Gratidão:
Curioso como fatos corriqueiros e aparentemente banais nos mudam a perspectiva diante de grandes coisas. Nos provocam insights, verdadeiras mudanças no modo de olhar um acontecimento. Acho que nada é por acaso.
Minha amiga Daniela postou que está orgulhosa por conseguir ser ninja com seu bebê Gabriel, de um mês e meio: amamenta, troca fralda,leva golfada, limpa golfada , tudo ao mesmo tempo. E agradeceu ao marido Diego pela parceria.
Eu pensei: Ser ninja com um bebê é (quase) mole - sem depreciar, Dani. Quero ver ser ninja quando o filho faz 18 anos.
Aí me veio pela primeira vez um imenso sentimento de gratidão a Deus por ter dado mais 10 anos de vida ao Luiz Cláudio, após Felipe ter completado 18 e não o sentimento de tristeza e revolta que tenho sentido nestes dois anos e meio, por ele ter partido cedo demais. Eu, sozinha, não daria conta daquela fase. Se não fosse Luiz Cláudio, eu teria pirado depois que Felipe fez 18. Ele sempre foi muito controladinho (até onde sei) porque ,enquanto era "de menor", eu carregava no cabresto, dizendo que Siro Darlan iria me chamar pra fazer cursinho de mãe negligente e que ele tinha que ter hora pra chegar à casa sim, que eu o pai dele não merecíamos passar esta vergonha de sermos chamados pela Vara de Infância por ele estar andando tarde da noite pela rua e todas as chantagens que a gente faz pra controlar esses seres indomáveis.
Ao fazer 18, Felipe deu seu grito de independência. "Mãe, agora Siro Darlan não tem mais nada a ver comigo, eu é que mando em mim". (Siro Darlan era o Juiz da Infância e Adolescência).
E Felipe é do tipo sincericida, que conta todas as besteiras que faz, não inventa nem mentira caridosa. Ai de mim se não fosse o pai dele pra dizer: deixa comigo, entregue pra Deus, Deus protege, Felipe sabe o que faz, já é adulto, não se preocupe, Felipe é meu departamento.
Só que, depois de me dizer tudo isto, ele ia atrás de Felipe pra "conferir". Exemplo: Felipe começou a trabalhar como produtor e DJ na Fosfobox e o pai dele dava uma passadinha, no meio da madrugada, assim como quem não quer nada, "só pra tomar uma cerveja" de vez em quando. Quando Felipe foi trabalhar e morar em Natal, o pai deu uma "passadinha" lá, do nada, só pra pegar um solzinho na praia do Morro do Careca e, já que estava mesmo la, por que não conferir o ambiente do Felipe?
Ele era muito engraçado. Se fazia de despreocupado, mas era mais preocupado do que eu.
A primeira gracinha que Felipe fez ao completar 18 anos foi fazer, com mais 4 colegas, uma viagem de carro para a BAHIA. Em um carro novo e superpotente que o amigo havia ganhado porque tinha feito 18 anos. Todos "adultos", na faixa de 18 - 19 anos.
Em outra situação, um dia, me liga meia-noite e fala: mãe, eu estou aqui no Leblon, mas vou a uma festa lá no Fundao.
Eu perguntei: vem cá, se eu pedir pra vc não ir vc vai atender?
Ele: Não.
Eu: então, criatura, por que não inventa uma mentira caridosa e fala que está no Leblon mesmo?
Ele: porque você me ensinou a falar sempre a verdade, tcgau, fui, beijo.
Subia a Pedra da Gávea e tirava foto sentado bem na beiradinha com os pés balançando no abismo e ainda me mostrava, só pra torturar.
Gente, se não fosse o pai dele, eu tinha morrido. Sou um pouquinho neurotica, só um pouquinho. Imagine se eu conseguiria ser ninja e dar conta de tudo isto.
A postagem tão cotidiana da Dani me fez de repente dar uma virada nno meu estado (espero que dure). Sinto-me grata a Deus por Luiz Cláudio ter esperado Felipe "tomar juizo", ou seja, passar a fase em que todos eles enlouquecem os pais, para só então, partir. Me lembro que na véspera do acidente, ele ainda me falou: que bom, agora Felipe sossegou, né?
Eu não daria conta daquele garoto em tudo o que ele aprontou entre 18 e 25 anos.
Sem contar as coisas que nem sei, ou que só descobri meses depois da passagem do Luiz Cláudio, Felipe rindo triste e lembrando do dia que o pai dele aparece de pijama , esfregando os olhos, no meio da madrugada, para tirá-lo de uma furada.Ele contando: mãe, tinha que ver: meu pai de pijama, saindo do carro esfregando os olhos com cara de "o que vc está fazendo aí, garoto?"
Ele estava fazendo arte de rua, que agora é objeto de seu mestrado na Bélgica, até criou um site com o mapa dos grafites de Leuven como trabalho do mestrado, mas aqui no Brasil ainda se confunde com pichação ao patrimonio.
Teve um dia que Felipe perdeu todos os documentos e cartões, aí quem foi encontrar a pessoa que ligou para devolver, sabendo que poderia ser um ladrão que pediria as senhas dos cartões?
Fora as furadas de que ele tirou o Felipe e que eu não sei até hoje, porque ele falava: não conta pra sua mãe, que ela morre.
Dani, definitivamente eu também fui ninja muitas vezes, mas dos 15 aos 25 e principalmente dos 18 aos 25, ai de mim, se não fosse o pai dele para fazer o papel de Chapolin Colorado.
Pela primeira vez eu consigo ver a passagem dele com gratidão pelo tempo que Deus concedeu para passar a fase de sufocos que ele me ajudou a enfrentar e os piores, que ele segurou sozinho e eu nem ficava sabendo.
Siga em paz, Luiz Cláudio e obrigada!
Sem você no leme deste barco, eu teria pirado.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Gratidão
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