Repensando Paris: Daniela VallaAlzira Espinola. Flavia Botelho, Gilda Laplace Mônica Paranhos e todos os amigos que ficaram chocados com meu "ódio à primeira vista" por Paris. (na verdade, os responsáveis são os parisienses que encontrei em minha brevíssima passagem de quatro dias, especialmente os funcionários do Banco do Brasil- neste caso, brasileiros, contaminados com o jeito rude de ser).
Meses passados, me supreendo reconsiderando, o que desmente a tese da "primeira impressao". Sim, eu acredito em "Amor à Segunda Vista"(amo um filminho com este nome, acho que com Sandra Bulock ou Julia Roberts, que penso serem a mesma pessoa).
Meses passados, coração refeito, cabeça fria, vendo alguns programas de televisão sobre Paris e arredores nos últimos dias , morri de saudade e vontade de voltar (desta vez com cartões de dois bancos diferentes pra garantir).
Me retratando e em minha defesa, passo aos atenuantes do crime de "parisfobia":
Reservei meses antes um hotel sugerido por Flavitcha em Montmartre, o bairro dos Exist4encialistas dos anos 50, o bairro do meu imaginário, me sentindo a própria Simone de Beauvoir.
Gostei do hotel.
Primeiro erro: cheguei dia 30 de dezembro. Os cafés não estavam civilizados, calmos, cheios de mesas livres e algumas esparsamente ocupadas por alguns circunspectos intelectuais Existencialistas(até servia um pós-moderno, ok) nas mesmas mesas , com uma xícara de café , lendo e tomando notas manuscritas, onde se sentaram Camus, Sartre,ou mesmo os vivos, como Dejours etc. Estavam tomados por hordas de turistas histéricos porque o Reveillon, para eles, deve ser sinal de fim do mundo. Pior do que Copacabana. Meu mundo construído desde que descobri o Existencialismo caiu ali, na hora.
Pior: viajei confiando apenas no Banco do Brasil e o cartão foi bloqueado para saques, débito e crédito, sem justificativa, a não ser o sistema considerar operações suspeitas eu pagar o próprio cartão em meu nome e tirar um extrato, dentro da agência.Os funcionários, mesmo diante de meu passaporte, cartão , identidade brasileira e tudo o que vcs podem imaginar, me mandaram rudemente resolver na minha agência, como seu eu pudesse me teletransportar de Paris ao Rio de Janeiro sem um centavo na carteira(alguns).
Sim, mesmo tendo viajado um dia após terminar a maratona de correção de provas, eu havia tomado TODAS as providências , incuindo a autorização para usar o cartão no exterior. E não limitei o pedido de autorização de uso à Bélgica, que seria meu "quartel-general", mas a toda a Europa, para o caso de eu me deslocar. Não deu certo.
E, de um modo bem surrealista, o próprio banco me manda um SMS com a seguinte frase: "Operação suspeita em seu cartão, procure seu gerente". Mostrei à fucnionária para provar, mais uma vez, que eu era eu mesma, pois o SMS havia sido enviado para o celular cadastrado.
Mais motivos para o choque e a parisfobia: Como disse, cheguei à cidade em 30 de dezembro. Furada total: filas e aglomeração em tudo.. Impossível entrar em um Museu ou Galeria, mesmo com passe rápido. Todos compraram o passe rápido.
Logo na chegada, meu filho, o cruel, comete uma incrível maldade.
Chegamos ao hotel por volta das 15 horas e combinamos: a gente desce, almoça rapidinho neste japonês aqui ao lado porque todos os restaurantes estão fechados, como é comum na Europa,onde só servem almoço entre 11 e no máximo 14 horas.
Então, o combinado era: fazer o check in no hotel, descer pra comer no japonês ao lado , subir para descansar e sair para passear à noite.
Em vez de falar a verdade (ele tinha encontro marcado para a noite) porque eu não tenho medo de me aventurar sozinha, a criatura desalmada que se diz meu filho, foi me enrolando, como procede quando quer fazer o que ELE quer, pra me desmontar pelo cansaço e me desovar no hotel para ir namorar à noite. "Não, aqui não, vamos virar a esquina e procurar algo melhor".
De "virando a esquina" em "virando a esquina", ele me levou ao alto da Basílica de SacreCoeur PELA ESCADARIA E NÃO DE TÁXI.
Eu ,ao contrário do fim da viagem, estava mega sedentária porque viajei um dia após entrar em férias e ainda cansada dos voos e me recuperando do jantar assassino da noite de Natal que, como disse outro dia, foi uma massa assassina do único restaurante aberto na noite de Natal. O desnaturado trocado na maternidade não havia comprado nem um miojo para receber a mãe, que chegou dia 24 de dezembro à noite. A primeira frase ouvida no aeroporto não foi: Mãezinha, que saudades, te amo!!! Não, que nada!. "Ih, mãe, foi mal, não comprei nada e todos os mercados e restaurantes estão fechados e na minha casa não tem nada de comer".
