quarta-feira, 26 de março de 2014

Deadline

Olhando o blog e pensando na curiosa dinâmica deste instrumento que continua a "existir sozinho",  a ser visitado por leitores que nem sei.
Após o feriado de Carnaval, não tive tempo para atualizá-lo.
Não tive tempo para escrever.
Mas nunca escrevi tanto.
Escrever "a trabalho" ou escrever como autoexpressão?
Escrever "a trabalho" e como autoexpressão.
Basta?
Não!
Ideias "cutucam" frequentemente, são os floquinhos de alma em seu desejo de escapar para o mundo lá fora.
Falta tempo.
A rotina da volta ao trabalho.
As mil atribuições de trabalho.
Planos, mais uma vez, arquivados.
A lista de planos de virada de ano revisitada.
A bicicleta ergométrica novamente deslizando para a função de estante-cabide-armário, recebendo cada vez mais raras visitas, na proporção em que o semestre avança em intensidade e o calendário grita por agilidade.
Prazos. Artigos. Tarefas. Orientandos. Leituras obrigatórias.
Registros.
Cadastros.
Logins.
Senhas.
Boletos.
Mais longins.
Mais senhas.
Mais cadastros.
Mais senhas esquecidas.
Recadastros.
Último dia para enviar o texto para o congresso.
Último dia para enviar o parecer para a revista.
Último dia para requerer aquele financiamento para a pesquisa.
Daqui a pouco é o prazo para solicitar bolsista.
Prazos, prazos, prazos.
Deadlines, deadlines, deadlines.
Fim de linha.
Linha inoperante.
Fim de linha.
Linha da morte.
Linha de corte.
E a gente já se acostumou a nomear prazos como deadline, fim de linha, linha da morte.
Linhas da morte.
E a linha da vida na ´palma da minha mão?
Prazo para entregar trabalho. Linha da morte.
Mas trabalho não é vida?
Não é esta a nossa luta?
E a vida?
Paradoxo: Trabalho como objeto de trabalho.
Teoria do trabalho, no trabalho, como efetivação da humanidade que pulsa em um mundo desumano.
Teoria, no trabalho, contra o trabalho como ladrão de possibilidades de tempo livre.
Exaustão no "trabalho contra a exaustão pelo trabalho".
Trabalho como salteador de possibilidade de autoexpressão outra, que não aquela que- felizmente- encontro no trabalho.
Trabalho. Muito trabalho.
Agenda.
Trabalho e breves pausas para recompor a energia de trabalho.
Mas é contra isto que trabalho!
Um blog semi-abandonado.
Dramático seria uma vida semi-abandonada.
Seria uma vida semi-abandonada?
Será?
Liimites, fronteiras, entre realizar um trabalho onde se efetiva em grande parte a autoexpressão e as demais necessidades de autoexpressão negligenciadas.
Um alento: aulas de canto resgatadas além do fosso das obrigações.
Já é alguma coisa!


quinta-feira, 6 de março de 2014

Fé, exercício de Fé, Ciência e outras “mirabolâncias” da minha inquieta e desassossegada alma.


 Escrito em 6 de março de 2014.

