segunda-feira, 3 de março de 2014

Flocos de Alma - Para quem tem Alma

Flocos de alma

Escrito em janeiro de 2014

“Por que você não junta tudo o que você posta aqui e faz um livro?”
“Entro na rede social procurando o que você escreveu, sempre me identifico”
“Você podia publicar estas postagens, muita gente gostaria de ler”
Começou assim. Minhas postagens diárias nas redes sociais e as reações dos amigos.
Alguns: “Ah, você se expõe demais! Deveria se preservar mais, isto não é bom!”
Outros: “Me identifico com o que você escreve, parece que está falando o que estou sentindo, continue postando.”
Virada de ano, momento de decisões: Vou parar de postar o que penso, o que sinto, meus estados de espírito , de alma, minhas opiniões, indignações, reflexões, questionamentos, e vou enfrentar a tarefa de transformar isto em um livro. Flocos de alma, para outras almas inquietas, sensíveis, indagadoras, reflexivas, na contra-corrente do senso-comum, em fuga do lugar-comum.
Cotidiano. Transcendência. Cheiro de alho fritando na panela. Dores de luto. Perdas.  Renascimentos. Vida. Morte. Deus. Metas para o novo ano. Depressão. Superação. A vida na cidade pequena. A vida na cidade grande: o “tão pequeno” e o “tão grande” igualmente despertam na alma afetos, sentidos, significados, impressões.
Seguimos vivendo o luto, a fragilidade, a depressão, os desamparos, as dores, o “destempero”, na sociedade que grita o imperativo frenético e histérico  “seguir em frente” a todo custo. Qual o preço e o “limite” de uma amizade?  Qual o lugar da sinceridade e autenticidade no mundo da dissimulação? Como vivemos a solidariedade, o amor fraterno no mundo “politicamente correto” que dita as normas de engajamento e compromisso com o outro, bem como suas margens de segurança? Que te exige engajamento, mas com “distância segura”? Que dificuldades encontra um sofredor de transtornos como a depressão, para identificar e expressar o que vive, a fim de viabilizar diagnóstico e tratamento, se uma das características é justamente a condição de uma sensação indefinível e indescritível nos transtornos da alma?
Fui, como disse, deixando de me expor tanto nas redes sociais e catalogando, inventariando neste livro reflexões sobre valores, sentimentos, opiniões, vivências, o mundo em que vivemos, a cultura em que estamos imersos na dialética imersão-emersão contínua.
Tento ver de muito perto, de dentro, para ver longe e de fora. Falo de mim, na busca de falar com o outro. Falo do particular/universal em mim para encontrar o particular/universal no outro.
São inquietações da alma, como diz o título, entendendo alma como aquilo que nos constitui intimamente e estrutura nosso ser “visível” e “invisível”, a pessoa que somos, a que desejamos ser, a que mostramos, a que preservamos, e a que desejamos mostrar e preservar.
Os pretextos são acontecimentos cotidianos e suas cortinas.
Não há aqui compromisso com a factualidade, com o que é fato objetivo, mas com o sentimento, com a ideia. Os personagens, são, portanto, uma alquimia de realidade e desejo, concretude e projeção; os fatos, igualmente, consistem na alquimia entre o real e o imaginário. O que importa é a identificação e afinidade que pode gerar no íntimo da alma do leitor. Gerar cumplicidade e, quem sabe, algum alívio.
Não há na descrição de qualquer acontecimento, atitude ou comportamento, compromisso com o fato em si, nem com a pessoa. Inclusive, quando falo na primeira pessoa. Não estou me referindo necessariamente a mim, factualmente, objetivamente. Falo na primeira pessoa, mas falo de um ente imaginado, construído, que pode ou não, em cada caso, conter em maior ou menor grau, uma aproximação com a minha identidade pessoal “real”. O      “eu” do/no livro, os acontecimentos deste “eu”, não são necessariamente o “eu” da autora do livro e dos acontecimentos reais que lhe sucedem.
Diferente de livro anterior, cujas crônicas eram baseadas estritamente em fatos e personagens reais, este é baseado em sentimentos verdadeiros e na minha percepção sobre amizade, luto, dores, alegrias, modos de ser, sociabilidades, cotidiano, relacionamentos, enfim: temas universais que aqui partem de situações reais ou imaginárias, como meros pretextos para expressar flocos da alma e dialogar com o leitor sobre nossas inquietações em comum, nossas incertezas e desafios na sofisticada (e por vezes dolorosa) arte de viver. É um convite à partilha do que vai pelas almas que estão nesta jornada, tentando viver com humanidade em um mundo desumanizado.
Todos os personagens, portanto, inclusive o personagem “eu”, são construídos no imaginário, são ficções, são o resultado do que são e do que penso que são. Do que fazem e do que penso que fazem. Do que sentem e do que penso que sentem.
Busco na identificação com o leitor, ou na identificação do leitor com o texto, a transversalidade interpessoal. Comunicar sentimentos, afetos, inquietações.
Trago um catálogo de experiências de vida, reais e fictícias, e minhas impressões sobre elas. Sua verdade está na universalidade que existe em cada individuo e na peculiaridade do modo de viver o universal.
(Como vocês observaram, o texto foi escrito para um livro. Decidi transformar o projeto em blog, mas mantive  o texto original)


domingo, 2 de março de 2014

Direitos Autorais deste blog

Nenhuma parte das postagens poderá ser reproduzida, a menos que seja citada a autoria e o título do Blog. A publicação na web segue as mesmas normas de propriedade intelectual que todas as produções textuais. Obrigada e muito carinho.
Aparecida de Fátima Tiradentes dos Santos.

"Saudade, palavra triste..." Lembrando "Vovô Paião"

