No final dos anos
oitenta, precisamente em 1989, eu tinha
um aluno muito carinhoso, alegre, meio gordinho, com os cabelos meio
castanho-louros cacheados.
Charles , ou Charlinho,
como era conhecido na família e pelos colegas.
Voltava sempre suado do
recreio. Esbaforido.
Estudioso.
Lembro-me de que fazia
parte da melhor turma da 4ª série. E que a família era muito presente na
escola. Ele morava na rua imediatamente paralela à minha e a escola ficava
(ainda fica) no mesmo bairro.
Certa tarde de sábado,
toca a campainha do meu portão e era o pai do Charlinho, que, se não me falha a
memória, morreu há cerca de um ano.
O pai me perguntou:
professora, a senhora já corrigiu a prova do Charlinho?
Pensei: “Eu mereço”, agora os pais vêm buscar as notas
em casa sábado à tarde.
Aí o pai justificou,
desculpando-se:
“Desculpe, professora,
mas amanhã é o aniversário do Charlinho (ou dia das crianças, não me lembro bem) e eu tinha prometido a ele que só daria
o presente e o levaria para passear se ele tirasse boas notas.
Inspirei, respirei ,
não pirei e tranquilizei o pai, sem precisar consultar as provas, pois
Charlinho era excelente aluno.
Charlinho, que estava junto com o pai, se abre
num sorriso de meio metro e fala: eu não disse?
Passei 25 anos sem notícias de Charlinho.Saí da
escola , me exonerei do Município, mudei-me para a Zona Sul (70 km daqui),
onde morei por 15 anos,e só voltei há um ano.
Mas sempre me lembrava
daquele menino com cara de anjinho barroco, como sempre me lembro de meus alunos do "primário".
Há duas semanas, cheguei
a falar aos meus alunos: vocês me perturbam tanto para saber nota, que parecem
o pai do Charlinho. A diferença é que naquela época não havia internet, então
os pais apressados batiam no meu portão. Então contei, como contara outras
vezes, o episódio do pai do Charlinho.
Como morei 15 anos longe
do bairro e voltei há um ano, nunca mais tive notícias de muitos dos meus
ex-alunos.
Logo ao voltar ao
bairro, vi a repercussão de um tiroteio que aconteceu dentro de uma boate aqui
em Campo Grande há um ano. Mas não sei quem faz o quê , nem quem são as pessoas
que fazem parte destas organizações. Nem quero saber.
Hoje, para minha
profunda tristeza, logo cedinho, ligo a televisão e vejo Charlinho, ainda gordinho, mas já sem o
sorriso e os cachinhos de anjinho barroco, cabeça raspada, preso como acusado
de um homicídio. Identificado como segurança de líderes de uma facção do poder
alternativo da região, acusado de matar um agente penitenciário que
estava na boate fazendo a segurança privada de outro líder de facção.
Não quero aqui entrar
em discussões nem julgamento de valores ou análises sociológicas sobre os poderes oficiais e paralelos
nesta região. Nem entrar no mérito da conduta de Charlinho, da prisão, nada
disto.
Aliás, meu choque foi
exatamente porque, mesmo morando de volta ao bairro não conheço, não sei quem
são as pessoas que trabalham neste poder alternativo ao poder do Estado. Para mim, são abstrações e me doeu ver que eles têm nome, uma história, tiveram uma infância, e, entre eles, estava um dos meus "pintinhos".
Não é do exercício de poderes locais que quero falar. Quando falo que são abstrações, tenho minhas razões, que não vêm ao caso. Não procuro mesmo saber quem é quem no bairro, não sou investigadora e prefiro ficar na ignorância. (E não é por covardia ou omissão - como disse, tenho meus motivos)
Não é do exercício de poderes locais que quero falar. Quando falo que são abstrações, tenho minhas razões, que não vêm ao caso. Não procuro mesmo saber quem é quem no bairro, não sou investigadora e prefiro ficar na ignorância. (E não é por covardia ou omissão - como disse, tenho meus motivos)
Quem fala aqui é uma
professora, que, se procurar em suas pastas, é bem capaz de encontrar um
bilhetinho ou um desenho de Charlinho
com uma dedicatória, um coraçãozinho,
como sua turma, a 401, gostava de fazer.
Segundo a matéria
jornalística, Charlinho ingressou na facção como entregador de quentinhas e
depois passou ao cargo de segurança , o que lhe valeu este desfecho: assassinar,
não um agente penitenciário no exercício de suas funções, mas um agente
penitenciário que, na folga, estava fazendo a segurança pessoal de outro líder de poder paralelo, assim como Charlinho
fazia a segurança do que levou o primeiro tiro. (Sem julgamento de valor, isto
não é agravante nem atenuante e nem é minha intenção).