Ainda ontem conversava com uma amiga e dizia: a fé é um dom, não sei se a tenho, mas ajo “como se”.
Sempre rezo pedindo o dom da Fé.
Quando sou questionada sobre se acredito mesmo na Vida Eterna, especialmente por meu filho, eu respondo: quero acreditar e rezo para isto, mas, o que me importa, é que aquilo que chamo de Fé me sustenta nesta vida. Se houver de fato, outra, melhor, mas se não houver, minha fé me ajudou a viver esta.
Falo isto com a “liberdade” que me permito aos 50 anos, sem medo de escandalizar os moralistas, puritanos e “crentes” que se julgam tão crentes, mas tão crentes, que nem se permitem uma autoverificação da própria fé. Não me refiro, ao usar a palavra “crente”, a nenhuma religião, mas à pessoa que crê.
Já conversei sobre isto com o padre, ele foi muito compreensivo. Coloco-me diante de Deus com minha humildade. Não tenho a prepotência de fingir um Dom que ainda não tenho por completo. Mas me esforço diariamente para obtê-lo. Exercito-me para isto. Mesmo que signifique participar de 6 missas dominicais em neerlandês na Bélgica. Alguns dirão: qual a importância de participar da missa em um idioma que você não domina? Ah, não vou responder não... Foi importante para mim e pronto.
Em tempo: A Liturgia Católica é universal, então eu pesquisava quais os textos da Missa naquele dia, marcava na minha Bíblia e ficava lá na Igreja em Leuven. Quando o leitor fazia a Primeira Leitura em neerlandês, eu fazia a minha, silenciosamente, em português. Na hora das orações e respostas litúrgicas, a mesma coisa. Todo mundo rezava o Pai Nosso e o Credo em neerlandês e eu rezava em Português. O curioso é que, como a língua local escrita é o neerlandês/ flemish, mas a oral é o inglês, algumas vezes o padre fazia uma parte da homilia em inglês, Na maioria das vezes, fazia na língua local e eu não entendia nada, mas ficava meditando sobre as leituras.
Há anos venho pensando nisto.
Passei por todas as fases.
Cresci na Igreja Católica, de família praticante, e penso que minha “fé”, ou melhor, minha prática religiosa, desenvolveu-se por inércia. Era o resultado das forças em movimento na minha família. Não foi uma escolha minha. Nasci católica, fui batizada, ia às missas, cursei a catequese, fiz Primeira Comunhão,Crisma (ainda criança, o que não me permitiu de fato que este Sacramento fosse a confirmação consciente da Fé “recebida” no Batismo), aprendia com meu avô as palavras de São Paulo Apóstolo (ele as adotava para repreender, aconselhar, orientar os netos).
Até tornei-me catequista e seguia direitinho o roteiro. Não fui uma boa catequista,pois era apenas uma professora de catequese. Não podia oferecer aquilo que não tinha.
Não me lembro de ter uma relação especial com a fé naquela época. Simplesmente estava pressuposta.
Casei-me na Igreja, com Luiz Cláudio, que comigo participava da mesma forma. Éramos do grupo jovem, da equipe de Liturgia, escolhíamos os cantos nas missas, fazíamos leituras, como todo o grupo.
A Igreja, especialmente em meu contexto de periferia, era o polo social da juventude. Era no Grupo Jovem e nas Missas que a “galera” se reunia. E dali surgiam as festinhas, os passeios, as idas ao clube.
Enfim, misturavam-se em nosso universo o mundo religioso e o social, sem muito discernimento. (Falo de mim, apenas.)
Dali surgiram vários casamentos.
Após o casamento, e especialmente após a chegada de Felipe, dois anos depois, eu e Luiz Cláudio fomos abandonando nossas atribuições na Igreja e deixamos até mesmo de participar das Missas.
Na mesma época, entrava em minha vida a influência da militância política, do curso universitário e a “obrigação” de rejeitar a Igreja, por seu histórico social e político.
Também sem muito discernimento, também por inércia, ou seja, seguindo as forças que determinavam minha posição, sem fazer uma escolha consciente, afastei-me da Igreja e passei pela fase do “ateísmo universitário”, aquela obrigação de ser uma pessoa da Ciência e não da Fé.
No meio em que passei a conviver, a Igreja era motivo de deboche. No PT, a “ala da Igreja” era considerada pela "esquerda" como “reformista” e “contrarrevolucionária”.
Eu ficava orbitando na esquerda, embora nunca tenha me filiado oficialmente a nenhuma tendência, pois não me identificava com a tese da luta armada.
Dentro ou fora da Igreja, não aceito a tese que justifica a luta armada, onde vidas são tiradas, sob a justificativa de que o Capitalismo tira muito mais. Ok, concordo que o Cap(e)talismo tira muito mais vidas, mas eu não iria brincar de luta armada porque não me via tirando uma vida sequer, sob qualquer motivo. (Ressalva: sofri um assalto onde meu filho, então com 1 ano e meio de vida, passou a noite com uma arma na cabeça, sob meus olhos. Naquele momento, eu mataria para defender a vida dele, se pudesse, não serei hipócrita. Somente naquele momento e para salvar sua vida. Recebi “ofertas” de vingança depois, mas recusei. Já havia passado o momento e eu não tinha nenhum interesse em vingança. Que Deus (já que a Justiça dos homens jamais os encontraria) se encarregasse de cuidar dos assaltantes,eu não sujaria minha consciência com o sangue deles.
Enfim: passei a conviver em um ambiente antirreligioso e aderi, mas tinha algumas necessidades em minha alma que nunca haviam sido preenchidas. Busquei muito.
A vida deu muitas voltas. Trancos. Muitos. Trancos e quedas de barrancos.
Buscava em muitos lugares, leituras etc, o preenchimento daquele vazio. Mas não podia admitir a “caretice” de preenchê-lo na Igreja Católica, afinal eu era uma “quase-intelectual”, das Ciências Humanas, Sociais, Políticas e não poderia compactuar com a Igreja da Idade Média. (estou rindo de mim mesma por esta imaturidade).
Eu era jovem, insegura, não tinha a coragem que tenho hoje, de parecer esquisita e assumir isto, tanto no meio acadêmico por ser “católica de missa”, ou ser esquisita no meio religioso, por ser intelectual que defende que religião é assunto de Igreja, que a escola e o Estado devem ser laicos e que a legislação não pode se pautar na moral de uma religião. 
Bom, sou esquisita nos dois ambientes, mas sou “ok” comigo mesma.
Claro que me questiono diariamente sobre estes limites e procuro rever a cada dia esta questão, dado que falar na teoria é fácil, mas na prática é muito mais difícil. Como me perguntou uma aluna muito corajosamente: isto não seria hipocrisia? Pergunto-me isto a cada dia. Como conciliar a moral que adoto voluntariamente como cristã católica com a posição de professora , uma representante do Estado de Direitos? (atenção: representante do Estado, não do governo. Estado inclui a “vontade geral” da sociedade, o bem comum, a legislação, as políticas públicas, não  o governo. Toda instituição escolar é concessão do Estado e a suas leis deve respeitar, desenvolvendo, ainda, a função contra-hegemônica de transformação da sociedade).
