terça-feira, 1 de julho de 2014

A prisão de Charlinho e a tristeza/frustração de uma professora.


No final dos anos oitenta, precisamente em 1989,  eu tinha um aluno muito carinhoso, alegre, meio gordinho, com os cabelos meio castanho-louros cacheados.
Charles , ou Charlinho, como era conhecido na família e pelos colegas.
Voltava sempre suado do recreio. Esbaforido.
Estudioso.
Lembro-me de que fazia parte da melhor turma da 4ª série. E que a família era muito presente na escola. Ele morava na rua imediatamente paralela à minha e a escola ficava (ainda fica) no mesmo bairro.
Certa tarde de sábado, toca a campainha do meu portão e era o pai do Charlinho, que, se não me falha a memória, morreu há cerca de um ano.
O pai me perguntou: professora, a senhora já corrigiu a prova do Charlinho?
Pensei:  “Eu mereço”, agora os pais vêm buscar as notas em casa sábado à tarde.
Aí o pai justificou, desculpando-se:
“Desculpe, professora, mas amanhã é o aniversário do Charlinho (ou dia das crianças, não me lembro bem) e eu tinha prometido a ele que só daria o presente e o levaria para passear se ele tirasse boas notas.
Inspirei, respirei , não pirei e tranquilizei o pai, sem precisar consultar as provas, pois Charlinho era excelente aluno.
Charlinho, que estava junto com o pai, se abre num sorriso de meio metro e fala: eu não disse?
Passei  25 anos sem notícias de Charlinho.Saí da escola , me exonerei do Município, mudei-me para a Zona Sul (70 km daqui), onde morei por 15 anos,e só voltei há um ano.
Mas sempre me lembrava daquele menino com cara de anjinho barroco, como sempre me lembro de meus alunos do "primário".
Há duas semanas, cheguei a falar aos meus alunos: vocês me perturbam tanto para saber nota, que parecem o pai do Charlinho. A diferença é que naquela época não havia internet, então os pais apressados batiam no meu portão. Então contei, como contara outras vezes, o episódio do pai do Charlinho.
Como morei 15 anos longe do bairro e voltei há um ano, nunca mais tive notícias de muitos dos meus ex-alunos.
Logo ao voltar ao bairro, vi a repercussão de um tiroteio que aconteceu dentro de uma boate aqui em Campo Grande há um ano. Mas não sei quem faz o quê , nem quem são as pessoas que fazem parte destas organizações. Nem quero saber.
Hoje, para minha profunda tristeza, logo cedinho, ligo a televisão e vejo Charlinho, ainda gordinho, mas já sem o sorriso e os cachinhos de anjinho barroco, cabeça raspada, preso como acusado de um homicídio. Identificado como segurança de líderes de uma facção do poder alternativo da região,  acusado de matar um agente penitenciário que estava na boate fazendo a segurança privada de outro líder de facção.
Não quero aqui entrar em discussões nem julgamento de valores ou análises sociológicas  sobre os poderes oficiais e paralelos nesta região. Nem entrar no mérito da conduta de Charlinho, da prisão, nada disto.
Aliás, meu choque foi exatamente porque, mesmo morando de volta ao bairro não conheço, não sei quem são as pessoas que trabalham neste poder alternativo ao poder do Estado. Para mim, são abstrações e me doeu ver que eles têm nome, uma história, tiveram uma infância, e, entre eles, estava um dos meus "pintinhos". 
Não é do exercício de poderes locais que quero falar. Quando falo que são abstrações, tenho minhas razões, que não vêm ao caso. Não procuro mesmo saber quem é quem no bairro, não sou investigadora e prefiro ficar na ignorância. (E não é por covardia ou omissão - como disse, tenho meus motivos)
Quem fala aqui é uma professora, que, se procurar em suas pastas, é bem capaz de encontrar um bilhetinho ou um  desenho de Charlinho com uma  dedicatória, um coraçãozinho, como sua turma, a 401, gostava de fazer.