Escrito em março de 2014

Uma aluna postou hoje que perdeu o avô. Lembrei-me de quando meu avô partiu, há vinte anos. Meu avô Paulino ficou viúvo aos 36 anos de idade e passou a vida na esperança de reencontrar minha avó no Céu.Nunca mais se casou.
Eu era a neta mais velha e Felipe, seu primeiro bisneto, a quem ele gostava de levar e buscar na escola , entregando-o nas mãos da professora Regina. Ele não deixava Felipe no portão da escola, mas ia até à porta da sala de aula e fazia suas recomendações.
Esperou filho Felipe completar 10 anos, chamou-o para uma conversa e disse:
-Felipe, se eu morrer, vc não fica triste não, tá? Já estou velho, já vivi muito e preciso encontrar sua bisavó Iracema. 
Esta conversa, embaixo da jabuticabeira da casa dos meus pais, me foi relatada por Felipe, logo após a morte do "vovô Paião" (Paulino, Paulinão para os familiares, "Paião" para Felipe). Havia acontecido poucas semanas antes do dia em que vovô partiu, no comecinho da primavera de 1994.
Ele esperou Felipe comemorar o aniversário de 10 anos em agosto, fez uma viagem com minha mãe para sua terra, no interior, visitou todos os familiares e no dia de embarcar de volta sofreu um infarto. Mas teve paciência para nos esperar lúcido no hospital na cidade de Itaperuna. Eu e Felipe entramos na UTI e fomos as últimas pessoas com quem ele falou, antes de perder a fala. Estava apenas nos esperando.
Vovô foi o amor em pessoa. Ele tinha uma metodologia pedagógica peculiar: sempre que ia aconselhar, repreender ou encorajar a um de nós, o fazia citando versículos de São Paulo.
E gostava muito de cantarolar.
Uma das primeiras músicas que me lembro de aprender foi esta, de tanto que ele cantava.
Lembro-me também da música "Beijinho doce", que ele cantava para mim. Havia uma nova boneca chamada "Beijinho Doce" e minha amiguinha a tinha, eu fiquei louca pela boneca. Ele foi perguntar ao avô da menina onde ele havia comprado a boneca. E se orgulhava de relatar o diálogo.
- Onde vc comprou a boneca Beijinho Doce? A Aparecida está doida pra ter uma.
- Ah, é uma boneca muito cara, vc não vai ter dinheiro para comprar para a Aparecida;
-Olha aqui, seu velho dos infernos, vai "para as arrelampa", que eu não estou perguntando quanto foi nem te pedindo pra pagar. Fala logo onde comprou porque se sua neta tem, a minha vai ter também.
Ele adorava contar esta história e muitas outras.
Lembro-me do momento em que ganhei a boneca.
E hj , ao ler que minha aluna está triste por seu vozinho, lembrei do meu, desta música e estou postando em homenagem aos dois: ao meu avô Paulino, que quando ficava zangado mandava a pessoa ir para as "arrelampa", seja lá o que for, que cantarolava e nos ensinava com a sabedoria das cartas de Paulo - e ao avô da Thaís. Quem sabe se os dois não estão olhando por nós?
"Saudade, palavra triste quando se perde um grande amor, na estrada longa da vida eu vou chorando a minha dor..." 
Eu e Felipe vivemos juntos duas tristíssimas perdas: a do Vovô Paião e a do Luiz Cláudio.

Janeiros, janeiros...

Janeiros, janeiros...
Escrito em janeiro de 2014
Dia 18 de janeiro de 2011, sexta-feira- Recebemos a notícia de que meu pai está com dois cânceres “independentes” . Próstata e bexiga. Um ano de lutas sem um minuto de trégua,inúmeros exames, várias cirurgias, radioterapia dois meses todos os dias, consultas todas as sextas-feiras.
Dia 16 de janeiro de 2012, segunda-feira- Meio-dia. Quase um ano de lutas após, a vitória: recebemos a notícia de que meu pai está “tecnicamente curado”, que é só uma questão de controle, que o tratamento foi um sucesso. E até hoje continua sem recidiva, graças a Deus.
Dia 17 de janeiro de 2012, terça-feira,  9:30 da manhã, menos de 24 horas depois da alegria pela recuperação do meu pai, o carro onde está Luiz Cláudio a caminho do aeroporto – viagem de trabalho  (ele estava no banco do carona) choca-se com um ônibus na Av 28 de setembro. Última vez que vejo Luiz Cláudio consciente, falo com ele no hospital. Tranquilizo-o. “Você vai sair desta. Sua pressão está boa (lendo o monitor para ele, que não podia alcançá-lo com os olhos), seus batimentos cardíacos também, tudo certinho, você está bem. Está aqui só recuperando do susto e da cirurgia. Fique tranquilo. Se não morreu quando engoliu aquela bala soft na escola há mais de 40 anos atrás e levou aquele “murro” do Seu Zé (porteiro) para desentalar, não vai morrer agora pó,or causa de um “onibuzinho” qualquer, né? (sorrindo para disfarçar) Você só sofreu algumas fraturas bobas e logo, logo, estará bem. O pior já passou”.
Foi o que me ocorreu dizer para “animá-lo”. A enfermeira sorri com a história da bala soft e o murro do Seu Zé. Ele esboça um sorriso, responde com movimentos de cabeça que não está sentindo dor, “conversa” com os olhos e movimentos de cabeça.
A médica, em conversa reservada, mostra-se preocupada. Ferimentos internos graves. Capacidade respiratória baixa, pulmão comprometido, pneumotórax, histórico de asma, risco elevado.
Volto para me despedir, coloco a mão em sua testa e saio dizendo: “Fica com Deus, estamos lá embaixo, não podemos ficar aqui com você na UTI, mas você não está sozinho.” Foi a última troca de olhares.
Cinco dias de agonia. A cada dia o estado se agravava, o prognóstico era mais pessimista, mas minha cabeça negava. Eu estava “convencida” de que ele se recuperaria. Até porque a outra possibilidade seria insuportável para mim e para nosso filho. Eu não tinha estrutura para enfrentar a realidade e simplesmente a negava.