Então, três dias depois, ainda estava passando mal com a massa assassina dos muçulmanos que eram os únicos que abriram o restaurante na noite de Natal em Leuven e com o kebab de carneiro no dia 25.
Eu só passava mal, desde o dia que havia chegado, por causa da massa assassina e porque ainda não havia descoberto que a água do apartamento dele me fazia mal, eu só podia tomar água mineral.
Ao final da viagem, eu estava atlética porque fazia minha corrida todos os dias, mas me obrigar a subir ao alto de Montmartre naquele estado devia dar cadeia para filho desnaturado.
Bom, e vamos subindo escada, subindo escada. Eu falando: Felipe, preciso comer, minha glicose está no subsolo III.Ele: "ah, não, mãe, lá em cima tem um monte de lugares legais pra comer de frente à vista da cidade."Criatura, eu não quero vista nenhuma porque a minha já está turva de hipoglicemia, daqui a pouco eu desmaio (mas filho sempre acha que mãe exagera e faz drama)
E ia me subindo um ódio mudo no coração, a cada degrau. Eu não podia nem queimar glicose falando, então me calei, emburrada.
De repente, tomei uma decisão: literalmente empaquei entre um e outro lance de escada e falei , ao ver um restaurante aberto no meio do caminho: se vc quiser subir, vc sobe, mas eu preciso comer ou MORRO agora de hipoglicemia! Fui!
Entramos, eu com os olhos totalmente turvos, os neurônios em pré-colapso e só havia naquele horário duas opções: Um mega filé com fritas ou Bife Tartare com salada. Lembrei apenas, naquele estado de semicoma, de que bife tartare era prato de "gourmet" do programas da GNT e Cia, e o tal mega filé era "envolto em capa de gordura". Preferi arriscar o Tartare.
Eu tinha me esquecido COMPLETAMENTE de que Tartare é carne crua batida na faca até virar um tipo de carne moída feita à mão, Gente, mais uma vez, eu simplesmente quase MORRI. Carne crua. E carne europeia, com um cheiro horrível.
Recomposta, pelo menos quanto ao índice glicêmico, continuei a subir. Filas, filas, filas e aglomeração para entrar na Basílica. Milímetros na murada do mirante disputados quase a tapa para ver uma nesga da cidade lá embaixo. O mundo inteiro havia decidido passar o Reveilllon em Paris. E todos resolveram ir a Sacre Coeur no mesmo horário, eufóricos.
Tudo isto com frio, chuva e vento. E cansaço.
Descemos e, obviamente, eu capotei na cama do hotel porque esta aventura levou umas 5 horas. Sim, a malvadeza não tinha acabado: na volta, Felipe quis me mostrar o "Bairro dos meus sonhos" da vida inteira, Montmartre, todo de uma vez, ponta a ponta. E se vc estiver exausto, com o bife tartare ofendendo seu fígado, p. da vida após a confissão do desalmado de que havia marcado encontro com uma menina da Universidade para mais tarde, por isso preferiu me levar pra passear cedo,mas não mee falou para não me magoar, jamais discuta com um leonino porque é SEMPRE derrota.
Se a criatura tivesse me avisado, eu não teria problema nenhum em sair sozinha e deixá-lo ir para a night. Pegaria um táxi para subir até Sacre Coeur. Sei ler mapas. Gosto de andar sozinha, mas ele "nao queria me magoar". Aff.
Fui seguindo, resignada, aquela criatura que há 30 anos botei no mundo,troquei fraldas,levei golfada, na vã esprança de uma boa surpresa, mas TODAS as lojas estavam fechadas, eu não conseguia entrar em uma livraria, uma papelaria.
Até o meu perfume, que é o Parisienne, de YSL, estava BEM mais caro lá, na sua cidade de origem, em Euros, do que no Barra Shopping.Era o que eu via pelas vitrines. Fechadas.
Outra ilusão desfeita: não, eu não ia voltar ao Brasil munida de um belo estoque de Parisienne.
Ok, capotei e fiquei vendo televisão, que só passa programas franceses ou dublados em francês, tamanha a anglofobia. Era bem divertido ver "Friends" dublado em francês. Esta foi minha primeira noite em Paris. E o desalmado que carreguei no ventre por nove meses, partiu serelepe para a balada.
Dia 31. Tudo o que eu comia na Europa, desde que desembarquei na conexão em Frankfurt, quase me matava. (Calma, depois de uma semana eu descobri os segredos e passei os melhores 40 dias de alimentação saudável e gostosa da minha vida - feita por mim).