Segundo a matéria jornalística, Charlinho ingressou na facção como entregador de quentinhas e depois passou ao cargo de segurança , o que lhe valeu este desfecho: assassinar, não um agente penitenciário no exercício de suas funções, mas um agente penitenciário que, na folga, estava  fazendo a segurança pessoal  de outro líder de poder paralelo, assim como Charlinho fazia a segurança do que levou o primeiro tiro. (Sem julgamento de valor, isto não é agravante nem atenuante e nem é minha intenção).
Não gostaria de estar no lugar da mãe do segurança que, segundo o inquérito teria sido assassinado por Charlinho.
Quem fala aqui é a mesma professora que alguns de vocês já leram em meu livro “Listrinho”. Uma galinha e seus pintinhos, uma pata e seus patinhos.  Uma mãe que acha que seus filhos/alunos  serão sempre bebês.
Que não entende que aquelas crianças que brincavam no recreio tiveram destinos tão diversos.
Gosto de ver, por exemplo, que Rogério é o proprietário da maior padaria do bairro, A Padaria Manah, um empreendedor que deu certo.
Gosto de ver, por exemplo, outro ex-aluno de microfone em punho como jornalista na televisão, o Caio. Aluno de quem me lembro correndo de bicicleta pela rua.
Gosto de ver a Flávia fazendo sucesso com sua empresa “Flávia Festas”.
Gosto de saber que a outra Flávia tornou-se professora.
Relatei em Listrinho meu encontro décadas depois com Jorginho, me dizendo que fui a única professora que lhe deu uma chance após 5 anos de repetência, e que depois ele não tinha parado mais: Cursava duas universidades. Uma federal e outra privada.
Gosto de saber notícias de meus ex-bebês, como nas histórias relatadas em “Listrinho”.
Gosto de ver o  jogador Thiago Silva, que mesmo não tendo sido meu aluno, mas estudou em outra escola pública próxima, com o bracelete de capitão da Seleção Brasileira, emocionado, cantando o Hino Nacional antes dos jogos da Copa. E torço para vê-lo levantando a Taça, apesar de todos os motivos para sermos contra os gastos governamentais com a Copa.
Como disse, quem escreve aqui é um coração de educadora, que chega a se perguntar: será que se um dia eu tivesse falado ou feito alguma coisa diferente, durante aquele ano inteiro em que tive Charlinho sentado à minha frente todos os dias, isto ficaria no coração de Charlinho e ele não entraria neste caminho?
Coisa de professora.
Não quero discutir politicamente ou sociologicamente o histórico desta forma de poder na Zona Oeste.
Queria apenas saber o que aconteceu entre aquele dia em que o pai ansioso bateu à minha porta para perguntar se o Charlinho tinha tirado nota alta , merecendo, portanto, o presente de aniversário e o dia de hoje, quando acordo, ligo a TV e vejo Charlinho  algemado, de cabeça baixa, na televisão.
Não estou acusando nem defendendo Charlinho adulto. Estou apenas tentando entender o que aconteceu entre aquele Charlinho de 1989, o meu anjinho barroco gorduchinho e  meio dentucinho, afetuoso,  e  o Charlinho de 2014, procurado pela polícia há um ano, que começou entregando quentinhas e terminou como segurança privada de um líder do poder local.
Olho nos jornais e nos sitios eletrônicos o rosto do Charlinho procurado, do Charlinho preso. O "meu" Charlinho tinha 10 anos, este tem 35. Mas em seu rosto, mudado com o tempo, eu ainda vejo alguns traços daquele menino e me chocam as legendas: "Preso o miliciano mais perigoso da Zona Oeste, o Charlinho de Cosmos".
 Estou triste, muito triste. Com todo o respeito pela dor das pessoas que, porventura ,possam ter sido afetadas por possíveis ações do  "Charlinho de Cosmos". Eu não falo do "Charlinho de Cosmos", procurado pela polícia durante um ano. Falo do Charlinho de 10 anos de idade, brincando no pátio da escola em 1989.
Ass:  Coração ferido de uma professora. Apenas uma professora.

Um comentário:

  1. Triste...mas com a certeza de q "salvaste" muitos "Charlinhos"...E até este. É...segue a semeadura!Ainda existem muitos por aí...por aqui...Daniel 12:3 Bs no coração!

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