Não gostaria de estar
no lugar da mãe do segurança que, segundo o inquérito teria sido assassinado
por Charlinho.
Quem fala aqui é a
mesma professora que alguns de vocês já leram em meu livro “Listrinho”. Uma
galinha e seus pintinhos, uma pata e seus patinhos. Uma mãe que acha que seus filhos/alunos serão sempre bebês.
Que não entende que
aquelas crianças que brincavam no recreio tiveram destinos tão diversos.
Gosto de ver, por
exemplo, que Rogério é o proprietário da maior padaria do bairro, A Padaria
Manah, um empreendedor que deu certo.
Gosto de ver, por
exemplo, outro ex-aluno de microfone em punho como jornalista na televisão, o
Caio. Aluno de quem me lembro correndo de bicicleta pela rua.
Gosto de ver a Flávia
fazendo sucesso com sua empresa “Flávia Festas”.
Gosto de saber que a
outra Flávia tornou-se professora.
Relatei em Listrinho
meu encontro décadas depois com Jorginho, me dizendo que fui a única professora
que lhe deu uma chance após 5 anos de repetência, e que depois ele não tinha
parado mais: Cursava duas universidades. Uma federal e outra privada.
Gosto de saber notícias
de meus ex-bebês, como nas histórias relatadas em “Listrinho”.
Gosto de ver o jogador Thiago Silva, que mesmo não tendo sido
meu aluno, mas estudou em outra escola pública próxima, com o bracelete de
capitão da Seleção Brasileira, emocionado, cantando o Hino Nacional antes dos
jogos da Copa. E torço para vê-lo levantando a Taça, apesar de todos os motivos
para sermos contra os gastos governamentais com a Copa.
Como disse, quem
escreve aqui é um coração de educadora, que chega a se perguntar: será que se
um dia eu tivesse falado ou feito alguma coisa diferente, durante aquele ano
inteiro em que tive Charlinho sentado à minha frente todos os dias, isto
ficaria no coração de Charlinho e ele não entraria neste caminho?
Coisa de professora.
Não quero discutir
politicamente ou sociologicamente o histórico desta forma de poder na Zona
Oeste.
Queria apenas saber o
que aconteceu entre aquele dia em que o pai ansioso bateu à minha porta para perguntar
se o Charlinho tinha tirado nota alta , merecendo, portanto, o presente de aniversário
e o dia de hoje, quando acordo, ligo a TV e vejo Charlinho algemado, de cabeça baixa, na televisão.
Não estou acusando nem
defendendo Charlinho adulto. Estou apenas tentando entender o que aconteceu entre
aquele Charlinho de 1989, o meu anjinho barroco gorduchinho e meio dentucinho, afetuoso, e o Charlinho
de 2014, procurado pela polícia há um ano, que começou entregando quentinhas e
terminou como segurança privada de um líder do poder local.
Olho nos jornais e nos sitios eletrônicos o rosto do Charlinho procurado, do Charlinho preso. O "meu" Charlinho tinha 10 anos, este tem 35. Mas em seu rosto, mudado com o tempo, eu ainda vejo alguns traços daquele menino e me chocam as legendas: "Preso o miliciano mais perigoso da Zona Oeste, o Charlinho de Cosmos".
Estou triste, muito triste. Com todo o respeito pela dor das pessoas que, porventura ,possam ter sido afetadas por possíveis ações do "Charlinho de Cosmos". Eu não falo do "Charlinho de Cosmos", procurado pela polícia durante um ano. Falo do Charlinho de 10 anos de idade, brincando no pátio da escola em 1989.
Olho nos jornais e nos sitios eletrônicos o rosto do Charlinho procurado, do Charlinho preso. O "meu" Charlinho tinha 10 anos, este tem 35. Mas em seu rosto, mudado com o tempo, eu ainda vejo alguns traços daquele menino e me chocam as legendas: "Preso o miliciano mais perigoso da Zona Oeste, o Charlinho de Cosmos".
Estou triste, muito triste. Com todo o respeito pela dor das pessoas que, porventura ,possam ter sido afetadas por possíveis ações do "Charlinho de Cosmos". Eu não falo do "Charlinho de Cosmos", procurado pela polícia durante um ano. Falo do Charlinho de 10 anos de idade, brincando no pátio da escola em 1989.
Ass: Coração ferido de uma professora. Apenas uma
professora.
Triste...mas com a certeza de q "salvaste" muitos "Charlinhos"...E até este. É...segue a semeadura!Ainda existem muitos por aí...por aqui...Daniel 12:3 Bs no coração!
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