terça-feira, 29 de abril de 2014

Urgência de viver!

Urgência de viver!
Tenho sentido um apelo de urgência. Preciso viver! Já! Antes que seja tarde! 
Minha alma grita por isto. Meu corpo somatiza a violência da vida que estou levando.
Preciso da minha vida.
Preciso de tempo.
Esta urgência grita a cada dia.
São as perdas? É o efeito de ter visto 8 amigos de minha idade, partindo antes de completar os 50 anos, ou logo após, todas que passaram suas vidas trabalhando insanamente, esperando a aposentadoria para viver a vida?
É o ritmo desumano que o excesso de trabalho, que as contingências, me impõem?
Sempre trabalhei demais, esperando o futuro.
E se esse futuro, tal qual para meus amigos, não vier? E seu eu, como eles, não aguentar esperar?
Sinto-me esgotada, desmotivada, especialmente para os rituais acadêmicos medievais, para os "fru-frus", adulações, para as demonstrações ridículas de pequenos poderes, para as pessoas que dão importância demais aos títulos que possuem.
Amo dar aulas. Mas os rituais da vida acadêmica, especialmente os da "elite acadêmica" das "Grandes instituições" (atenção ao sentido irônico das aspas), têm conseguido me roubar o prazer de produzir, de pesquisar, de escrever.
Sabem? Estou me concedendo o direito de dizer: não quero mais. Quero viver!
Não quero perder minhas manhãs e minhas tardes em reuniões improdutivas, com desfile de egos, que precisam se pavonear e mostrar que sabem, que precisam de plateia, mesmo que a plateia seja composta por 3 pessoas. Cansada de presenciar alfinetadas, puxadas de tapetes (eu, pessoalmente, já aprendi a me poupar um pouco disto desde 2007, mas , mesmo aquilo em que não me envolvo pessoalmente, me afeta)
Estou farta dos egos neuróticos.
Estou farta das farpas.
Estou fartas das cobranças.
Estou farta da pressão.
Quero minha vida.
Minha vida nunca foi O MEU TRABALHO. Embora o ame, especialmente o trabalho de sala de aula.
Quando falo “quero a minha vida!”, não estou falando de grandes planos sofisticados.
Estou falando do prazer de lavar um copo dentro da minha casa, de ter  uma casa que não seja apenas o lugar aonde vou para tomar banho e dormir.
De ficar em casa.
De cuidar das plantas.
De tomar café da tarde com a família.
De cumprir todos os planos que fiz na virada do ano.
De fazer exercícios físicos.
De estudar e escrever por prazer, não por espadas dos prazos, deadlines.
Já passei por isto, no mestrado , no doutroado e em todos os anos  como pesquisadora.
Quero ter o prazer de me preparar para escrever crônicas ,estudar para isto,  não só artigos acadêmicos.
De ter tempo para viver minha espiritualidade.
Dedicar-ma às aulas de canto.
De Conviver com quem ME interessa, com quem EU escolha. 
De andar de bicicleta.
De ir à feira.
De não ver mais os feriadões só como um tempo para colocar o trabalho em dia.
Até quando terei minha família por perto- e os de longe- para poder usufruir o que REALMENTE conta na vida?
Reforma da Previdência, maldita!
Tenho 33 anos e 3 meses de contribuição previdenciária,  o que significa que trabalhei durante este tempo, afora  otempo na informalidade, sempre em três ou quatro empregos. Mas, para aposentar agora, perderei 20%.
Ok, minha saúde vale mais.
Aos cinquenta anos, sinto-me velha, cansada, exausta.
Síndrome de abstinência por não ter ânimo de ir ao teatro e ao cinema.
Eu quero tempo, eu preciso de tempo. Antes que descubra que não o tenho mais. Anntes que o segundo AVE deixe sequelas.
Que digam, que falem.
Vou optar por mim.
Não me importa se a aposentadoria no serviço público me fará perder 20 % do meu salário, pelo crime de ter começado a trabalhar ainda criança, na informalidade, aos 9 anos, e hoje, com meu tempo de vida útil desgastado, não ter ainda idade para aposentar integralmente.
Para quem viveu uma vida como estudante profissional, como bolsista, como filhinho de papai rico,e começou a trabalhar velho, ou que conquistou seus cargos por protecionismos,  pode, fácil, falar que brasileiro é vagabundo porque pede aposentadoria aos 50 anos de idade, quando poderia produzir, quando está no auge na capacidade intelectual. Sei que dirão isto de mim. 
Poderia realmente produzir nos mesmo ritmo que estas pessoas? Os meus 50 anos de idaade correspondem aos mesmos 50 de quem nunca começou a limpar, como eu,  casa de duas vehinhas aos 9 anos de idade,ajudar em casa,  a dar aulas em casa (explicadora e alfabetizadora de bairro) em tres horários aos 12, em padaria aos 14 e em escola aos 17?
E a energia já esgotada?
Sinto-me velha aos 50 anos. Isto mesmo: velha!