Dia 22 de janeiro de 2012, 6 e meia da manhã, chego ao hospital completamente despreparada, apenas para conversar com a médica antes da troca de plantão... A enfermeira me diz a frase terrível: “(...) infelizmente, ele veio a óbito.” A primeira e única coisa que consigo falar: “Como vou contar isto para o nosso filho?” Minha vida partiu-se em pedaços...  Vida amputada ao meio. Como viver sem o tripé “pai-mãe-filho” com que me apoiava sempre? Como não mais dividir as alegrias , dores e preocupações com nosso filho? Com quem eu poderia agora desabafar nos piores momentos? Com quem eu poderia contar? A quem eu ia ligar a caminho de uma viagem para avisar que nosso filho estaria sozinho do Rio de Janeiro. De quem eu ouviria as palavras mágicas : “Fica calma, tudo está nas mãos de Deus, tudo vai dar certo, Felipe é ‘meu departamento’, não esquente a sua cabeça, eu resolvo isso”?Com quem eu ria contar nas noites de preocupação com um filho na rua, se o pai dele não estaria mais ali para dar uma checada nos lugares onde ele trabalhava, por onde ele andava? Como enfrentar os medos de uma mãe sozinha numa cidade como o Rio de Janeiro, com um filho jovem exposto a todos os perigos?E, pior, agra sem seu maior suporte? O que seria do Felipe? E eu?  Como eu poderia assimilar que uma pessoa que fez parte ininterrupta da minha vida desde os 7 anos de idade, por 42 anos, de repente, se vai, desaparece, não está mais aqui para responder ao telefone? Para fazer as “conversas de manutenção” com nosso filho?
Procuro o elevador, não enxergo nada. O vigilante do hospital me pergunta onde quero ir, se preciso de ajuda... Digo: “não sei, estou indo a qualquer lugar, o pai do meu filho acabou de morrer. Como vou contar isto a ele?” Saio desorientada. E permaneço desorientada por meses, meses e meses, ano, ano e meio. Em dois anos já juntei alguns caquinhos, mas a dor vai comigo aonde quer que eu vá. Sobrevivo. Não acredito, não assimilo, não aceito, não me acostumo, não naturalizo, não me conformo. Um tragédia que mudou nossas vidas para sempre. Meses depois, tentanto “ser forte” e retomar o trabalho, exatamente 9 meses depois, ou seja, em 22 de outubro de 2013,sofro um AVC em minha sala de trabalho da Fiocruz durante uma reunião com os orientandos.
Janeiro de 2013- Depressão e luto profundos (ainda). Recolhimento, mas os fatos da vida pressionam. Preparação de mudança de casa. Filho se preparando para sair do Brasil. Providências obrigatórias a serem tomadas, vida desorganizada até o último grau.Sem forças. Contando com minha família e alguns raros amigos que ficam por perto na hora da dor. A maioria adora festas, mas foge desesperada ao menor sinal de dor e luto. Ou quer te obrigar a seguir o calendário “deles” de um luto “normal” nesta cultura lutofóbica, neurótica, psicótica, histérica e frenética, que não suporta ver seus paradigmas sacudidos diante de uma pessoa que sofre uma perda e assume que sofre. Cobranças: Vc precisa reagir, a vida continua. (Eu sei que a vida continua eu dizia, mas não precisa ser AGORA), 2013, primeiro passos para a restauração das forças e retomada de algumas atividades. E muitas outras perdas, para coroar.
Janeiro de 2014- O recomeço!!! Visaõ positiva, Férias provincianas de 45 dias com meu filho em Leuven, é disto que minha alma precisa para retomar o fôlego dos traumáticos três janeiros passados. Minha alma precisa de um tempo de lar, cheiro de alho frito, presença do filho, vida calma, volta à saúde emocional , que não está nos sassaricos, mas no cotidiano. Nas coisas que “valem”. Planos para o ano: visitar os familiares que moram longe em todos os feriadões. Juntar-me aos meus amigos de verdade, viver mais encontros com eles.Trabalhar muito para ajudar no sonho do Felipe de fazer seu mestrado aqui, onde ele se refugiou da dor da perda do pai e se sente em paz, como me disse.
Foram dois anos de perdas, perdas, perdas, perdas. Oito mortes de amigos jovens para morrer, da minha faixa de idade, 50 anos, que cresceram junto comigo, amigos antigos, amigos desde a infância ou, no mínimo, de uns 30 anos de amizade. Em 2013, quatro sepultamentos em um período de 3 meses, entre junho e agosto. Todos da minha idade, Além dos amigos,sofri vários familiares partindo, sempre, a nossos olhos, muito antes da hora, ainda com muita coisa por viver: Binha, Ritinha,Tia Cilene, João Batista, tanta gente... Minha mãe tentou me poupar, vendo meu estado, escondendo algumas destas mortes na família, mas o facebook contou, como o caso do primo João Batista (começando a retomar as atividades de trabalho, eu estava em um congresso em São Paulo e soube de sua morte pelo facebook).
Dois anos de perdas... Mortes trágicas, imprevistas, imprevisíveis, inesperadas... E outras perdas, mortes simbólicas (tantas...), mudanças, desapegos, despedidas, decepções (quantas...), distâncias, cortes, incluindo cortes internos de relações tóxicas com pessoas tóxicas e de partes tóxicas de mim mesma que precisavam ser cortadas... Perdas, perdas, perdas.  
Foi a “era dos cortes e das perdas”.E do aprendizado sobre as perdas, sobre não sermos nem termos NADA, de fato, na vida, a não ser o amor das pessoas queridas. Dos vínculos que valem a pena, embora, por ironia do destino, tenha também perdido por morte simbólica, dois destes vínculos que eu considerava incondicionais. Coisas da vida “de fora” impedindo a vida “de dentro”. Algumas pessoas dão mais valor a seus próprios caprichos do que a uma verdadeira amizade de décadas. Foram duas perdas desta natureza. Até porque, me tornei um tanto fatalista: Perdas ocorrem e não depende de minha vontade. No caso da “morte em vida”, de nada adianta eu alimentar amizades cuja reciprocidade não envolve lealdade e incondicionalidade.
Tantas perdas juntas podem querer me ensinar alguma coisa, a ser um ser humano melhor.
Mas, chega de perdas e cortes, Deus? Rezo para que sim.
Que 2014 seja de colar cacos, de juntar os que ainda pode ser juntados e de sepultar o que deve ser sepultado,com toda a dor que isto exija. Que seja um ano de RESTAURAÇÂO das forças,em todos os sentidos, que nenhum vaso mais seja quebrado. E que venham novos vasos, floridos, “ensolarados” como girassóis, na vida de todos nós! (não era para rimar).
Música de padre Fábio. Motivos para recomeçar. E Jesus ,eu Deus humano – por que vc se foi?