Enfim, minha condição de cristã católica e intelectual das Ciências Sociais não é nada fácil nem simples. Examino minha consciência e procuro estudar todos os dias o assunto, por isto o Catecismo da Igreja Católica na mesa de Cabeceira e o livro do Terry Eagleton do outro lado da cama.
E tem um agravante: o padre da minha atual paróquia (Santa Teresinha do Menino Jesus) é “intransigente” (no bom sentido”), conhece muito bem tanto a Teologia quanto as Ciências Sociais e me “provoca” a refletir exaustivamente, não dá um minuto de sossego à minha consciência. Vive postando “inquietudes” no Facebook , mesmo quando está de férias.E isto me faz voltar lá no autor que ele menciona, reler o Manifesto Comunista, Raymond Aron. Sem falar no modo “zangado” como nos exorta nas Missas. Ele tem fortes argumentos, sustentados por textos dos autores das Ciências Sociais, que seleciona muito bem. Enfim, cumpre muito bem seu papel de pastor.
Voltando um pouco...
Duas décadas longe da Igreja.
Por maneiras diferentes, tanto eu como Luiz Cláudio nos reaproximamos da Igreja e tentamos influenciar Felipe, visto que não o havíamos feito na infância.
Lembro-me de Felipe falando: “Caraca, você e meu pai são muito igrejeiros, só sabem ficar me chamando pra ir à Missa, parece que não têm outro assunto”. “Caraca, acho que meu pai ainda é “pior” do que você.” 
E Felipe ria de seus “velhos pais”, com a superioridade de um jovem na casa dos vinte anos. A mesma superioridade com que eu ria de meus pais duas décadas antes.
Pois é... Luiz Cláudio era mesmo “pior” do que eu no quesito “querer levar Felipe para a Igreja.
Sua fé era inabalável.
Isto me conforta hoje, pois sei que nos quatro dias que passou no hospital antes de morrer, consciente, mas sem poder falar, não se desesperou.
Luiz Cláudio tinha uma fé que não lhe permitia desesperar-se.
Quando conversávamos sobre nossas preocupações com filho adolescente / jovem, eu era  “a desesperada”, sempre vendo alguma tragédia pela frente.
Luiz Cláudio tinha a mania de começar todas as frases, diante de um problema, com a expressão: “Que nada!”
“Que nada! Felipe é adulto, vai saber se safar”
“Que nada! Não vai acontecer nada de ruim com ele”
“Que nada! Vai dar tudo certo, está tudo nas mãos de Deus”
“Se alguma coisa ruim acontecer, nos entregaremos nas mãos de Deus, pois Ele sabe de todas as coisas.”
“Deixa de se preocupar. Se acontecer alguma coisa, teremos que nos conformar porque nada acontece contra a vontade de Deus”.
Enfim, esta era a fé que Luiz Cláudio encontrou/reencontrou e viveu nas últimas décadas de vida. Inabalável, sem questionamentos. Se os tinha, não expunha. Mas acredito que não tinha.
Já o meu caso é completamente diferente.
Eu me disciplino e ajo com fé, para ver se obtenho a fé.
Voltei à Igreja “na marra”, por um processo de depressão gravíssimo.
Não admito que se interprete isto como “prêmio e castigo”. Não fui “castigada” com a depressão por estar longe da Igreja, tampouco fui “premiada” por ter voltado.
Deus não tem carteira de clientes-fidelidade.
Seria uma  fé ridícula, aquela que acreditasse em um deus que assim procede. Um deus masoquista, que joga com as pessoas, premiando e punindo, chantageando. Realmente, errada ou certa, não acredito neste “tipo de deus” perverso.
Tive alívio da depressão com o retorno à Igreja, por uma razão muito simples: tinha um vazio em minha alma.
Claro que estou falando em “alívio”, pois depressão é uma doença clínica que requer tratamento medicamentoso e de psicoterapia. Mas o buraco da alma, que é um elemento desencadeador, só cada pessoa pode saber identificar e tentar sanar. No meu caso, é muito claro: minha profissão é desumana e desumanizante em muitos aspectos, embora seja a mais linda (aos meus olhos- se assim não pensasse, estaria em outra). Mas ser professora não significa apenas fazer aquilo que amo: entrar na sala de aula, dar aulas, estudar, ensinar, aprender, ajudar a formar pessoas, adotar os alunos como vice-filhos, pesquisar, escrever, ler .
Há um lado extremamente perverso e adoecedor, que é o convívio no meio acadêmico. A guerra de egos, as rivalidades, as decepções, a incoerência entre o que as pessoas falam/escrevem e o que praticam, a deslealdade como regra geral.
Isto adoece a quem não se ilude com a vanglória de títulos, plateias e “homenagens” efêmeras.
Adoece a quem não se ilude com os aplausos e sorrisos. A quem não “acredita” nisto como alimento para sua alma.
É claro que o reconhecimento profissional é muito bem vindo, pois é o resultado de décadas de esforço e dedicação, além do amor investido na profissão.
Mas não me iludo.
Não me alimento disto.
Sei o quão efêmeros são os sorrisos, elogios e aplausos e quão rapidamente podem transformar-se em punhaladas.
Já estou nesta profissão há 34 anos e tomo meu soro antiofídico diariamente.
E era este soro antiofídico que me faltava.
Costumo dizer (especialmente a um motorista de táxi que me conduz quando vou de taxi ao trabalho), que meu soro antiofídico é a Liturgia Diária da Igreja Católica, especialmente o Salmo do dia.Procuro ver pelo menos a parte da Liturgia da Palavra pela televisão antes de sair de casa. Vou me arrumando, tomando café e ouvindo.
Vivi cerca de 20 anos sem este soro antiofídico. Sei o valor dele hoje nas lutas diárias.
Sofri muito quando não o tinha, ou melhor, quando não o buscava.
Mas vamos ao motivo deste texto... Começo a escrever e divago, divago... quase não retorno ao ponto de partida. Aqui, posso. Nos artigos acadêmicos, não. Nos livros acadêmicos, não. Na correção das teses e monografias, não. Mas aqui posso.
Ontem conversava com uma amiga sobre esta minha relação esquisita com a Fé.
Eu não sei se a tenho, mas a procuro e ajo “como se”, ajo “como quem tem fé”, na esperança de que, de tanto tentar, um dia poder dizer de fato: eu tenho fé. Uma fé tão sólida como têm alguns amigos e como tinha Luiz Cláudio.
Há cerca de duas horas, comecei a ler um livro acadêmico, mas logo meus olhos se voltaram para um “livrão” de capa amarela que mora na minha mesa de cabeceira: o Catecismo da Igreja Católica. Um livrão de 937 páginas, que sistematiza a Doutrina da Igreja.
Não por coincidência, o marcador estava exatamente no capítulo sobre a Fé. Eu havia parado a leitura no final do capítulo anterior e deixei o marcador na página onde deveria retomar a leitura. Mas nem me lembrava de que era sobre a Fé.
Transcrevo aqui alguns trechos do Catecismo da Igreja Católica:

