Ouço Padre Fábio de Melo dizendo em seu Programa Direção Espiritual : "Há situações em que sofremos a morte de um ente querido e levamos anos e anos para acomodar aquela dor dentro da gente, em harmonizar aquela ausência dentro da gente."
Aí, naturalmente me vem à cabeça. É o que eu vivo dizendo: a gente não pode banalizar a morte de pessoas queridas, negar o sentimento da perda, do luto, jogar tudo isto para baixo do tapete, e seguir em frente, go on, go on, o mundo não pode parar, a vida continua....
Não, não é bem assim.
Que lutofobia é esta que nos retira o direito de continuar convivendo com um ser querido que partiu, mesmo que esta convivência seja através da dor, do luto, do sofrimento e da perda assumida?
É preciso passar por dentro do luto para sair dele. Não adianta tentar contornar, ele vai te pegar na curva.
Não fuja da dor. Ela faz parte de você , na mesma medida em que a pessoa que partiu foi importante para você.
Repeti muito uma frase nos últimos 4 anos: a vida continua, mas não precisa ser agora.
E não adianta fazer uma tabela com cronograma. A reestruturação vai se dando aos poucos, com avanços e recuos, com surpresas, com momentos de alegria no meio da dor e momentos de dor no meio da alegria.
E daí? A gente vai morrer por isto? Se a gente se cuidar (verdadeiramente, não apenas aparentemente) a gente não vai morrer disso não.
Se você passar um ano, dois anos, sem vontade de ir a uma festa, simplesmente não vá
Se permita.
Não dura a vida toda.
Você vai voltar a ter vontade de ir a festas, a cantar e a dançar.
E vai se surpreender com isto.
Assim como vai se surpreender com as recaídas da dor.
Que lutofobia é esta que nos faz varrer a memória daquela pessoa e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido?????
Morte dói, gente, e é preciso ter a coragem o heroismo de enfrentar a dor. Coragem e heroismo não é seguir em frente, é , ao contrário, se dar o direito de olhar no espelho e assumir: estou sofrendo, sofri uma perda, minha vida nunca mais será a mesma, está sendo e será muito difícil, mas um dia, sem pressa, eu vou aprender a viver com isto. Isto é coragem! Saber que a vida nunca mais será a mesma, que aquela dor não tem remédio e que, quanto mais eu fujo ou nego, pior fica. Histeria e euforia disfarçadas em uma alegria neurótica só nos levam a uma futura melancolia (Esta ideia é de Freud, não sou eu que estou jogando praga de melancolia em ninguém)
Sejamos generosos com nossas dores. Acolhamo-las. Elas também nos constituem sim.
E todas as vezes que eu ouvir uma música, sentir um perfume, vir uma paisagem ou um lugar que me lembra quem partiu, vai doer sim.
Isto é "bacana" ?
È "tranquilo e favorável"? Não. Claro que não. Sem chance. No way no.
Mas a outra opção é muito pior.
É viver uma vida falsa, uma alegria falsa.
Digo isto a respeito de mim mesma, de minha experiência de perda. da minha entrega à dor da perda, sem medo dela, embora ela seja terrível.
E das cobranças do "calendário da dor". Que gente chata!!!!! Que gente intrometida com um lutômetro na mão me dizendo quanto tempo deve durar o meu sentimento. Gente muito chata mesmo. E vão nos acuando, nos coagindo , agindo coercitivamente, achando chato conviver com a gente. Ah, dane-se quem pensa assim.
Isto não é masoquismo. É ter o pé na realidade. Eu perdi bruscamente, num acidente de carro, uma pessoa que fez parte da minha vida durante 42 anos.
Eu posso achar que minha vida vai ser a mesma sem ele aqui na Terra, sem eu poder ligar para ele ou chegar à minha casa e não mais encontrar seus recados na secretária eletrônica?
Óbvio que não.
Nem quero isto.
Mas eu tenho a coragem de enfrentar e assumir a dor, de assumir a depressão (buscando tratamento, claro). Isto, sim, é ser forte. "Quando me sinto fraco é que sou forte." (São Paulo Apóstolo)É ´preciso ser muito forte e seguro para se permitir ser genuinamente fraco. E não morrer por isto.
Relendo, vi que posso ter magoado alguém. Não foi minha intenção. Eu sei que até para sofrer, às vezes precisamos de um tempo, que Freud chamava de Negação, para que nossas forças se reúnam. Apenas estou dizendo que não aceito a lutofobia, o horror que as pessoas têm da dor da perda, do luto (luto não é vestir preto) e como rejeitam aqueles que assumem o sofrimento (não rejeitam a pessoa, necessariamente, só não consegue conviver com o outro sofrendo, mesmo por compaixão) . E cada um sabe do seu coração. E reage como pode.
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