo para desafetos.
Tenho
tempo para os afetos.
Tenho
tempo para a música.
Tenho
tempo para aprender e ensinar, que amo.
Tenho
tempo para me divertir com pessoas leves.
Tenho
tempo para aprender a ser leve.
E
ser leve significa me desapegar de “afetos tóxicos”.
Ser
leve significa cultivar boas amizades que não apertam como nós, mas que
acariciam e enfeitam, como laços, que enlindecem a vida.
Quero
pessoas na minha vida com vocação para o enlindecimento.
Não
quero pessoas controladoras, donas de verdades, ácidas.
Não
quero juízes.
Quero
apenas seguir sendo eu.
Aceitando-me
com meus lados de que gosto mais e os de que talvez goste menos, meus limites,
mas pelos quais sinto carinho, pois me constituem e me ajudam a viver.
Penso
aqui em quantas pessoas enlindecedoras conheço há muito tempo e não tenho me
dedicado tanto a passar algumas horas com elas para enlindecer mais minha vida.
Outras,
igualmente enlindecedoras, conheço há menos tempo.
Este
é um manifesto pela leveza.
Aos
cinquenta anos, me devia este presente: permissão para simplesmente ser e
estar. Do meu jeito. Sem ferir, sem me deixar ferir.
Enlindecendo
a minha vida e a de quem souber ver em mim alguma fonte de enlindecimento de
suas vidas.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Uma noite em um outubro remoto
Escrito em outubro de 2012
Flocos de/da alma nos constituem há tanto tempo, que nem mais
sabemos dizer se estiveram sempre ali ou se foram chegando pouco a pouco, a
cada dor engolida, a cada medo enfrentado, a cada remorso acomodado, a cada
decepção redundante.
Onde se acha una vacina que previna decepção
redundante?
A cada acometimento, essa enfermidade parece mais vigorosa, ao contrário do que deveria ser, se aprendêssemos, por ensaio e erro, a preveni-la (ao menos as maiores).
A cada acometimento, essa enfermidade parece mais vigorosa, ao contrário do que deveria ser, se aprendêssemos, por ensaio e erro, a preveni-la (ao menos as maiores).
Mas qual: a cada novo acometimento é a dor
primeira.
A dor e a vergonha da própria ingenuidade, da ingenuidade de se deixar iludir mais uma vez com o falso bem.
Vergonha, como se "ser grande" significasse ser malicioso e prever o desvio, ainda quando o olho pode vislumbrar somente linhas retas.
"O mundo é dos desleais mesmo, você devia saber".
A dor e a vergonha da própria ingenuidade, da ingenuidade de se deixar iludir mais uma vez com o falso bem.
Vergonha, como se "ser grande" significasse ser malicioso e prever o desvio, ainda quando o olho pode vislumbrar somente linhas retas.
"O mundo é dos desleais mesmo, você devia saber".
Que
natureza sustenta esses flocos?
Que alternância química permite fibrosidade a
uns e delicada etereidade a outros?
E como se complementam
assim, o bruto e o etéreo, sendo duplo e uno, mas sempre uno?
Sonho
ser só fibra, uma alma tecida em fibra resistente. Dessas que não se lhes
permeiam chuvas, ventos, frio, nada se lhes atravessa.
Fortes!
Sempre prontas para
resolver tudo, para seguir em frente e para anunciar: reaja, seja forte, a vida
continua, a vida continua, a vida continua, o show não pode parar. Não perca a
próxima festa!
Onde compraram essa
fibra, que não veio no meu pacote?
Como a implantaram?
Ou, pior, será que já
nasceram assim?
Teria eu alguma falha
genética?
Ou
você é um ser de aço, mesmo frente às dores mais injustas, um ciborgue
emocional, ou é uma "maria-mole", condenada a não se aprumar no tempo
médio esperado para esta operação.
O que é aprumar-se, se os
flocos estão encharcados e mal se acomodam enroladinhos, disformes,
desorganizados?
Qual
o prazo aceito para sofrer uma perda?
Que
incidente é esse - numa multidão de contentes - que desorganiza a
euforia, a ponto de o sofrer de uma pessoa descaber no conjunto?
Desorganiza não apenas porque o
conjunto receie perder o ritmo de seu eterno carnaval por precisar
solidarizar-se se um folião. tirar a máscara por um tempo e mostrar um rosto
marcado por lágrimas insones.
É esse conviver com o
outro sem a máscara, ali, mostrando que lhe dóem os flocos de alma, o que
desestrutura a folia e dilui a tese do hedonismo absoluto.
Ah, me deixa.
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