Pela fé, o homem submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus. Com todo o seu ser, o homem dá seu assentimento a Deus revelador. A Sagrada Escritura denomina ‘obediência da fé’ esta resposta do homem ao Deus que revela.” (p 48)

“Obedecer (‘ob-audire’) na fé significa submeter-se livremente a palavra ouvida(...) (p 48)

“A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente,  o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou.” (p 49-50)

“A fé é uma Graça” (p 50)

“A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. “para que se preste esta fé, exigem-se a traça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade.” (p 51)

“Crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um ato autenticamente humano. Não contraria nem a liberdade nem a inteligência do homem confiar em Deus e aderir às verdades por ele reveladas.” (p 51)

“(...) prestar, pela fé, plena adesão do intelecto e da vontade.” (p 51)

“Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina.” (p 51)

“Crer é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça.” (p 51)

“A graça da fé abre os olhos do coração.” (p 52, citando Ef 1, 18)

“(...)eu creio para compreender, e compreendo para melhor crer” (p 52, cit Santo Agostinho)
               
Fé e Ciência - Vejam que lindas diretrizes para os cientistas de todas as áreas”

“Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito humano da luz da razão. (...) Portanto, se a pesquisa metódica, em todas as ciências, proceder de maneira verdadeiramente científica, segundo as leis morais, na realidade nunca será oposta à fé: tanto as realidades profanas quanto as da fé originam-se do mesmo Deus. Mais ainda: quem tenta perscrutar com humildade e perseverança os segredos das coisas, ainda que disso não tome consciência, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta todas as coisas, fazendo com que elas sejam o que são.”


A Liberdade da fé

“(...) O homem deve responder a Deus, crendo de livre vontade. (...) ninguém deve ser forçado contra sua vontade ser obrigado a abraçar a fé. Pois o ato de fé é por sua natureza um ato voluntário” (p 53)

Finalizando:

- A  leitura destas páginas convenceu-me de que minha relação com a fé não é esquisita, como eu pensava até momentos atrás.

- É linda a definição da relação entre a ciência e a fé. A dificuldade é que, ao pautar-se por valores morais, o cientista- e isto é inevitável- pauta-se pelos valores morais aos quais dele adere, religiosos ou não.

- Reitero o desafio que me coloco diariamente para, concretamente, saber me posicionar nos dilemas éticos na escola.

 Este desafio é acrescido dos seguintes dados:

a- Na escola básica, especialmente na Educação infantil e primeiros anos, onde predominam entre os professores as religiões cristãs (católica e protestante), observa-se o preconceito e discriminação contra as religiões não-cristãs, o que fere a Constituição e a Legislação Educacional, além de ferir o bom-senso. Como dito acima, a fé é um ato de graça e DECISÃO, de LIBERDADE. Ninguém pode ser coagido, especialmente na escola laica, a aderir a alguma religião ou à fé.

b- Na universidade, ou já no Ensino Médio, observa-se a divulgação do conflito (falso, segundo  o texto acima, mas é falso aos olhos da Igreja Católica e, portanto, somente aos que a ela pertencemos, cabe tomar como princípio), entre fé e razão e uma coação ao ateísmo.