A crônica da velhinha assustada (ou: ainda existe amor entre vizinhos no hemisfério norte)

Escrito em janeiro de 2014.

Ato I- (permitam-me a “licença literária” em dividir esta “crônica” em “atos”)
O que uma mãe enxerida faz quando chega à casa de um filho? Xeretar a cozinha, lógico! Está impresso no DNA da perpetuação da espécie saber como o filho se alimenta, especialmente longe dos olhos zelosos da mãe.
A primeira coisa, portanto, que fiz ao chegar ao apartamento do Felipe em 24 de dezembro, noite de Natal, após umas 24 horas de viagem, voos cancelados atrasados etc, foi... investigar a cozinha, claro! Que mãe não faria?! Uma pessoa normal não faria, mas nenhuma mãe é normal. Nenhuma mãe, portanto, deixaria de “examinar”.
Nessa primeira incursão, um pouco discreta, mas nem tanto, ainda antes de trocar de roupa, constatei silenciosamente: nesta casa só há duas facas. E o pior: facas de mesa, sem qualquer utilidade culinária que possa dar vazão aos meus projetos de alimentação familiar para os 45 dias de estadia.
(Imagino o leitor se colocando no lugar do “pobre Felipe” nesta hora- nem atravessando o Oceano, fica livre da “cruz”).
Mal pude esperar o supermercado do condomínio abrir no dia 26 de dezembro e lá fui eu em busca de uma faca “decente”. A única que encontrei era uma monstruosidade com meio metro de gume e bem pontuda, uma arma letal e assustadora, tipo “Facas Ginsu” ou de filme de suspense.
Comprei, né? Fazer o quê? Já estava na hora de preparar o almoço, o carrinho quase cheio de ingredientes, e eu não iria deixar as compras em casa, caminhar uns dez minutos até o Centro da Cidade e ficar rodopiando de loja em loja em busca de uma faca mais adequada e menos assustadora. Levei aquela mesmo e tenho me dado muito bem com ela, afora um corte profundo no polegar no dia em que tentei cortar o lacre do frasco de azeite pelo lado oposto do gume, prontamente sanado com um band-aid e minha boa disposição orgânica para cicatrização. Coisas de mãe que passa o ano inteiro dando aulas e quando resolve cozinhar nas férias precisa se readaptar: uns cortezinhos, umas queimaduras, as impressões digitais “quase perdidas” de tanto lavar louça em água superquente etc. Nada demais para meus ímpetos culinários.
Ato II. A vizinha:
Felipe me havia dito, antes de minha viagem, que tem uma vizinha muito simpática, uma velhinha fofa, segundo ele, que sempre aparece na janela e dá “tchauzinho”, sorri.
Imagino que ela já estivesse curiosíssima para saber quem é esta nova moradora ou hóspede que se “aboletou” na casa do vizinho dela desde o Natal, mas a comunicação é só por olhares e acenos, visto que ela mora em outro condomínio e da janela do Felipe vemos apenas os fundos de sua casa, cuja frente dá para a outra rua, com um muro no meio, separando esta relação de vizinhança. (ver fotos em seguida). Ela fala com Felipe quando vem aos fundos da casa, na área de serviço e ele está na janela do apartamento. Mas percebo que ela olha bastante pela janela do segundo andar da casa, uma janela bem bonitinha, do tipo de conto de fadas, com uma cortinha de renda e babadinhos, que fica na mesma altura da janela do Felipe.
Hoje de manhã estava eu preparando o almoço e Felipe estudando, como de costume. Ele estuda em casa de manhã, almoça e vai para o Centro de Estudos da Universidade, onde fica até meia-noite.
Estava eu preparando o almoço, caladinha para não atrapalhar os estudos do mestrando dedicado em fase de entrega de trabalhos, munida de minha fiel companheira de cozinha, “a faca”, quando Felipe dá uma paradinha nos estudos, abre a janela para fumar (esse garoto não me ouve e continua fumando) e eu me aproximo, com meu peculiar jeito efusivo de falar, para contar-lhe minhas descobertas em pesquisa que fiz pela internet, muito curiosa para saber por que as endívias, tão caras e raras no Brasil, aqui são tão baratas e abundantes, praticamente alfaces (isto eu conto depois).
Bom, dirigi-me ao Felipe, que estava fumando na janela,bem do “meu jeito discreto de ser”, gesticulando  com a faca na mão, toda entusiasmada com minhas descobertas sobre a engenharia genética rudimentar  de um horticultor belga no pós-guerra que “inventou” a endívia como uma mutação da chicória... E começo a falar sobre as diferenças, semelhanças e relações de parentesco entre chicória (ou escarola) e endívias, gesticulando, gesticulando... e com a faca na mão... E o Felipe,  meio de  costas pra mim, meio de lado, não devia estar fazendo uma cara de muito interessado no assunto, talvez uma cara de tédio ou de “O que foi que eu fiz pra merecer isto?” E eu falando, falando, falando... com a faca na mão. Gesticulando, gesticulando, gesticulando... com a faca na mão.
Quando me dou conta, a velhinha estava olhando assustadíssima por trás de sua cortina branca rendada, toda fofa, aquela cena. Imagino o que lhe passou pela cabeça: “Tadinho do menino, tão bonzinho e estudioso!  Aquela loura louca se instala na casa dele e agora está querendo matá-lo com uma faca.”
Mostrei ao Felipe, entramos e caímos na risada.                    
Mas eu fiquei meio preocupada. Felipe tem o hábito de não dar satisfação a ninguém, mas eu tenho a péssima mania de me preocupar com a opinião alheia (além de ter ficado com  medo de que a velhinha chamasse a polícia para socorrer seu vizinho querido que lhe dava “tchauzinho’ pela janela e sorria todos os dias).
Na maior friagem, mais ou menos uns 3 graus, escancarei a janela e me instalei no parapeito, munida dela -a faca - com uma tigela de tomates, cebolas, pimentões, alhos, para deixar BEM CLARO que o uso da faca é meramente culinário e movido pelo mais puro amor materno. E vejo a silhueta da velhinha por trás das rendas da cortina, olhando, olhando, olhando.
Ato IV. Almoço já preparado, abro novamente a janela para dar uma espiada no tempo lá fora e “sentir um friozinho” para me refrescar do fogão. Eis que um velhinho, supostamente o marido da velhinha, está de plantão nos fundos da casa, olhando para nossa janela. Ele puxa conversa comigo; Sim, juro, ele puxa conversa. Pergunta (só depois eu entendi porque inicialmente ele fala na língua difícil daqui, uma variação do holandês, então falei uma frase em inglês e começamos a “conversar” com toda a minha fluência e com todo o sotaque do velhinho). Ele pergunta se eu abri a janela para fumar porque está muito frio, que ele está no quintal para fumar (mentira, ele estava era espiando, não havia nenhum cigarro em suas mãos). Eu respondi exatamente aquilo que eles queriam saber: “Não, eu não fumo, meu filho (apontando para a mesa onde estava Felipe) é que fuma.E “sublinhava” bem, repetia “meu filho” (my son, my son, my son). Daí, a velhinha se desentoca e entra na conversa. Começa a me perguntar coisas. Eu, além de não entender direito,  não conseguia ouvir, então tentava fazer leitura labial e ia respondendo aquilo que “eu acho” que ela queria saber: “Sou a mãe do Felipe, estou passando minhas férias com ele.” E frisava bem “ele é meu filho, estou aqui de férias!!!!”
 Ela sorriu aliviada e me perguntou. “De onde vocês são?” Respondi : “Do Brasil.”
Os dois escancararam sorrisos, ficamos íntimos: “Oh, Brasil, ótimo! Nosso vizinho duas casas depois também é do Brasil”. E apontaram na direção da casa do outro vizinho brasileiro.
Nos despedimos sorridentes, pedi licença, fechei a janela e entrei, mais aliviada.

 E os dois velhinhos, certamente também, muito mais aliviados por saberem que não há nenhuma “louca da faca” no condomínio ao lado.
Acho até que depois vou dar uma voltinha na outra rua para ver a frente da casa dos velhinhos, (quem sabe se eles não estão no portão?) e a casa dos brasileiros. Ah, esqueci que com este frio as pessoas não ficam no portão.
Conclusão: Férias assim não têm preço.  Esta imersão no cotidiano local, travar “relações de vizinhança”, ficar conhecida da velhinha que “toma conta” do Felipe,  da moça da igreja, do moço do açougue, das operadoras caixas do supermercado, da meninada que fica lanchando nas escadas da portaria do condomínio na hora que vou treinar minha corrida e depois larga as caixinhas de suco e pacotes de batatas fritas espalhados, da garotada com aparência “menos favorecida”  de uma escola próxima (imagino que seja da escola próxima) que vem dar um rolezinho no supermercado - sim, aqui também tem rolezinho, como é natural em todos os lugares onde há adolescentes, sem traumas: eles compram lanche no supermercado, lancham no espaço coberto entre o supermercado e a lavanderia, ficam “zoando” um tempo no condomínio, depois vão embora, na boa. Ficar “amiga” da vizinha do episódio da briga de casal ,que agora todos os dias me cumprimenta toda sorridente, saber a hora que sai o pão quentinho na padaria do supermercado... Nada disso tem preço. Como disse minha amiga Daniela Valla, “morar é sempre melhor do que turistar”. Estou gostando muito de “morar” e não apenas “turistar”. Felipe entra de férias amanhã e talvez “turistemos” um pouco por aí, se a tese dele deixar, mas, de qualquer modo, este período de imersão na vida local e este “cotidiano de mãe” entremeado por umas voltinhas por perto muita leitura e minhas pequenas corridas na pista em volta do supermercado (dez voltas intercalando andar e correr é o que meu fôlego garante) está ótimo, a-do-ro.