Mas carne europeia, definitivamente não foi feita para mim. Devem me faltar as enzimas. Até o cheiro de passar em frente a um açouque revira meu estômago. Se for morar lá um dia, darei adeus à carne vermelha, de frango e similares . Serei vegetariana, com exceções para peixes e frutos do mar.
Saímos para almoçar .Felipe, pra variar, acordou tarde e perdeu o café da manhã do hotel, que tomei sozinha, cruzando com ele no elevador, que chegava da night. Obviamente perdemos os horários para escolher onde almoçar. Mais uma vez, a comida, única disponível, uma massa, quase me levou ao UPA de lá, se lá houvesse UPA.
Bom, não preciso dizer que meu reveilllon não foi o espocar de Luzes na Torre Eiffel que havia programado. Minhas amigas Flávia e Bia, que estavam na cidade e haviam combinado de passarmos todas juntas, que o digam.
Programação do dia 31 : cama, sal de frutas, coca cola, cama e uma voltinha no quarteirão. E Felipe dormindo porque teria festa. Me levaria à torre para ver os fogos, me desovaria no metrô e dali mesmo partiria para uma festa.
Dia primeiro, mais ou menos a mesma coisa.
Dia dois de janeiro, a programação seria: Acordar cedo (ok), fazer os passeios típicos, ir na livraria que Monica Paranhos havia me indicado para Sociologia do Trabalho (eu não falo nada de francês, mas com a ajuda de uma gramática e dicionário consigo ler,(necessito) porque as melhores pesquisas sobre Mundo do Trabalho são as nossas e as francesas. Embarcaríamos para Bruxelas à noite. Saímos para o passeio, mas antes eu ia dar uma passadinha na agência do BB para pagar as contas e sacar.
Enquanto Felipe dormia, eu já tinha olhado o mapa do metrô e feito as anotações de todo o "meu" roteiro, minuciosamente.
Gente, aquelas fotos em Champs Elyséés , Arco do Triunfo,Notre Dame , Louvre etc escondem os momentos de angústia. Quem vê foto de Facebook não vê coração.
Eu e Felipe pendurados no celular O DIA INTEIRO,entre um ponto turístico aboletado de visitantes e outro, tentando falar com meu gerente do BB no Rio. Filas imensas em todos os museus .
Desisti.
Sentei no Jardim do Museu L'Orangerie (como se chama mesmo o Jardim, Daniela Valla? ) e chorei.
O único momento realmente emcocionante foi sentar-me à beira do Sena, com os pés quase tocando a água.Ali, esqueci tudo e "cheguei" a Paris.
Bom, decidimos ficar mais uma noite em Paris, até porque a diária já tinha virado. já tínhamos perdido o horário do embarque e pagaríamos a conta do hotel no dia seguinte com o cartão da conta estudantil do Felipe (com todo o saldo que comporta uma conta de estudante). A sorte é que já tinhamos pagado as outras diárias na entrada. E pra comer tínhamos uns Euros, juntando as moedas (brincando).
Gente , ao voltar a Leuven, me apeguei, claro, foi um momento de libertação, aconchego e enamoramento. Além disso, o cartão funcionava.
Me apaixonei pela cidade , descobri todos os vegetais, os cogumelos frescos, os camarões enooooormes mais baratos do que carne moída, a água mineral que não me fazia mal, a pista de corrida do condomínio, o supermercado em frente à portaria, com caixas de meio quilo de shitakes frescos a 39 centavos. Endivias!!!!Caríssimas e murchinhas aqui no Brasil, lá eram "capim". Sim, descobri que as endivias (poucos centavos uma bandeja com 5 lindas) sao uma mutação da chicórea, produzidas em bunkers sem luz na segunda guerra pelo jardineiro do Jardim Botánico de Bruxelas. Baratíssimas. Assim como a "couve de Bruxelas".
Descobri a linda feira de bugigangas de sábado à tarde, a segurança do lar, uma igrejinha simpática com pessoas simpaticas na saida do condominio e a Catedral de Leuven, majestosa.Alternava as missas semanais entre uma e outra. Amei Leuven,
O que mais eu podia sentir?
Um ódio profundo de Paris e um amor infindo pela Bélgica.
Agora preciso voltar a Paris em um período normal, sem hordas de turistas, com cartões de dois bancos e usufruir tudo o que a cidade representa.
Estou perdoada, meninas e meninos?
Levei seis meses, mas me retratei.
Claro que os ratos nas escadas do metrô e toda a sujeira da cidade fora da área de Champs Elyséés, o mau-humor com os não-francófonos (e olhem que meu filho domina ingles muito bem, a contrário de mim, que apenas me comunico) foram apenas a cereja do bolo dessa "desgraceira" toda. Bora em Paris fora de temporada?
sábado, 28 de junho de 2014
Repensando Paris.
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