c- Como expressão do Multiculturalismo e ações afirmativas, entre outras razoes, a universidade está perdendo seu caráter laico para religiões de matriz africana. Vivemos um momento em que ‘é moda’ entre os intelectuais a adesão ao Camdomblé, Umbanda. Quando digo que é “moda”, considero, inclusive, que isto desrespeita a própria religião, pois torna-se objeto “cultural” simplesmente.
Não consigo aceitar que em uma Universidade como a UERJ, haja um grupo de pesquisa sobre Candomblé no Mestrado e Doutorado em Educação, composto por adeptos desta religião, como ação afirmativa. O espaço da universidade deve ser laico. Não concebo que dentro de um programa de mestrado e doutorado, uma atividade claramente de cunho religioso seja considerada como disciplina, compute créditos etc. 
O fato de que as religiões de matriz africana sejam discriminadas, como já afirmei acima, e que isto seja um erro da Escola Básica, não justifica a utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião. 
Do mesmo modo, não aceitaria que houvesse no mesmo programa um grupo da Renovação Carismática Católica, da Teologia da Libertação, da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Batista, da Assembleia de Deus ou outras.
Uma coisa é um programa de Antropologia ou Sociologia (e até mesmo a Educação ou outras ciências), por exemplo, ter como objeto de estudos a espiritualidade, religiosidade, religião, as religiões ou uma determinada religião.
Outra, bem diferente, é um grupo pertencente a UMA determina da religião criar dentro de uma universidade pública um grupo de estudos e pesquisas de adeptos e simpatizantes de SUA religião. 
O que vale para o Catolicismo e para o Candomblé tem que valer para a Igreja Universal, por que não?
Choverão pedras, eu sei. A turma da “tolerância intolerante” vai cair em cima de mim. Não tem  problema. Não concebo a utilização da universidade pública para a propagação de qualquer religião. Nem a minha nem qualquer outra.
Portar símbolos religiosos em seus corpos, em seu vestuário  é uma ato de liberdade e direito que deve ser preservado na escola. Já transformar uma determinada religião em atividade curricular de um programa de mestrado e doutorado  é um abuso, a meu ver, inclusive contra a própria religião.
Ciência na universidade, religião nos templos.
E cada sujeito, em sua consciência, faz a síntese baseada no respeito e nos princípios éticos (mais amplos e gerais) e morais(mais específicos de determinada comunidade de práticas).
Escola laica é lugar de ética, não de moral religiosa como currículo.
Daí o meu conflito. De fato, a universidade hoje não é laica. Seja pela imposição do ateísmo, seja pelo modismo das religiões de matriz africana.
Até onde e quando compactuar?
Meu filho estuda em uma universidade católica , mas não há sequer traço disto em eu currículo, assim como quando estudou no Colégio Nossa Senhora do Rosário.
E poderia haver, pois você escolhe estudar em uma escola confessional porque a tal fé professa, ou, pelo menos , está consciente do que é uma escola confessional.
Que hajam escolas confessionais de todas as religiões, se assim desejarem. Mas a escola pública é laica. Não é cristã, não é muçulmana, não é budista, não é umbandista, não é ateia. A escola é laica. Os sujeitos podem ou não professar sua fé com liberdade, mas a escola não pode assumir NENHUMA religião ou o ateísmo como conteúdo curricular (do currículo explícito ou do oculto)
Já conversei sobre isto com duas pessoas (queridas MESMO) que fazem parte do grupo em questão (curiosamente, ambos meus ex-alunos). E lhes fiz esta pergunta: e se fosse a Igreja do Evangelho Quadrangular ou a igreja Universal? Seria um escândalo. A notícia estaria em todos os jornais e os intelectuais estariam se manifestando contra nas ruas.

Bom, o debate é intenso. Vamos a ele!

Cinquenta anos

Cinquenta anos
Escrito em 4 e 5 de março de 2014.