Cheiro de alho fritando

No fim, o que conta é o cheiro de alho fritando.
Escrito em janeiro de 2014, na casa do meu filho, enquanto faço o almoço.
Alho fritando na panela... Existe algum cheiro mais “carinhoso”, mais arquetípico? Que nos transporte ao mais íntimo em nós? Existe algum cheiro que evoque mais o carinho, a proteção, o amparo, o conforto?
Lá fora, um mundo.
Aqui dentro, o mundo. O mundo que importa, acima de tudo.
Lá fora, universos, cargos, títulos, glórias, deslealdades, traições, desafios, grandes conquistas, grandes perdas, protocolos, máscaras, etiquetas, hierarquias, desrespeito, agressão, competição, “cascas de banana” estrategicamente colocadas em nosso caminho, vitórias, concursos, livros, curruculum vitae, contas , orçamentos, política, aplausos, indiferença, inveja, admiração, veneno, bajulação, reprovação, aprovação, injustiças, ingratidão, decepção, informação, fugacidade, o mundo de fora.
“Vi o mundo de eis que digo: Tudo é Vaidade e Vento que passa.”[1]
Cá dentro, o eu verdadeiro, despojamento, incondicionalidade, gratuidade, generosidade, amizade, amor, nome sem sobrenome, simplicidade, simploriedade, apelido,  lavanderia, pia de louça, cheiro de alho fritando na panela...
Vi o mundo e eis que digo: no fim das contas, o que conta é o cheiro de alho fritando na panela...




[1] Eclesiastes.

O nome de Deus em vão

O santo nome de Deus em vão
Escrito em janeiro de 2014
“Deus criou as férias em janeiro e satanás, com inveja, criou todas as taxas a serem pagas nesse mês para estragar o prazer”
Era uma postagem nas redes sociais, uma brincadeira a propósito da avalanche de pagamentos que nos “assaltam” no mês de janeiro, como matrícula, lista de material escolar, IPTU, IPVA etc.
Fui advertida por uma pessoa, que acredito bem intencionada, de que eu estava usando o nome de Deus em vão e que isto constituía um dos pecados mortais.
Bom, isto não poderia deixar de se transformar em uma crônica...
O Deus em que acredito é um Deus brincalhão, de bem com a vida, bem-humorado, que sabe “levar” uma brincadeira sem se ofender.
O Deus a Quem presto culto não é um senhor barbudo, rabugento, com palmatória na mão, à espreita para pegar cada pecadinho. Um ranzinza.
O Deus em quem acredito me dá intimidades, que Pai não daria? Posso brincar com Ele, tenho liberdade para isto. Posso até “tirar satisfações com Ele”, sendo sincera de coração. Sem medo dos rótulos de blasfêmia e outras interpretações dadas para nos distanciar de Deus.
Uma vez, era Tempo de Quaresma, bem no final, próximo da Semana Santa. Toda a liturgia voltada para o sofrimento de Jesus no Monte das Oliveiras e no caminho da Cruz. Cheguei em uma igreja, após um ano e cinco meses de depressão e crises de pânico praticamente diárias, ou várias vezes ao dia, olhei para a representação de Cristo e falei. Poxa, Jesus, qual é? Você sofreu umas horinhas no monte das Oliveiras e Três horinhas no Calvário, todo mundo está lamentando há 2 mil anos. E eu, que estou sofrendo essa depressão, angústia e pânico há um ano e meio? Até quando Você vai me deixar assim. Se até Você “pediu arrego” por um momento, pediu pra afastar o Cálice, imagine eu, que não sou Deus , nem Filho de Deus nem nada. Poxa, Jesus, qual é, né?
Foi a oração mais profunda, séria, verdadeira que fiz em minha vida. A partir daquele momento, melhorei. Não estou aqui tendo a pretensão de relatar nenhum “milagre”, mas sim que a intimidade com Deus, cura. Não porque Ele fica “lá em cima” arbitrando: aquela ali vai ficar doente, aquele ali será curado, este merece uma bênção, já aquele um castiguinho. Nada disso. Penso que muito do que eu sofria advinha de um vazio na alma (sem desmerecer o tratamento clínico, que sempre que for o caso, deve ser adotado), que foi preenchido no momento em que coloquei-me intimamente frente a frente com Deus, a ponto de ser meio atrevida com Ele.
O Deus em que acredito é um cara bacana, que me foi mostrado pelo Padre Zeca no Arpoador, Rio de Janeiro, que me é mostrado pelo Padre Fábio de Melo em suas pregações e canções. Que me foi mostrado, acima de tudo, pelos ensinamentos do Evangelho e das Cartas de São Paulo Apóstolo. É um cara maneiro, que não tem nada de rabugento.Puro Amor e Alegria! Bem-Estar e Confiança! Intimidade e Carinho!
Entretanto, este mesmo Deus em que Creio é intransigente quando -  de fato - usam seu nome “em vão”: quando  usam Seu Nome para exercer preconceitos, para manipular, extorquir, explorar, ameaçar, chantagear, excluir, julgar, discriminar, segregar, matar, violar, violentar, assediar, acusar.
Uma pessoa me contou sua curta convivência com dois padres jovens, onde pôde-se ver a presença e a ausência do Amor de Deus.
Situação 1- Domingo, mais de 23 horas, final da última Missa da Arquidiocese da Cidade do Rio de Janeiro, na Paróquia da Ressurreição,Arpoador. Um rapaz se dirige ao padre que acabara de celebrar a Eucaristia e estava cumprimentando os participantes na saída:
-Padre, fazia mais de 20 anos que eu não entrava em uma igreja. Participei da sua missa e fiquei com vontade de me confessar. Quais são os dias?
O padre respondeu:                                      
_Toda hora é hora, meu filho. É pra já! Espera só eu terminar de cumprimentar as pessoas que te atendo. Quase meia-noite, aquele padre, pacientemente, ouve a longa confissão do rapaz, suas lágrimas, aconselha-o.
Situação 2- Três anos depois.  Domingo, 14 horas, um padre que acabara de celebrar um batismo, brinca com uma bola e uma criança na porta de outra paróquia no mesmo bairro. O mesmo rapaz da situação 1, que passara a participar assiduamente das atividades religiosas, aproxima-se do padre.
-Padre, eu gostaria de receber o Sacramento da Reconciliação, quando posso me confessar?
_Ah, querido, eu não sei! Olha ali no quadro de avisos. Hoje não é dia de confissão.
Ambos padres, ambos jovens, ambos no mesmo bairro, ambos hoje já não exercem o Sacerdócio, optaram por outros caminhos na vida. Entretanto, uma profunda diferença entre os dois: a presença e a ausência do Amor de Deus.
Considero que um padre que responde protocolarmente como o segundo, este sim, usa em vão o nome de Deus em sua “profissão” (não posso chamar de Vocação).  E acho que Deus, o Deus em que acredito, não tem muita paciência para isso.
Mas uma simples brincadeirinha nas redes sociais, faz o Deus em que eu acredito dar uma risadinha cúmplice, e uma piscadela, como a piscadela de olhos daquele padre vocacionado para evangelizar, quando disse ao rapaz, sequioso por (re)encontrar a Deus, quase meia-noite:
-É pra já, meu filho!
Dá-me um coração igual ao Teu, meu Mestre,
Dá-me um coração igual ao Teu.Um coração Disposto a obedecer, a seguir todo o seu viver, dá-me um coração igual Ao Teu.
Ensina-me a amar .....”[1]



[1] Um coração igual ao Teu...