Quero escrever por prazer, quero aprender idiomas, quero ler o que nunca tive tempo de ler e fui deixando.
Que falem que digam, que difamem.
Vou pedir aposentadoria da Fiocruz no final deste semestre por uma única razão: TENHO ESTE DIREITO!!!!! Não devo nada a ninguém neste sentido. Já trabalhei 3 anos e dois meses A MAIS em relação ao tempo de contribuição e prefiro trabalhar mais 4 para ter direito à aposentadoria por idade. Ou seja, estou trabalhando há 4 anos “de graça” para o governo federal.
Não quero ter outro AVE (Acidente Vascular Encefálico) em minha mesa de trabalho, cmo tive em 22 de outubro de 2012. E, a julgar pelos constantes picos de hipertensão, hipoglicemia e ansiedade generalizada em decorrrência de trabalhar acima dos meu limites, isto é uma possibilidade concreta.
Quero trabalhar em um ritmo humano,dar minhas aulas com prazer e com amor.
Hoje foi mais uma dia de conflito no entorno da Fiocruz. Uma senhora assassinada ontem à noite. Vários jovens assassinados hoje.
Todos os dias é isso.
Cansei.
Joguei a toalha.
Chega!
Não quero engrossar as estatísticas das mortes prematuras de meus amigos.
Vou lutar pela minha vida, pela minha saúde, pelo direito ao que defendo: um trabalho humanizado, dentro dos limites da saúde e dignidade humana.
Ter que publicar pelo menos duas vezes por ano artigos em Revistas Qualis, só para atender aos critérios da CAPES, me faz perder o prazer de produzir. O tempo necessário para amadurecer a pesquisa e não ficar repetindo os mesmo artigos, com títulos diferentes, como – quase- todo mundo faz
Estou farta de riscos, de cobranças.
Risco de desabamento porque trabalho em um prédio que ainda não tem dez anos,e já está condenado.
Risco de morrer em um dos conflitos cotidianos que vivenciamos no entorno da Fiocruz. De me jogar no chão na hora do tiroteio.
Risco de trabalhar em um prédio cujas paredes estão perfuradas de balas.
Cansada de de ler mensagens da Presidência da Fiocruz, nos dias de conflito,  pedindo para aguardar abrir a portaria porque não há segurança.
Cansada de sair e ver tanques do Exército com fuzis apontados, dezenas de viaturas policiais igualmente.
Cansada de sentir pânico presa a um engarrafamento, com medo de arrastão.
Cansada de tentar vir de trem e ter pânico na Estação de Manguinhos por causa de tiroteio.
São 33 anos de serviço público dedicados à Educação.
São 13 anos de Fiocruz.
Já dei minha cota.
Não precido mais disto. 
Não vou mais me obrigar a viver  entre tiros de fuzil e guerra de egos e tomar um ônibus que é  assaltado  todos os dias.
Pra mim, já deu.
Recolhendo documentos para aposentadoria.E que falem!
Prefiro que falem mal de mim viva, a “chorarem” minha morte por cinco minutos e depois esquecerem de minha existência, seguirem a vida. Meu filho não vai esquecer minha existência. Meus pais, igualmente.
Cansada de ter crises de hipoglicemia, ansiedade paroxística, medicamento para dormir, e hipertensão por aborrecimentos com as loucuras dos egos neuróticos, com os tiroteios, com as portarias bloqueadas.
Chega!
Não estou encerrando minha vida produtiva. Ao contrário, quero ter uma vida humanizada e produtiva, quero escrever, publicar. Ter tempo de negociar minhas edições, pois meus livros esgotam e nem tenho tempo de reeditá-los.
Listrinho, que relata os serviços prestados à Escola pública básica, está abandonado porque não tenho tempo de divulgar. Pedagogia do Mercado, esgotado porque não tenho tempo de reeditar. 
Listrinho, para quem tem dúvidas, comprova meu compromisso profundo com a Escola básica pública. 
Ja Pedagogia do Mercado, comprova  um  volume intenso de produção de pesquisa científica em dez anos.
Já orientei mais de uma dezena de teses de mestrado e doutorado. Literalmente centenas de monografias de graduação e pós-graduação lato-sensu. 
O ego nunca me alimentou por títulos e cargos.
Está na hora de tirar meus planos da gaveta.
Dar aulas em condições humanizadas, estudar idiomas, música, cultivar plantas, ir ao teatro, ter tempo para conviver com família e amigos. Cozinhar.
Produzir artigos e livros por prazer e necessidade intelectual, e não por prazos.
Ler livros que estão empoeirados, esperando.
Participar de congressos para me atualizar e não para mais uma linha no Lattes.
Pronto, falei.
E que atire  a primeira pedra, quem trabalha desde os 9 anos de  idade e com contribuição previdenciária desde os 17. Quem tem 42 anos de trabalho, aos  51 de idade.
Fui. Viver a vida.
Os compromissos assumidos até o fim deste semestre serão respeitados.
E estou falando da aposentadoria apenas de UM vínculo, o da Fiocruz.
“Partiu”, Ser feliz!