Não vivi a “crise dos quarenta”, estava ocupada demais, preocupada demais.
Lembro-me  da “crise dos trinta”, mobilizou-me um pouco. Fazer trinta anos foi muito mais significativo do que quarenta,  considerando o impacto de pensar no “envelhecimento”. Estava saindo da casa dos vinte:  estaria me tornando uma “balzaquiana matrona” ou uma “nova mulher de trinta”, “gatinha”?
Aos trinta, já trazia uma história comprida. Já tinha um filho de nove anos, dois empregos públicos desde os dezoito, um mestrado interrompido “para ser mãe de porta de escola” por um tempo, e já retomado, o qual estava concluindo.
Já tinha também alguma experiência como professora universitária, iniciada aos vinte e seis. Estava construindo minha casinha, tinha meu carro e telefone. Sim, telefone naquela época era um bem caríssimo e dificílimo de conseguir, pois você entrava na fila de espera da antiga Telerj, depois Telemar, depois Oi. O preço equivalia a um carro e a espera, por vezes, durava anos. Era comum alugarmos linhas telefônicas.
Nasci em tempos pré-históricos, meus jovens: tempos em que telefone era símbolo de “riqueza”, não havia internet, nem Banco 24 horas, cartão eletrônico, nada disso...
Velhíssimos tempos, crianças pós-Steve Jobs e Bill Gates.
Concluindo: estava saindo da casa dos vinte anos com uma bagagem considerável de vida. E de dores, angústias, tudo o que todo mundo tem.
Cabelos compridos desde sempre. Foi no meio da década dos trinta que assumi o corte Chanel, do qual me “libertei” aos 50, mas já estou com saudades, impaciente, com o cabelo naquele corte desconfortável conhecido como “esperando crescer”.
Os trinta chegaram e passaram voando.
Ao final da década do trinta, lecionava em quatro faculdades privadas (em oito campi diferentes) cursava o doutorado  e cuidava de casa e filho. Mulher normal.
Os quarenta chegaram meio despercebidos. Sem muitos questionamentos. Eu havia terminado o doutorado, feito o concurso e ingressado em uma instituição federal. Muitas ocupações, como sempre.
Não me lembro de uma fase da vida sem muitos afazeres e preocupações. Aos nove anos, de vez em quando, ajudava a uma senhora idosa: encerava sua casa, ia ao açougue, farmácia. E ganhava uns trocados por estas tarefas. Aos doze, comecei a lecionar em casa, alfabetizando crianças da vizinhança e fazendo reforço escolar, Aos quatorze, ingressei no mundo do trabalho formal: balcão de padaria, loja de roupas e secretaria de uma paróquia. Aos dezessete, comecei a lecionar em uma escola privada. Aos dezoito, concursada, em uma escola municipal e outra estadual.
Aos quarenta,  filho entrando na maioridade, novas atribuições no trabalho, nada que me fizesse parar para pensar nos “quarenta”.
Mas os cinquenta... ah, os cinquenta...
Chegaram no dia 7 de junho de 2013. Um dia “normal”. Não comemorei. Ainda estava vivendo um luto. Não tive vontade de comemorar nem os 49 nem os 50. Sem clima. Sou antiga, vivo lutos.
Mas os cinquenta vieram acompanhados de profundas transformações. Por motivos vários, por perdas diversas, por dores infinitas, precisei mudar.
Mudei muito na virada dos quarenta para os cinquenta.
Atraí desafetos.
Criei coragem.
Mais coragem.
Enfrentei dores, perdas, ausências, reorganizações da vida.
Sofri. E passei a desagradar a algumas pessoas.
Até ali, eu era uma pessoa que ocasionalmente tinha meus arroubos, mas, em geral, era muito tolerante aos abusos e invasões. Justamente minha tolerância silenciosa me levava a explodir para “surpresa” das pessoas, que desconheciam os precedentes de tolerância silenciosa.
Resolvi perder a linha e colocar a boca no mundo.
Ter cinquenta anos me permitiu.
Falei.
Falei muito.
Escrevi.
Coloquei minha raiva para fora.
Publiquei no Facebook.
Desagradei.
Escandalizei a “moralistas” e “puritanos” que se chocaram quando coloquei muita raiva para fora. Como eu poderia expor minha raiva daquele jeito? Raiva é para ficar escondida.
Mas eles nunca estiveram no meu lugar. Nunca passaram pelas “esquinas por que passei”.
Perdi algumas amizades  e sofri, sofro visivelmente, o abalo de outras.
Nada a fazer.
Não agredi a ninguém, apenas coloquei para fora a raiva por ter sido agredida.
Os cinquenta anos me permitem ser um pouco – e saudavelmente- adolescente e dizer: Gosta de mim? Precisa gostar na totalidade. Não gosta? Lamento. Tenho defeitos e qualidades, ou melhor, qualidades positivas e negativas. Qualidades que agradam a uns e desagradam a outros. Tenho, sobretudo, um compromisso: ser fiel a mim mesma. Isto significa ser fiel ao que mais prezo: lealdade.
Deslealdade não cabe mais em minha vida.
Posso escolher.
Grandes e pequenas deslealdades, puxadas de tapetes, rivalidades, punhaladas nas costas... hoje posso escolher manter distância.
Escolho manter distância de pessoas tóxicas ou relacionamentos tóxicos.
Dói.
Perdas sempre doem.
Entretanto, aprendi no dia 22 de outubro de 2012, quando sofri um AVC tentando ser mais forte do que sou, tentando controlar a vida, que eu simplesmente não tenho nenhum poder. Isto é libertador. Isto me permite ser quem sou. Uma pessoa que, antes de tudo, preza a lealdade.
Lealdade. Não sou estudiosa de etimologia, embora o assunto me apaixone. Não vou olhar no Google, vou simplesmente especular. Lealdade teria a mesma origem etimológica que leão? Se não tiver, no meu dicionário etimológico existencial tem.
Lealdade me lembra a força e a persistência do leão. A nobreza do leão. A majestade.
Pessoas que sabem valorizar a lealdade são nobres, majestosas.
Estas, eu quero perto de mim.
As desleais ou as que compactuam com as grandes e pequenas deslealdades, não me fazem falta.
Isto não quer dizer que não me doa seu afastamento.
Dói sim, mas eu preciso saber em que terreno estou pisando.
No mundo do trabalho, necessitamos conviver com regras cada vez mais produtoras de deslealdade: a competitividade, as vaidades etc.
Mas na minha vida pessoal, quem estabelece quem receberá  pulseira vip sou eu.
Ou melhor, são as atitudes das pessoas.
Eu apenas tenho os critérios.
E o critério é essencialmente um: lealdade. Com tudo que a acompanha. Desde os pequenos aos grandes gestos e atitudes cotidianas. Desde o respeito às pequenas coisas ao apoio em grandes momentos.
Lealdade é o “anel de brilhante” que dei a mim mesma como presente de aniversário de cinquenta anos. Lealdade de mim para comigo e exigência de lealdade nos relacionamentos que compõem meu universo afetivo.
E de hoje em diante não transigirei mais com isto. Não vou passar a vida brigando com as pessoas, mas vou munir-me de uma “borracha escolar” para ir apagando nomes, sem apego.
E agregando outros, grifando aqueles que sempre estiveram ali e sempre estarão.
Não tenho nenhum medo da solidão.
Por duas razões: porque sei que tenho a sorte de ter alguns amigos e familiares leais e porque, mesmo se não fosse este o caso, preferiria minha própria companhia à das pessoas desleais. Não é confortável você precisar viver encostada na parede porque, se desproteger as costas, poderá sofrer uma punhalada.
Nos últimos dois anos a vida me expôs a uma dura realidade: nós perdemos pessoas e não podemos fazer NADA a respeito disto. Se, por um lado, vivi toda a dor das perdas, por outro, aprendi a me conformar com outro tipo de perdas, com as perdas em geral. Simplesmente não tenho controle sobre elas. De nada adianta me apegar porque, como disse Chico Buarque, “vida veio e me levou”.