Nuvem de marimbondos e porco espinho

Nuvem de marimbondos e porco espinho
Escrito em janeiro e  fevereiro de 2014
Resolução de ano novo escrita em um caderno especialmente comprado para este fim: Não mais fazer o papel de nuvem de marimbondos ou de porco-espinho.
Comprei o caderno no último dia do ano, com a finalidade de “colocar no papel” os meus desejos e metas.  Listar todos os planos, não só para o novo ano, mas para toda a vida. Afinal, completei 50 anos de idade no ano que termina.  Projetos e metas divididas em: vida espiritual, profissional, social, familiar, emocional, financeira etc. Caderninho de capa verde fluorescente. Encadernação espiralada. Páginas sem pauta, para facilitar o formato de escrita ou o sentido que eu desejar usar. Sendo canhota, sinto-me desconfortável com os cadernos espiralados para o mundo dos destros. Prefiro, por exemplo, que a espiral fique na margem superior. E meu caderninho novo para o ano-novo me permite tudo isto.
Talvez eu pudesse ter iniciado esta conversa, com uma citação famosa de Brecht[1]: Dizem violentas as águas do rio, mas não dizem violentas as margens que as oprimem.
Fico pensando em como há pessoas na vida que se colocam no lugar errado. Em pessoas que se expõem sendo francas em um mundo de dissimulação. Em como, para “sobrevivência social”, a autenticidade precisa ser um presente raro a ser ofertado somente a quem merece. Não sei ser dissimulada, mas neste meio século de vida aprendi que teria me poupado se houvesse desenvolvido a habilidade de “dissimulação social”. Chego a pensar em algumas pessoas que conheço e são assim: impávidas sempre, inatingíveis, nunca perdem a linha, nunca se exaltam, nunca perdem pontos por não saber fechar a boca na hora certa. Di-plo-má-ti-cas! Que inveja! Algumas de bom caráter, outras nem tanto. As primeiras, eu chamaria de elegantes, as demais, “puro veneno”. Nas histórias em quadrinhos, o veneno vem sinalizado com uma caveira e dois ossos em forma de x, nas revistas, o perigo alerta, se mostra, você pode evitá-lo.  Mas a vida real não é história em quadrinhos. Na vida real, o pior veneno vem embalado em papel de confeitaria, embalagem de bombom, colorido, alegre e prometendo-se “bem doce”.
Acho que vivi muito tempo pensando que o mundo é uma revista em quadrinhos, onde o bem tem cara de bem e o mal tem cara de mal. Tudo bem etiquetado . Sem margem a equívocos.
A vida real é outra. Meio século e o balanço: muito bombom envenenado em meu caminho até hoje. Preciso mudar a estratégia.
Tenho sido muito reativa, reajo às margens que oprimem e “levo a fama” de intempestiva, explosiva, “rio revoltoso”, pessoa excessivamente franca,  pois as margens que oprimem, agridem ou provocam a reação,  são quietinhas, “sonsas”, dissimuladas, silenciosas, ardilosas, invisíveis. Preciso aprender a não reagir, a deixar a opressão nas mãos de seus verdadeiros donos. Aprender a pairar acima. A me blindar.
Consta em duas listas (social e emocional) do meu caderninho verde: Não farei mais o papel de nuvem de marimbondos nem de porco-espinho.
A casa de marimbondo está lá quietinha, cumprindo seu ritual biológico e quando é atacada, a nuvem de insetos reage. Quem fica com a fama de agressor? Quem foi lá, escondido, cutucar os bichinhos que estavam vivendo suas vidinhas, ou estes, que reagiram da forma como sabem? Claro que os marimbondos, assim, tomam a fama de terríveis e agressivos insetos, cuja ferroada é aterrorizante. “Olhe como o marimbondo é um bicho agressivo, olhe o que fez com sua ferrroada!”  A agressão é calada, dissimulada; já a reação, faz barulho, é genuína, instintiva.
Onde está aquele que foi lá, mexer na casinha dos insetos? Onde está o agressor? Fazendo a corte, na sala de visitas da vida, dissimulando sua maldade em uma fala mansa, ponderada, polida, fina e socialmente validada.
De agredido, o marimbondo passa a ser visto como agressor, socialmente rejeitado e temido.
Do mesmo modo, o porco-espinho. Se você olhar sem agredi-lo, ele parece até sedoso. Se você respeitar seu limites, ele será até doce com você, Mas vá cutucá-lo, ameaçá-lo, agredi-lo em sua quietude, que ele logo se transforma em arma de guerra, arma em guerra.
Mais uma vez, o agredido ocupa o lugar e leva a fama do agressor, que continua incólume, dissimulado e “queridinho” por todos, uma pessoa equilibrada, regrada. O agredido adquire má-fama. No mínimo, é uma pessoa desequilibrada, “descompensada”. Já o agressor, um gentleman ou uma lady.
Tenho durante 50 anos sido, por muitas vezes, em nome das coisas em que acredito e valorizo, nuvem de marimbondo e porco-espinho, facilitando a vida de meus adversários.
Deliberação de ano-novo e meio século de vida: Acabou! Não mais presentearei meus inimigos/concorrentes/rivais/adversários/invejosos etc com a oportunidade de me  desestabilizar. Não vou fazer a cama para os inimigos se deitarem, como tenho feito por meio século.
Meus gestos de generosidade, de paciência são silenciosos (sim, uma paciência silenciosa e muito, muito longa que, por ser silenciosa não aparece, a não ser quando se esgota, aí aparecendo na forma de impaciência), mas minhas reações às agressões, injustiças, destratos, são barulhentas.
 Isto não está certo.
Precisamos organizar melhor isto.
Nem sempre o mundo merece nossa franqueza.
Nem sempre o mundo merece nossa sinceridade. Preciso aprender a guardar minha sinceridade para quem merece – apenas para quem merece.
 Da forma como reajo por vezes, meu QE (quociente emocional) não corresponde a um milésimo do meu QI (quociente intelectual). Preciso usar minha inteligência a meu favor.
Vamos equilibrá-los.
Vamos calibrá-los.
Calibragem. Aquela medida certa onde o pneu não está cheio demais, nem vazio demais. Nem um nem outro calibre facilitam o movimento do carro. Não passar da medida nesta calibragem. Se o pneu vazio demais em indiferença  e cheio demais em sensibilidade tem me levado à demasiada exposição,  um pneu excessivamente indiferente e insensível tornar-me-á uma cínica. (Bem que eu gostaria, às vezes... só às vezes).
Difícil constatação para quem vive o  simplório sonho de viver em um mundo onde o bem é o bem e o mal é o mal, simples assim. Onde o justo apresenta-se como justo e o injusto assume sua condição, não usa “efeitos especiais de maquiagem”. Onde as palavras que saem pela boca expressam os sentimentos que estão no coração. Onde não há segundas intenções em cada pequeno gesto. Onde e não precise estar sempre com as costas protegidas contra um possível punhal.
Onde ser quem sou?
Onde usar camuflagem social?
Até onde e até quando?
Algumas convicções: são nos laços verdadeiros e desinteressados, puros, antigos, já provados pelo tempo e pelo vento, que posso ser eu mesma.
O exercício será difícil. Ninguém deixa de ser “si mesma” de uma hora para outra.
Nunca me desvinculei de meus laços de infância porque sei que lá encontro a liberdade de ser eu.
Nunca me senti uma “estranha” no meu ambiente de origem e uma “intimamente integrada” em meu ambiente profissional. Nunca colei no rosto a “persona”[2] da intelectual que “não tem mais assunto com quem não vive no meio acadêmico”. Paradoxo numa profissão que exige a (con)fusão entre o pessoal e o profissional. Sempre, em meu íntimo, mantive um certo distanciamento social e afetivo do meio profissional.Defesa inconsciente? Consciente?
Os laços mais fortes vêm de muito longe, no tempo e, durante alguns anos, no espaço. Com quem me identifico? Com pessoas que não têm a mesma profissão que eu, que não vivem a mesma rotina que eu, que tomaram caminhos diversos na vida. Sou muito mais as minhas raízes do que meus galhos. Patrimônio afetivo acumulado, necessário neste momento de lucidez quanto à necessidade de desenvolver habilidades sociais.