Levou-me para um lugar onde me identifico mais com a contemplação resignada do heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, do que com  os “trágicos” Ricardo Reis e Álvaro de Campos, outros heterônimos do mesmo poeta.
Tudo isto parece muito amargo. Mas não sinto assim.
Apenas resignação. E uma sensação de libertação.
Libertação de tantos fardos.
A vida é assim e não me pede autorização para isto.
A vida nunca me pediu autorização para retirar do meu convívio pessoas queridas.
A vida nunca me pediu autorização para sofrer pequenas e grandes traições e deslealdades.
Então, é isto: a vida não me pede autorização.
Não posso, portanto, ocupar-me disto.
Cabe-me tão somente estar.
 Ser.
 Aceitar.
Sobreviver.
Viver.
Lembro-me de que há vinte anos, quando meu avô morreu, após alguns dias internado, a despeito de todas as preces da família, me veio igualmente esta sensação de resignação. “Vida veio e me levou”.
Há perdas que acontecem e contra as quais nada podemos fazer.
Perdas por morte e perda por afastamento.
Vinte anos depois, fazendo o balanço das perdas de 2012 e 2013, sinto- me ainda um pouco mais resignada.
E um pouco mais sábia diante das perdas.
Nem todas são para o mal. No caso da ausência do meu filho, que foi estudar no exterior, o meu “grude” de uma vida inteira, que atravessou mares para crescer sozinho, é um dor “do bem”. Nem por isto dói menos. Mas foi uma perda “do bem”
Nos casos das oito mortes de pessoas que faziam parte de minha vida havia décadas, todas da minha idade, não posso de modo algum dizer que foram para o bem, mas simplesmente aconteceram.
Antes da hora.
Em um caso específico, no caso do Luiz Cláudio, muito antes da hora, muito mais do que eu poderia suportar.
Mas sobrevivi.
Relendo o que escrevi em meu diário há cerca de um ano e meio, eu mesma me assusto. Como suportei? Como pude sentir tanta dor e estar aqui hoje?
Quase morri, tive um AVC.
Mas sobrevivi.
E, se sobrevivi, não é para ter uma vida qualquer, não é para “engolir a seco” e tolerar condutas não dignas de mim.
Sobrevivi para me respeitar e me fazer respeitar.
Para saber que, se eu tomo partido, as pessoas também tomarão.
Que se eu coloquei limite em uma amizade que se colocou sob condição para permanecer (amizade, penso eu, é incondicional – e era um condição absurdamente fútil), imediatamente após, deixei de ser convidada para duas festas de aniversário de amigas comuns. Uma, inclusive, já havia falado que ia comemorar e me convidar, até porque gostaria de reunir todo mundo e mencionou especificamente a pessoa com quem eu havia tido o problema. Apenas comentei: Legal, irei sim!
Nem mencionei o fato.
As semanas passaram, não recebi o convite e vi as fotos no Facebook. Ok. Compreendo. As pessoas têm todo o direito de “achar” que sou intransigente e não serei eu a tentar convencê-las. Foram curiosamente duas festas de aniversário na mesma semana. Nenhuma das duas me procurou para ouvir minha versão. Ok. Sem mágoas. Mesmo.
Aos cinquenta anos, não posso mais usar meu tempo tentando convencer ninguém de que tenho razão, ou quais são as minhas razões. Simplesmente serei eu. Do meu jeito. Prezando a lealdade e a incondicionalidade de uma verdadeira amizade. Amizade sob condição de que eu faça o que a pessoa pensa que é o mais certo para mim, não é amizade.
Sou assim.
Não me intrometo nas decisões alheias.
Passo por omissa.
Há pessoas que gostam que os amigos deem broncas, deem diretrizes às suas vidas, decidam o que devem fazer, cobrem atitudes, dizendo: “você TEM que fazer isto, você TEM que terminar tal curso, você TEM que sair de tal trabalho...”
Ambas têm as melhores intenções. Tanto as que fazem isto, quanto as que esperam isto dos amigos.
Nem faço, nem tolero que façam comigo.
Para mim, o verdadeiro amigo é aquele que respeita e apoia as decisões do outro, que dá colo. As pessoas são adultas e têm o direito de decidir sobre o que preferem, sem interferências, a menos que estejam pedindo um conselho, penso eu.
Assim me conduzo com meus amigos.
Não sou uma pessoa “em cima do muro”, apenas tenho um profundo respeito pelo direito de cada um decidir o que é melhor para SI. E eu, para MIM.
Amizade, em minha concepção, não é um tapete de pregos, é uma almofada aconchegante.
Como tapetes de pregos, já bastam os desafetos, os egos competitivos. O “mundo lá fora”.
De amigos, eu espero carinho e conforto.
Simplesmente, não gosto que arbitrem sobre minha vida. E, por esta razão, não arbitro sobre a vida dos amigos, embora me importe (muito) com sua felicidade. Alias, não arbitro exatamente porque me importo. Não tenho a pretensão de saber o que é o melhor para o OUTRO.
Mas, como “Narciso acha feio o que não é espelho”, muitas pessoas pensam que o único jeito certo de ser é o delas. Vamos seguindo a vida com algumas surpresas.
Há pessoas que não conseguem um mínimo de descentramento, só conseguem admitir que os outros façam aquilo que elas consideram o correto.
Outras, tomam partido sem conhecer os fatos.
Outras, tomam partido conhecendo os fatos.
Nada disto é errado.
Simplesmente é.
Simplesmente acontece assim.
A vida me encanta, mesmo assim.
Este não é um manifesto de amargura.
É um manifesto do balanço de meio século de vida, a fim de bem viver a outra metade de século que desejo viver.
Sinto muita falta das pessoas que perdi. Das que perdi para a morte e das que perdi para o fim ou para o estremecimento da amizade.
Mas é simplesmente assim que a vida acontece.
Da mesma forma que jamais poderei ter de volta as pessoas que se foram por morte , também não me apego à ideia de ter de volta aquelas que se foram por não suportar meu “novo” jeito de ser, após meu renascimento.
Fazer o quê? Sentir saudades, tanto de umas quanto de outras. Lamentar as perdas, tanto de umas quanto de outras.
Fazer o quê? Telefonar menos para aquelas que percebo desinteresse em retornar as ligações.
Deixar de escrever para aquelas que nunca respondem, por terem se escandalizado com o fato de a “menina bem-comportada” ou a “professora-doutora” colocar algumas raivas para fora, expor as próprias feridas.
Tem gente que não gosta, que não suporta.
É um direito delas.
E é meu direito ser do modo como sou, como acredito.
Não tenho tempo para desafetos.
Tenho tempo para os afetos.
Tenho tempo para a música.
Tenho tempo para aprender e ensinar, que amo.
Tenho tempo para me divertir com pessoas leves.
Tenho tempo para aprender a ser leve.
E ser leve significa me desapegar de “afetos tóxicos”.
Ser leve significa cultivar boas amizades que não apertam como nós, mas que acariciam e enfeitam, como laços, que enlindecem a vida.
Quero pessoas na minha vida com vocação para o enlindecimento.
Não quero pessoas controladoras, donas de verdades, ácidas.
Não quero juízes.
Quero apenas seguir sendo eu.
Aceitando-me com meus lados de que gosto mais e os de que talvez goste menos, meus limites, mas pelos quais sinto carinho, pois me constituem e me ajudam a viver.
Penso aqui em quantas pessoas enlindecedoras conheço há muito tempo e não tenho me dedicado tanto a passar algumas horas com elas para enlindecer mais minha vida.
Outras, igualmente enlindecedoras, conheço há menos tempo.
Este é um manifesto pela leveza.
Aos cinquenta anos, me devia este presente: permissão para simplesmente ser e estar. Do meu jeito. Sem ferir, sem me deixar ferir.
Enlindecendo a minha vida e a de quem souber ver em mim alguma fonte de enlindecimento de suas vidas.


















segunda-feira, 3 de março de 2014

Uma noite em um outubro remoto

Escrito em outubro de 2012
Flocos de/da alma nos constituem há tanto tempo, que nem mais sabemos dizer se estiveram sempre ali ou se foram chegando pouco a pouco, a cada dor engolida, a cada medo enfrentado, a cada remorso acomodado, a cada decepção redundante.
Onde se acha una vacina que previna decepção redundante? 
A cada acometimento, essa enfermidade parece mais vigorosa, ao contrário do que deveria ser, se aprendêssemos, por ensaio e erro, a preveni-la (ao menos as maiores).
 Mas qual: a cada novo acometimento é a dor primeira. 
A dor e a vergonha da própria ingenuidade, da ingenuidade de se deixar iludir mais uma vez com o falso bem.
Vergonha, como se "ser grande" significasse ser malicioso e prever o desvio, ainda quando o olho pode vislumbrar somente linhas retas.
"O mundo é dos desleais mesmo, você devia saber".
Que natureza sustenta esses flocos?
Que alternância química permite fibrosidade a uns e delicada etereidade a outros?
E como se complementam assim, o bruto e o etéreo, sendo duplo e uno, mas sempre uno?
Sonho ser só fibra, uma alma tecida em fibra resistente. Dessas que não se lhes permeiam chuvas, ventos, frio, nada se lhes atravessa.
Fortes!
Sempre prontas para resolver tudo, para seguir em frente e para anunciar: reaja, seja forte, a vida continua, a vida continua, a vida continua, o show não pode parar. Não perca a próxima festa!
Onde compraram essa fibra, que não veio no meu pacote?
Como a implantaram?
Ou, pior, será que já nasceram assim?
Teria eu alguma falha genética?
Ou você é um ser de aço, mesmo frente às dores mais injustas, um ciborgue emocional, ou é uma "maria-mole", condenada a não se aprumar no tempo médio esperado para esta operação.
O que é aprumar-se, se os flocos estão encharcados e mal se acomodam enroladinhos, disformes, desorganizados?
Qual o prazo aceito para sofrer uma perda?
Que incidente é esse -  numa multidão de contentes - que desorganiza a euforia, a ponto de  o sofrer de uma pessoa descaber no conjunto?
Desorganiza não apenas porque o conjunto receie perder o ritmo de seu eterno carnaval por precisar solidarizar-se se um folião. tirar a máscara por um tempo e mostrar um rosto marcado por lágrimas insones.
É esse conviver com o outro sem a máscara, ali, mostrando que lhe dóem os flocos de alma, o que desestrutura a folia e dilui a tese do hedonismo absoluto.
Ah, me deixa.