[1] Brecht                                                                                            
[2] Persona. máscara

A vida continua, mas não precisa ser agora

A vida continua, mas não precisa ser agora.
Escrito em janeiro de 2014
Vivemos numa cultura lutofóbica.
Vivemos na sociedade frenética e histérica do obrigar-se a  trincar os dentes, seguir em frente, porque, afinal, a vida continua!
Você está sofrendo uma dor e uma perda irreparável? "Seu tempo acabou, time is over, pare de sofrer agora, já! Este assunto “já deu”, já está na hora de você parar de pensar nisto. A vida continua, você precisa seguir em frente."
Não se pode mais falar em luto, viver o luto. As pessoas não suportam ver as outras sofrendo: simplesmente rejeitam o sofrimento , a dor do outro, censuram, estabelecem calendários para superação da dor.
Penso que uma cultura que não suporta viver a própria dor e condena os que o fazem, tem muito medo dos que o fazem. Daqueles que assumem que estão sofrendo. Assumir que você está sofrendo é uma grande ameaça. Nem vou falar do óbvio: o sofrer atrapalha o ritmo da produtividade. Vou caminhar por outras trilhas. Eu me projeto no outro, que está sofrendo, e terei que enxergar embaixo do meu próprio tapete todo o lixo escondido, escondido de mim mesmo.
Não falo do luto de vestir-se de preto, mas também. A roupa que você escolhe usar  é expressão de seu estado de espírito. Não se trata de mera convenção. Quando estava no auge do luto, simplesmente não tinha vontade de usar um salto alto, de vestir vermelho. Eu queria a roupa mais invisível, o sapato mais despojado. Arrastar-me sobre um par de sapatilhas já era sacrifício suficiente, imagine os saltos 15 que costumo usar no cotidiano, que são “a minha marca” (e que, na verdade, em meu estado “normal” não significam qualquer sacrifício).
Sempre respondo: a vida continua, mas não precisa ser agora.
Tenho horror a esse horror coletivo ao luto.            
Sofri abalos em amizades porque dói ouvir: pare de falar nisso, já deu!!
Se sua alma funciona em outro calendário, por que impor o seu calendário à minha?
Que autoridade alguém teria para me dizer: "já está na hora de parar de sofrer/pensar/ falar nisso"?
Não seria eu a principal interessada em sofrer menos?
Admiro a Senhora Lúcia Araújo, mãe do falecido cantor/compositor Cazuza. Ela sempre diz nas entrevistas: “Ainda estou de luto pela morte do meu filho, mais de uma década depois. Eu sofro e choro todos os dias, mas é a minha forma de viver minha perda. Vou ao teatro todos os dias (durante temporada do musical Cazuza- O tempo não Para) para chorar. E choro muito. Todos os dias. Parar de sofrer seria esquecê-lo e eu não quero esquecê-lo.” 
Isto não impediu que Lucinha “seguisse em frente” e criasse a sociedade Viva Cazuza.
Mulher corajosa. “Anormal”.
Afinal,  o "normal” na cultura esquizofrênica em que estamos mergulhados é você perder um filho e não ir à missa de um mês de falecimento dele porque está viajando no feriado de carnaval para “superar”, porque a vida continua? Normal é perder um tio, primo, irmão,  bruscamente, e 30 dias depois, quando, por coincidência seria aniversario  dele ( mas os trinta dias e o aniversário caíram no carnaval, que pena!) você estar posando no sambódromo, saindo nos blocos de carnaval, porque já estava programado e você já tinha comprado os abadás antes de ele ter a infeliz ideia de morrer naquele acidente de carro? Além disso, “ele não gostaria de ver ninguém triste”...
O normal é sua mãe morrer repentinamente aos 50 anos de idade e você festejar  aniversário menos de 10 dias após o sepultamento porque já estava programada a festa? Afinal, a vida continua, e ela não gostaria de ver ninguém triste.E vamos batucar, vamos fazer outra festa, um chá de panelas, um aniversário, um chá de bebê, tudo regado a muito batuque.
É normal uma família perder bruscamente duas pessoas com 49 e 50 anos, respectivamente , no intervalo de um ano e meio e manter TODO o calendário de festas intacto e acrescentado das advindas? E muitas, muitas fotos nas redes sociais, para provar que está tudo bem, que estão superando, que são fortes, inatingíveis, e não seriam uma ou duas mortezinhas quaisquer que mudariam seus planos. Estão "sofrendo por  dentro", mas têm ânimo para escolher figurino para as sucessivas festas previamente agendadas e outras. Afinal, as crianças fazem aniversário, os noivos casam, os casais fazem bodas de prata, é preciso comemorar! Isto é um imperativo! Acima de qualquer dor. Festa, festa, outra festa. Como é que vão permitir que duas mortes de duas pessoas jovens na família atrapalhem tudo isso? Precisam mostrar que são fortes, que não se abalam, que não desmoronam.
Deveriam saber que se desmoronarem, do chão não passam. Podem desmoronar, bem-vindos ao mundo do luto legitimado, da coragem de enfrentar a fraqueza. Da força de assumir-se fraco, frágil, atingido, terra arrasada. Isto um dia passa, melhora, minora, diminui. Já o luto mal-vivido, como disse Freud , transforma-se em melancolia.[1]
Não se iludam, a conta um dia vai chegar. Jogar o luto para baixo do tapete e esconder-se atrás de sorrisos, carnavais, vestidos coloridos e brilhantes nas festas é uma “normalidade” arriscada. É o que se exige de nós, na cultura do "não-para, não-para,não-para", como tocam os refrões do funk.
Somos uma máquina, nem a morte brusca de quem mais amamos vai nos fazer parar...hahahaha....
( Insisto: a conta um dia vai chegar.Ainda que seja uma conta quase invisível de uma existência artificial e banalizada/banalizante/banal).

Esta é a sociedade da normose, da obsessão pela “normalidade”, da negação oficializada, e da rejeição cruel ao luto, à dor e ao sofrimento.
Claro que isto tem um preço. Tem gente que não “sofre” quando tem que sofrer, mas desenvolve câncer depois. 
Ou vive mesmo uma vida de abobado pra sempre, um alienado dos verdadeiros sentimentos de seu coração. 
Porque, nos casos citados e em todos, acredito que as perdas geraram sofrimento aos atingidos. Mas o sofrimento não pode aparecer na sala de visitas. Precisa ser escondido no porão.
Sofrimento é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração, parafraseando Milton Nascimento[2].
Mas que loucura é essa de separar coração de corpo, sentimento de comportamento, essa negação do luto como mera convenção social, mas também do luto como expressão da dor, como reação à perda, como reconhecimento de uma falta?
Por que as pessoas têm tanto medo disso? 
Por que rejeitam tanto, quando encontram um maluco que ainda insiste em falar, em lembrar, em se comportar como quem sofre, como quem perdeu, como quem sente uma falta, um vazio?
Elas têm medo de que?
Danem-se os modismos sociais! Dane-se a superação! Dane-se a síndrome de “He-man” (Eu tenho a força!)[3]
A vida continua, mas não precisa ser agora.
Mergulhe no luto quando precisar, quanto tempo precisar, do modo como precisar. Dê um tempo. Pare tudo o que você puder parar e chore, sofra ,sinta, não se anestesie. Você não vai morrer.
Dor dói mesmo.
O pleonasmo aqui é intencional, para chamar a atenção para a loucura de uma ilusão neurótica de dor que não dói. Dói. Dói muito.Dói mesmo.  É horrível.
Tão mais horrível quanto for importante o que ficou pendente entre você e quem se foi.
Tão mais horrível quanto for inesperada e precoce a morte.
Tão mais horrível quanto for a dimensão daquilo que não foi vivido, do sonho interrompido ou não realizado. Mas você vai suportar. Parece que não, mas vai. Coragem!
Não tem jeito. Não há escolha. Você precisa entender que em determinados momentos da vida, simplesmente não há escolha, não temos escolha.
A tragédia acontece, muitas vezes cercada de grandes e pequenas ironias do destino, mas acontece e você precisa viver isto.
Não fuja da dor.
Apoie-se no que te ajudar. Você é uma pessoa de fé? Apoie-se cada vez mais em sua fé.
Leia, leia sobre o tema, não fuja dele. Isole-se se precisar, desligue telefone, saia das redes sociais, não receba visitas se não tiver vontade, não aceite convites pra sair se sua alma estiver pedindo recolhimento. Não adianta ir,  porque onde quer que vá, sua alma irá junto. Não há como ir ali , deixar a alma sofrendo em casa e voltar já. 
Passe Natal e Reveillon trancado em um quarto escuro com as janelas fechadas, se sua alma pedir isto.
Não tenha medo de ser uma pessoa esquisita. Não será para sempre. Não serão todos os natais de sua vida assim.
Um dia a própria vida vai se encarregando de recolocar algumas coisas em seus lugares, em novos lugares, em outros lugares.
E você vai se surpreender com sua força autêntica, não aquela dos que trincam os dentes e seguem em frente no primeiro bloco de carnaval que passa logo após o sepultamento, ou na primeira caravana para a casa de praia.
Você sentirá que é forte: não precisou fugir da dor para sobreviver. Você sobreviveu a ela, com ela, por dentro dela.
Você não é o He-Man, você não é a She-Ra nem qualquer outro super-heroi.
Não tem obrigação de agir como se fosse. Você é gente. E gente sofre. Sofre mesmo, mas aguenta.
No meu caso, a religião ajudou / ajuda muito. No começo, tive a esperada reação “contra Deus”. Por que você não ouviu minhas orações? Eu pedi tanto, durante 4 dias. Mas a “revolta” passou e vi em Deus, mais uma vez meu aliado.
Usei para mim mesma, uma frase que sempre uso para outras pessoas: Jesus disse: “Quem quiser me seguir, pegue sua cruz e me siga”. Ele não disse “pegue seu travesseirinho perfumado e me siga”.Ele foi claro: pegue sua cruz! 
Ele não falou: disfarce sua cruz num abadá e vá pular carnaval ou vá passear pra esquecer sua cruz.
Na hora de carregar a cruz, é hora de carregar a cruz e ponto final.
Com todos os rituais que ajudam a purgar, com todas as missas de sétimo dia, mês e ano, se vc for católico, todos os cultos em memória, todos os tributos, se for o caso.
Deus não prometeu que não teremos tribulações,que  nos livraria delas,  mas que ele estaria conosco nelas. Não disse que não passaremos pelas águas nem pelo fogo, mas que nem as águas nos submergirão, nem as chamas nos consumirão.
Foi difícil a fase de “ficar de mal com Deus”. Mais uma vez, uma gravação do padre Fabio de Melo me ajuda: “Ah , eu não vi o seu milagre acontecer , eu não vi a sua cura se cumprir, nada que eu pedi a Deus aconteceu.... Por que você partiu, por que você se foi e por que o milagre não se deu como eu pedi”?[4]
Eu repetia esta canção milhões de vezes.
Ainda estou em uma fase em que estar na igreja, estar em oração, ajuda muito a aliviar. 
Daqui a duas semanas (do dia em que escrevo este texto) completará 2 anos. Somente agora tive alguma disposição para fazer planos para o ano novo. Listar os planos, eleger o novo ano como o “ano da virada”. Mas foram dois anos de luto interno intenso. Durante um ano e dois meses não fui a lugar nenhum , a festa alguma, a nenhum evento social. E não morri por causa disso.
Ainda não voltei ao "normal", mas já me recuperei um pouco.
Um dia me surpreendo indo ao aniversário de um aninho do meu sobrinho-neto, mesmo de cabelo molhado, sem maquiagem e com meu vestido da preguiça (um vestido confortável, mas que faz uma figura razoável, que visto nos momentos em que preciso ter uma aparência razoável, mas com uma roupa despojada, fácil de usar). Lá se iam 15 meses, a primeira festinha. Dancei um pouquinho com os sobrinhos, uma música.
Aos 16 meses, me surpreendo indo a um show musical e dançando.
Tudo vai acontecendo espontaneamente. 
O meu tempo foi/ é este.
E o seu? Só sua alma poderá dizer. Será que verdadeiramente existe uma alma que sinta vontade de dançar e festejar uma semana após a morte da mãe, um mês após a morte de um irmão ou de um tio? Está com medo de quê? Está fugindo de quê?
O mundo não vai acabar. Quando você emergir, os shows, os carnavais, as festas, todo o calendário da alegria estará ali.
Mas você viveu o seu momento. Você viveu o seu luto sem medo. E vai voltar a viver sua alegria, sem lixo escondido embaixo do tapete. 
Uma alegria que talvez nunca mais seja inteira, nunca mais seja a mesma, depende da sua perda, depende de tanta coisa...
Mas o seu momento de alegria/alegrias vai chegar. 
Confie, mergulhe na dor, ela não será eternamente mutiladora, mas é preciso parar, dizer não à normose, à histeria coletiva da festa a qualquer custo, da superação, dizer um sonoro "não" à síndrome do He-Man. 
É muito libertador poder dizer: neste momento, eu não tenho “a força”, eu não tenho força nenhuma, não tenho e pronto, eu me rendo. E dane-se o mundo! Mas um dia, algum dia, que não sei quando, vou reencontrá-la.
E a reencontrará.
Seja por meio da aproximação de Deus, seja pelo meio que sua alma disser. 
Mas deixe sua alma em paz. Defenda sua alma dos invasores. Não permita que lhe imponham seu calendário da dor. Ele é só seu.
Liberte sua alma para estar no comando do seu calendário emocional.









[1] Freud. Luto e Melancolia.
[2] Milton Nascimento..Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração....
[3] He man
[4][4] Padre Fábio